Este livro foi digitalizado por Emanuel Noimann dos Santos e corrigido por Fabiana Martins Noimann dos Santos
Em Julho de 2007.

ESCONDE-ESCONDE
James Patterson

ESCONDE-ESCONDE

traduo Vera Maria Marques Martins

EDITORA BEST SELLER CRCULO DO LVRO
Ttulo original: Hide and Seek

Copyright (c) James Patterson, 1996

Licena editorial para o Crculo do Livro.

Todos os direitos reservados.

Coordenao editorial Janice Maria Flrido

Arte , -. Ana Suely S. Dobn ,

Edio e preparao de texto Enrico Corvisieri
Reviso Gilberto D'ngelo Braz

Editorao eletrnica Nair Fernandes da Silva '

CIRCULO DO LIVRO Direitos exclusivos da edio em lngua portuguesa no Brasil

adquiridos por Crculo do Livro Ltda., que se reserva a propriedade desta traduo.

EDITORA BEST SELLER

uma diviso do Crculo do Livro Ltda.

Rua Paes Leme, 524 - CEP 05424-010

Caixa Postal 9442 - So Paulo, SP

1997

Impresso e acabamento: Grfica Crculo
PRLOGO

ESCONDE-ESCONDE

Fiquei deitada, imvel, no vo estreito sob o alpendre de nossa casa, nas proximidades de West Point, pressionando o rosto contra o cho brutalmente frio e coberto 
de folhas secas e gravetos que me arranhavam a pele. Eu sabia que iria morrer, assim como minha filha, minha garotinha. As palavras de uma cano de Crosby, Stills 
e Nash flutuavam em minha mente: "Nossa casa  muito bonita ".

- No chore, por favor, no chore - murmurei ao ouvido da criana.

Eu no podia fugir dali, pelo menos carregando a menina. J havia pensado em todos os meios de escapar e concludo que nenhum daria certo.

Phillip iria nos matar, quando nos descobrisse. E eu no podia deixar que isso acontecesse, embora no soubesse como o impediria.

Mantive a mo sobre a boca de Jennie.

- No faa nenhum barulhinho, meu bem. Eu amo voc. Fique quietinha.

Acima de ns, dentro de casa, Phillip dava vazo a sua fria. Nossa casa. Ele percorria os andares, procurando em todos os cmodos, derrubando mveis. Furioso. Implacvel. 
Completamente louco. Mais louco que nunca. Dessa vez, a causa era a cocana, mas a verdade era que Phillip no sabia lidar com a vida.

- Apaream! Saiam do esconderijo, Maggie e Jennie! E o papai. E papai vai encontr-las de qualquer maneira - ele gritava, e j estava rouco. - Saia da, Maggie! 
A brincadeira acabou. Maggie, ordeno que aparea, sua vaca desobediente!

Fiquei deitada, trmula, sob o piso meio afundado do alpendre. Meus dentes batiam de modo incontrolvel. No, aquilo no podia estar acontecendo. Era absurdo demais. 
Continuei segurando minha menina, que fizera xixi na calcinha.

- No chore, Jennie, por favor, no chore. Voc  uma garota boazinha, que a mame ama demais.

Jennie moveu a cabea, concordando, fitando-me nos olhos. Rezei para que aquilo tudo fosse um pesadelo e que acabasse logo. Mas sabia que no era. Tratava-se de 
uma situao to real quanto aquela que eu enfrentara aos treze anos de idade, quando minha me morrera de um infarto fulminante, estando apenas ns duas em casa. 
S que era pior ainda.

Continuei a ouvir meu marido, meu marido, subindo e descendo as escadas da casa. Fazia mais de uma hora que ele gritava sem parar, correndo e dando socos nas paredes. 
Capito Phillip Bradford. Professor de matemtica na academia militar. Um oficial, um homem educado. Era nisso que as pessoas acreditavam, em que queriam acreditar, 
algo em que eu mesma acreditara.

Passaram-se duas horas.

Trs horas. Eu e Jennie continuamos naquele buraco escuro e frio. No inferno.

Jennie acabara por adormecer, felizmente. Mantve-a abraada contra meu peito para aquec-la. Eu tambm queria dormir, desistir da luta, mas sabia que no podia. 
Era de madrugada. Que horas seriam? Trs? Quatro?

Ouvi a porta da frente da casa bater com estrondo, e passos soaram como exploses, no alpendre acima de ns.

Jennie despertou.

- Quietinha - cochichei. - Quietinha.

- Maggie, eu sei que voc est aqui, em algum lugar. Sei que no teria para onde fugir. No sou burro!

- Papai! Papai! - Jennie chamou, como fizera tantas vezes, na segurana de seu bero.

A luz de uma lanterna iluminou o espao sob o alpendre. Uma luz brilhante, apavorante, que me cegou. Mil farpas agudas em meus olhos.

- Achei! Achei Jennie e Maggie, minhas duas garotas! - Phillip gritou, triunfante.

Sua voz estava irreconhecvel, de to rouca. Quase cheguei a acreditar que aquele louco no era meu marido. Como podia ser?

Ele apontou o revlver para ns e disparou dois tiros ensurdecedores. Pretendia matar a mim ou a Jennie, talvez as duas.

S que dessa vez eu tinha uma surpresa para Phillip.

Apontei a arma e atirei.

II

s vezes, tenho a impresso de que fui marcada com uma letra escarlate. E essa letra  o A, de Assassina. Sei que nunca me livrarei completamente dessa sensao, 
o que me parece muito injusto. E injusto. Desumano e indecente.

Minhas lembranas so truncadas, caticas, mas vividas e horripilantes, entalhadas em minha mente. E continuaro comigo para sempre.
Contarei tudo, no poupando ningum, especialmente a mim. Sei que querem ouvir a "grande histria jornalstica". E tambm sei o que significa ser notcia. Vocs 
sabem? Conseguem imaginar-se como uma matria de jornal, palavras escritas com letras pretas, que todo mundo l e julga?

Os jornais de Newburgh, Cornwall e Middletown chamaram aquele primeiro assassinato de "a maior tragdia familiar da histria de West Point". Para mim, na poca, 
foi como se houvesse acontecido com outras pessoas. No comigo e com Jennie, nem mesmo com Phillip, por mais que ele merecesse.

No entanto, doze anos depois, quando o tempo j quase apagara aqueles acontecimentos de minha mente, um segundo assassinato forou-me a recordar West Point com horrvel 
nitidez.

Como numa obsesso, comecei a confrontar-me com as perguntas que martelavam meu crebro: sou uma assassina? Matei no apenas um, mas dois maridos meus?

No sei mais. No sei! Por muito louco que isso possa parecer, honestamente, no sei.

Faz muito frio aqui. s vezes, o frio parece to intenso quanto naquela vspera de Natal, quando Phillip morreu. Tudo o que posso fazer  ficar sentada nesta cela 
de priso, atormentada,  espera do incio do julgamento.

Decidi escrever minha histria e estou escrevendo para mim mesma, mas tambm para vocs. Contarei tudo.

E vocs me julgaro, depois que tiverem lido. No  assim que o nosso sistema funciona? Ser um jri formado por gente igual a mim.

Ah, sim, claro, confio em vocs. Sou uma pessoa confiante. Talvez seja por isso que estou aqui, nessa encrenca horrvel.
PERSEGUIDA PELA DESGRAA

Incio do inverno, 1984.

Mais neve. poca de Natal outra vez. Fazia quase um ano que Phillip morrera, ou, como algumas pessoas diriam, fora assassinado.
Recostei-me no banco do sacolejante txi amarelo, que derrapava pelas ruas de Nova York, enlameadas pela neve derretida. Tentava levar a mente para um lugar tranqilo, 
mas no conseguia encontrar um pouco de paz. Prometera a mim mesma que no teria medo, mas estava apavorada.

Atravs do vidro molhado da janela do txi, notei que at os homens do Exrcito de Salvao, fantasiados de Papai Noel, estavam tristes. Ningum que tivesse um pouco 
de sensatez andaria pelas ruas com um tempo daqueles, e os que andavam no se decidiam a tirar as mos dos bolsos para dar uma esmola. Os guardas de trnsito pareciam 
bonecos de neve abandonados. Os pombos haviam desaparecido dos parapeitos das janelas e dos telhados.

Olhei para o meu prprio reflexo no vidro. Cabelos loiros, compridos, rebeldes, que constituam meu melhor atributo fsico. Sardas que nenhuma camada de maquilagem 
esconderia. Nariz de tamanho um tanto desproporcional. Olhos castanhos, que haviam recobrado pelo menos um pouco do antigo brilho. Boca pequena, de lbios carnudos, 
feita para a felao, como Phillip costumava dizer nos dias felizes.

Pensar nele me fez estremecer. E pensar em sexo ainda me assustava.

Um ano aps o assassinato em West Point, minha recuperao, tanto fsica como mental, no se completara. A perna continuava a doer, e o crebro no funcionava com 
a clareza da qual um dia eu me orgulhara. Assustava-me com qualquer rudo.  noite, via ameaas inexistentes nas ruas. Sempre tivera controle sobre as emoes, mas 
o perdera. Chorava  toa, ficava zangada com a gentileza dos vizinhos, suspeitava dos amigos e tinha medo de estranhos. E havia vezes em que sentia dio de mim mesma!

Houvera uma investigao, naturalmente, mas no um julgamento. Se Jennie no estivesse machucada, se apenas eu aparecesse com os cabelos ensangentados e uma perna 
ferida, teriam me mandado para a cadeia. Mas o fato de minha filha de trs anos tambm apresentar ferimentos tornou mais convincente a alegao de autodefesa.

Nenhum promotor pblico quis aceitar o caso, que a academia militar ficou muito satisfeita em ver abafado.

Todos sabiam que oficiais no atacavam suas esposas e filhas. Esposas e filhas no existiam, realmente, em West Point. Eram apenas peas decorativas.

Mudei-me para Nova York e aluguei um apartamento de dois quartos, no segundo andar de um prdio sem elevador, na rua WestSeventy-fifth. Encontrei uma escola

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para Jennie, onde ela ficava o dia todo, e entramos num ritmo mais calmo.

Mas no encontrei o que mais desejava, o fim do sofrimento, o comeo de uma nova vida.

Eu tinha vinte e cinco anos e estava marcada com a letra A. Matara uma pessoa, e, mesmo tendo sido em legtima defesa, isso no mudava o fato de que eu era uma assassina.

Sem coragem, no h vitria, eu me incentivava. E naquele dia eu estava, sem dvida alguma, sendo impulsionada por pura coragem. Ia em busca de um sonho que vinha 
acalentando por mais de doze anos.

Talvez, naquele dia, comeasse minha vida nova. Mas eu estava fazendo a coisa certa? Estava pronta? Ou iria cometer um erro horrivelmente embaraoso?

Segurei com firmeza a pasta na qual levava as canes que escrevera durante o ltimo ano. Canes, msica e letra, onde expunha minha dor e expressava as esperanas 
para o futuro.

Eu compunha desde os dez, onze anos de idade. A maioria ficava em minha cabea, mas algumas iam para o papel. Minha msica era a nica coisa que as pessoas pareciam 
apreciar em mim, a nica coisa que eu fazia bem.

Aquelas canes que levava na pasta eram boas? Talvez, mas haviam sido ouvidas apenas por Jennie e um esquilo chamado Smooch. Por mais vida que eu estivesse por 
elogios, no podia confiar na opinio de uma menina de quatro anos, ou de um animalzinho.

Logo, no entanto, outra pessoa ouviria minha msica: Barry Kahn, o cantor-compositor que eletrizara o pas, uma dcada atrs, e que agora era um dos mais importantes 
produtores de discos do mundo.

Barry Kahn queria ouvir minhas canes.

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Pelo menos fora o que ele dissera.

Eu estava paralisada. Ento, as coisas pioraram.

- Est atrasada - ele informou. Foram suas primeiras palavras. - Trabalho num esquema bastante apertado.

- Atrasei-me por causa da neve - justifiquei-me. - Levei uma eternidade para conseguir um txi, que no parava de derrapar. Fiquei nervosa e pedi ao motorista para 
ir mais depressa, mas ele foi mais devagar, e...

Meu Deus, pensei. Pareo um periquito no muito inteligente. Controle-se, Polly. J!

Ele no pareceu comover-se, o miservel.

- Por que no saiu de casa mais cedo? Meus dias so cheios, mas planejo tudo com antecedncia. Voc deveria fazer o mesmo. Quer caf?

Esse oferecimento, a sbita gentileza, pegaram-me de surpresa.

- Quero, sim, por favor.

Ele interfonou para a secretria.

- Creme e acar? - perguntou, olhando para mim. Concordei com um gesto de cabea.

A secretria apareceu.

- Lynn, caf para a sra. Bradford, com acar e creme - ele instruiu com aquela voz gutural que o tornara inconfundvel como cantor. - Nada para mim.

Dispensou a mulher com um gesto e sentou-se  escrivaninha com os olhos fechados, como se tivesse todo o tempo do mundo.

Quem  realmente esse sujeito?, perguntei-me.

Tinha pouco mais de quarenta anos, calculei, cabelos

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castanhos, com entradas altas, nariz comprido, boca estreita e uma sombra de barba no queixo. No era bonito, e refleti que as fs que o achavam sensual deviam ser 
atradas por sua alma, no pela aparncia fsica. Mas os traos do rosto sugeriam luta e, em repouso, paz.

Naquele nosso primeiro encontro, ele estava usando roupas esportivas, cala de l cinzenta e camisa azul, aberta no pescoo, tudo obviamente caro, mas desgastado 
por falta de cuidados. Barry Kahn parecia inofensivo e muito meigo.

Solteiro, deduzi. E devia morar sozinho. Eu no estava interessada nele como homem, mas notei tudo isso. Sou boa em perceber detalhes. Sempre percebo tudo, principalmente 
quando se trata de gente.
Lynn voltou com uma xcara de caf de porcelana, que peguei da mo dela, derramando um pouco do lquido no pulso. No conseguira relaxar. Na verdade, estava uma 
pilha de nervos.

Paralisada. Como que feita de pau.

Barry levantou-se para oferecer ajuda, mas eu o impedi, erguendo a mo.

- Est tudo bem - afirmei.

Controle-se, fique fria, ordenei a mim mesma. No pense no A escarlate. Barry voltou a sentar-se.

- Voc sabe mesmo escrever cartas - comentou. Tomei aquilo como um elogio.

No hospital, enquanto me recuperava, escrevia canes, uma atrs da outra. Ento, planejei escrever uma carta a Barry, uma s, dizendo quanto o admirava e pedindo 
que me concedesse uma audio, um dia. Mas essa carta gerou outra e, em abril, eu escrevia para ele

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quase todas as semanas, dizendo coisas que saam do fundo do corao a uma pessoa que nunca vira. Nossa!

Esquisito, eu sei, mas foi o que fiz.

Barry no respondia as minhas cartas, e eu nem sabia se as lia. S sabia que elas no eram devolvidas. Continuei a escrever. Na verdade, era isso que me ajudava 
a ir em frente. Eu estava conversando com algum, embora a pessoa no dissesse nada em resposta.

Acho que escrever aquelas cartas apressou minha recuperao. Fui ficando mais forte e comecei a acreditar que um dia estaria completamente curada. Jennie ficaria 
bem, pelo menos to bem quanto era possvel, para uma criana que, aos trs anos, assistira a um ato de tamanha violncia em sua prpria casa.

Minhas irms revezavam-se, indo do interior do Estado de Nova York para West Point, para ficar com ela. Jennie tinha permisso do hospital para me visitar, sempre 
que as tias pudessem lev-la, e se mostrava fascinada pela minha cadeira de rodas e a cama eltrica. E me deixava emocionada quando me abraava e pedia:

- Cante para mim, mame. No. Invente uma cano nova e cante.

E eu cantava. Por mim e por ela. Escrevia uma cano por dia.

Ento, uma coisa espantosa aconteceu. Um milagre. Ainda no hospital de West Point, recebi uma carta.

"Prezada Maggie,

Ok, ok, voc venceu. No fao idia do motivo de estar > escrevendo para voc, mas acho que sou mole, embora no goste de admitir. Se voc contar isso a algum, 
estar tudo acabado entre ns, para sempre.

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Para dizer a verdade, suas cartas me comoveram. Recebo muitas, mas a minha secretria joga a maioria fora, sem nem sequer me mostrar. E as que ela me entrega, eu 
mesmo jogo.

Mas voc... voc  diferente. Voc me faz lembrar que existe gente de verdade l fora, no apenas bajuladores que querem introduzir-se no meu estdio. Sinto que 
a conheo um pouquinho, e isso mostra o que significou tudo aquilo que voc escreveu.

Fiquei impressionado com algumas das letras de msicas que voc me mandou. Trabalho de amador, pois voc ainda tem muito o que aprender sobre a arte de escrever 
canes, mas forte, mesmo assim, porque diz alguma coisa. Isso no significa que: a) o aprendizado lhe far algum bem; b) que voc poder ganhar seu sustento compondo. 
Mas, tudo bem, tudo bem. Eu lhe darei aquela meia hora de meu tempo que voc pediu, para, como explicou, descobrir se tem algum talento.

Quando sair do hospital, telefone para Lynn Needham, minha secretria, para marcar uma entrevista. Mas, enquanto isso, por favor, no me escreva mais. Voc j tomou 
bastante do meu tempo. No escreva para mim, escreva mais canes!"

No fim da carta ele assinara "Barry", e agora l estava, me olhando, e me senti deslocada, um dos bajuladores dos quais ele reclamara. Eu no me vestira com apuro, 
esse no era meu estilo. Usava blusa branca, tipo camponesa, colete cor-de-rosa, saia preta, comprida, e sapatos sem saltos.

Mas estava l. Lutando.

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Tentava com muito empenho no ter pensamentos negativos, mas coisas assim, realmente boas, nunca acontecem para pessoas como eu. Simplesmente no acontecem.

- Voc canta tambm, ou simplesmente compe? - ele perguntou.

- Tambm canto, pelo menos espero que possa chamar aquilo de "cantar".

Pare de se desculpar, Maggie. Voc no tem de se desculpar por coisa alguma.

- J se apresentou profissionalmente?

- Cantei acompanhamentos, algumas vezes, em boates, na regio de West Point e Newburgh. Mas meu marido no gostava.

- No gostava nem um pouco, no ?

- Achava que eu me expunha e no suportava que outros homens olhassem para mim.

Por isso, dei trs tiros nele.

- Mas gostaria de tentar, agora? Seria capaz de cantar em pblico?

Meu corao disparou diante da idia.

- Seria, sim - respondi, achando que dizia a coisa certa.

- Boa resposta. - Ele apontou para um brilhante piano preto, um Steinway, no outro lado do escritrio. - Mas agora far um teste, sem pblico. Trouxe alguma coisa?

Peguei minha pasta.

- Muita coisa. O que deseja ouvir? Baladas? Blues? Ele fez uma careta.

- No, Maggie. S uma cano. Isto no  uma sesso de jazz.

Uma cano?

Senti-me desanimada. Levara duas dzias, no mnimo.

Fiquei nervosa e confusa, como se estivesse nua diante dele.

Controle-se. J cantou essas msicas mais de mil vezes.

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E ele  um ser humano como voc. Apenas se comporta de modo diferente.

- Vamos em frente - ele disse, olhando para o relgio. - Por favor, Maggie.

Respirei fundo e me sentei ao piano. Sou muito alta, e isso me deixa acanhada, de modo que prefiro me sentar, sempre que possvel. Do banquinho, eu podia ver o caos 
silencioso da Broadway atravs da janela.

Madeira fossilizada. Bem, voc est aqui e vai ser ouvida por Barry Kahn. Agora, deixe-o de boca aberta. Voc... pode... fazer... isso.

- Esta  uma cano chamada Mulher sob a Lua. E sobre... uma mulher que trabalha durante a noite, limpando prdios, numa cidade pequena. Fala de como ela v a lua 
de uma certa janela, enquanto trabalha, do que sonha, limpando os escritrios.

Olhei para Barry Kahn. Meu Deus, eu estava em seu escritrio! A mulher sob a lua era eu. Ele se reclinara na cadeira e pousara os ps na gaveta de baixo da escrivaninha, 
mos juntas, os dedos esticados, olhos fechados. No disse nada.

Musicalmente falando, Mulher sob a Lua era igual a uma cano de Barry, Luz de Nossos Tempos. Comecei a tocar e a cantar em voz baixa, indecisa, que de repente me 
pareceu enfadonha e comum. Enquanto cantava, sentia que perdia a ateno de Barry.

Acabei. Silncio. Por fim, ousei encar-lo. Ele no mudara de posio.

- Obrigado - agradeceu. Esperei. No veio mais nada. Coloquei a partitura de volta na pasta.

- No vai fazer uma avaliao? - perguntei, temerosa da resposta, mas querendo ouvir algo mais do que "obrigado".

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Ele deu de ombros.

- Como posso avaliar minha prpria criao? Essa msica  minha, no sua. Minha voz, imitada pela sua. No estou interessado.

Senti um forte rubor subir-me ao rosto. Estava humilhada, mas tambm zangada.

- Pensei que fosse gostar. Fiz essa cano em sua homenagem.

Queria sair correndo da sala, mas me obriguei a ficar.

- timo, muito bem. Estou honrado. Mas pensei que veio aqui para tocar suas canes. Se quisesse ecos, cantaria no tnel do metr. Todas as outras so iguais as 
minhas?

No, desgraado. No so iguais s de ningum.

- Quer saber se tenho algo mais original?

- Originalidade  o que estou procurando. Originalidade  um comeo.
Comecei a folhear as partituras. Meus dedos estavam amortecidos e desajeitados. Uma banda marcial completa tocava dentro da minha cabea.

- Ouviria mais uma?

Ele se levantou, abanando a cabea numa negativa.

- Maggie, na verdade, acho que no...

- Tenho muitas que so minhas, no suas - insisti, pois prometera a mim mesma que no me sentiria embaraada.

Ele suspirou, rendendo-se.

- J que est aqui... mostre mais uma. Uma, Maggie. Tirei a partitura de Bhte da Centurea. Parecia um pouco

com um antigo sucesso de Carole King. Talvez no fosse bastante original. Muito rica, muito inteligente, mais besteira. O barulho na minha cabea tornara-se trovejante, 
como o de um trem de metr aproximando-se. Eu me sentia como se fosse ser atropelada.
Guardei Blue da Centurea e escolhi outra, Perda do Estado de Graa. Sim. Essa era melhor. Eu a escrevera recentemente, depois de me mudar para Nova York.

Uma cano.

Sentia os olhos de Barry Kahn em mim, sua crescente impacincia. A sala estava quente. No olhei para ele. S para a partitura de Perda do Estado de Graa.

A cano era sobre meu casamento com Phillip. Profundamente pessoal. O xtase inicial, o amor que eu sentira, ou que pensara sentir. O terror. O horror daquela primeira 
vez em que me senti saindo do estado de graa, incapaz de poder retornar.

Uma cano.

Voltei ao piano, respirei fundo e comecei a tocar.

Cantei muito baixinho, em princpio, depois com paixo cada vez maior, quando a msica me envolveu e me fez lembrar exatamente o que a inspirara: Phillip, Jennie, 
eu mesma, nossa casa perto de West Point.

Captei uma mudana no ambiente, senti a afinidade, a compreenso pelas quais ansiara em minhas cartas, elos que me ligavam ao homem sentado silenciosamente no outro 
lado da sala.

Terminei e esperei, pelo que me pareceu uma eternidade, que ele dissesse alguma coisa. Por fim, virei-me. Barry estava de olhos fechados e dava a impresso de estar 
com dor de cabea. Abriu os olhos.

- No devia rimar "sofrimento" com "momento" - disse. - E uma rima pobre e, embora isso seja aceitvel numa msica country, prejudica quando se est tentando fazer 
algo mais srio.

Comecei a chorar. No pude evitar. Era a ltima coisa que eu desejava fazer. Fiquei furiosa comigo mesma.

- Ei! - ele chamou.

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Eu j enfiara a partitura na pasta e caminhava para a porta. Com vontade de correr. Mas no correria.

- Ei! - ele repetiu. - Pare de chorar. Espere um minuto.

Virei-me.

- Lamento ter tomado tanto do seu precioso tempo. Voc s soube falar de uma rima pobre, depois que coloquei o meu corao para fora, cantando. De jeito nenhum poderamos 
trabalhar juntos.

Sa correndo da sala, passei por uma espantada Lynn Needham e peguei o elevador extravagante, em estilo art dco.

Que Barry Kahn se danasse.

Eu era bastante dura para poder lidar com aquilo. Precisava ser. Tinha uma filhinha para sustentar, para no falar de mim mesma. Fora por isso que escrevera para 
mais meia dzia de empresas fonogrficas, alm da Barry Kahn, enquanto estava no hospital. No dia seguinte, visitaria uma delas. Depois outra. E outra, se fosse 
necessrio.

Algum iria gostar da minha msica. Minhas canes eram boas demais, verdadeiras demais para que algum as ouvisse sem sentir alguma coisa.
Azar seu, Barry Kahn, sr. Mandachuva. Sr. Meu Tempo  PreciosoDemais! ".

Voc no soube aproveitar!

Acho que voc j teve vontade de dizer, ou mesmo de gritar bem alto: ei, sou inteligente, boa pessoa, tenho talento!

Foi o que gritei em Times Square. Nenhum problema. Ningum notou. Eu no era diferente dos outros lunticos que andavam por l.

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Vagueei por duas horas, ignorando a neve que caa, depois fui pegar Jennie na escola, na West Seventy-third. Eu me sentia um lixo e s esperava no ter essa aparncia. 
Nossa, que dia!

- Vamos comemorar - eu disse. - Amanh comeam as frias de Natal. D um grande abrao em sua me favorita, e depois iremos a um elegante restaurante nova-iorquino. 
S ns duas. Onde quer comer? No Lutce? No Windows on the World? No Rumpelmayer's?

Jennie analisou a oferta cuidadosamente, franzindo a testa e alisando o queixo, como sempre faz quando tem de tomar uma deciso importante.

- Que tal o McDonald's? Depois podemos ir ver um filme.

-  isso a! Comeremos um "quarteiro com queijo! - Ri, pegando a mozinha dela. - Minha doce coelhinha, voc  o que existe de mais importante. E gosta das minhas 
canes.

- Eu adoro, mame.

Comeamos a dizer bobagens, como sempre. Em nossa conversa, ramos "amigas", "amigas ntimas", "tagarelas", "almas gmeas", "dupla esquisita". Dizamos que "nunca 
estaramos sozinhas, porque uma sempre teria a outra".

- Como foi o seu dia, meu bem? Caramba, uma pessoa precisa ser durona para viver em Nova York. Ainda bem que ns somos.

- Foi divertido. Tenho uma amiga nova chamada Julie Goodyear. Ela  muito engraada. A sra. Crolius disse que sou inteligente.

- Voc . Tambm  bonita, e uma pessoa muito bacana. Mas  baixinha demais!

- vou ser maior do que voc, no vou?

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- Acho que sim. Vai ter mais ou menos dois metros e dez de altura.

E amos falando assim, sem parar.

As tagarelas.

As amigas ntimas.

Estvamos indo muito bem, nos acostumando em Nova York, ou quase, nos recuperando de Phillip o melhor que podamos.

Que Barry Kahn fosse para o inferno!

O sr. Mandachuva estragara tudo!

Estava to escuro quanto o corao de Phillip, quando Jennie e eu chegamos em casa. Toda minha atitude desafiadora evaporara-se, e olhei para a fachada do nosso 
prdio velho e feio com total desnimo.

Merda, merda, merda. Acho que teremos de morar aqui por mais um pouco de tempo. Talvez pelo resto da vida.

Abri a porta, que bocejou, como sempre. Uma tpica reao nova-iorquina.

Droga, droga, droga! As luzes estavam apagadas, no vestbulo e no patamar do primeiro andar.

Tudo o que eu podia ver era um pouco de luz do poste em frente, entrando pela janela do primeiro andar.

-  horrvel - Jennie murmurou. - D medo.

- No. No  horrvel. Na Big Apple1,  divertido. - Peguei a mo dela, e comeamos a subir a escada "divertida".

De repente, parei. Meu corpo ficou tenso, e coloquei Jennie atrs de mim para proteg-la.

Havia um vulto nas sombras do patamar. Era uma pessoa sentada, imvel, em silncio. Alta e corpulenta.

Grande Ma, o apelido de Nova York (N. do E.)

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Aquilo no era bom. Era horrvel. Dava medo. Fui em direo  pessoa, cautelosamente.

- Ol. Quem ? Ei, voc a em cima! - chamei, pensando nas histrias de horror sobre Nova York e nos horrores que enfrentara em West Point.

A pessoa parecia estar usando algo na cabea. Uma cartola estranha? Algo esquisito como o diabo.

Phillip! Imaginei o inimaginvel. Eu sabia que no podia ser, mesmo assim tive o pensamento.

Phillip adorava me assustar, saltando de trs de um arbusto ou de uma porta. Sabia que me apavorava e achava muito engraado fazer isso. Uma vez, num Dia das Bruxas, 
ele colocou um cocar de ndio na cabea e correu para mim, brandindo um machado. Foi o pior dos sustos que me deu.

Mas, no fim, fui eu quem saltei sobre ele, de arma em punho, atirando... atirando...

Phillip estava morto, disse a mim mesma, e fantasmas no existiam, nem mesmo em Nova York.

Cheguei mais perto. A pessoa no se mexeu. Aproximei-me do patamar.

- Ol! - tornei a gritar. - No tem graa nenhuma! Por favor, fale comigo. Diga "ol", pelo menos.

O rudo de nossos passos hesitantes nos degraus lembrava-me as passadas de Phillip, quando ele percorria a casa, pisando duro.

Sentindo uma ameaa de ataque histrico, provocado por um temor atvico, forcei-me a chegar ao patamar.

- Quem , mame? - Jenrie cochichou atrs de mim, contagiada pelo meu medo.

Duas vezes, no, pensei. Voc no nos machucar duas vezes. De jeito nenhum!

Atirei-me sobre o vulto ameaador, batendo nele com minha pesada pasta. Bati com fora.
Vi-o tombar, sem oferecer resistncia, e s ento descobri o que fizera.

- Oh, meu Deus, no acredito! - Comecei a rir, mas o alvio no varreu o pavor totalmente. - Oh, cara!

Jennie subiu os ltimos degraus, rindo comigo.

"Phillip" era uma gigantesca cesta de rosas de hastes longas, que devia ter custado algumas centenas de dlares.

Abri o carto que a acompanhava.
Para Maggie Bradford. 
Um brinde ao primeiro dia de seu retorno ao estado de graa. Se voc realmente quer trabalhar comigo,  louca, mas est contratada. Fez meu 'precioso tempo' passar 
como se no fosse nada. Acredite. . ;

Barry. 
Em retrospecto, foi uma histria engraada. Com um final feliz, certamente. Mas agora, enquanto escrevo, as perguntas voltam e no so nada engraadas. Para mim, 
no.

Meu primeiro impulso  sempre matar, quando estou sob tenso?
Matei no apenas uma, mas duas vezes?

Muita gente acha que sim. Uma delas  o promotor pblico do distrito da zona sul de Nova York.
Primeiro, foi Phillip Bradford. Depois, Will. f i' *,
San Diego, Califrnia, julho de 1967.

Will Shepherd, de seis anos de idade, estava sonhando com ndios. Ferozes e impiedosos, corriam para ele em

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ondas, os cavalos relinchando, as flechas longas como lanas apontadas para o seu corao. Ele adorava toda aquela excitao, o filme em sua cabea, o perigo.

Ouviu barulho de gua se espalhando.

No fazia sentido. Will abriu os olhos, fechou-os quase imediatamente e voltou a dormir.

Cowboys e ndios outra vez.

Nada de barulho de gua. No em seu filme, pelo menos.

Will tornou a acordar as quinze para as oito, vestiu-se sem fazer rudo para no perturbar o irmo, Palmer, que ainda dormia, e desceu, atravessando a casa silenciosa.

Na cozinha, pegou gelia de uva Welch's, pasta de amendoim, leite e metade de um po de frma. Caf da manh para uma pessoa. Quem precisava de me? Quem precisava 
de algum?

Will viu o prprio rosto e os cabelos loiros e despenteados na lateral da torradeira brilhante. Tinha de admitir, pensou. Sentia falta da me. Sentia horrivelmente. 
Gostaria de v-la fazendo pasta de amendoim e gelias novamente.

Sabia que ela fora morar em Los Angeles. No precisava mais suportar as brigas terrveis da me com o pai, mas naquele momento teria preferido brigas ao silncio. 
s vezes, ele e Palmer ficavam com tanta saudade da me, que choravam nas horas mais idiotas. Mas, geralmente, Will a odiava. Geralmente, mas no naquele momento.

De repente, Will lembrou-se. Barulho de gua na piscina? Pegou o prato e o copo, colocou-os na pia, depois abriu a porta de tela e saiu correndo para o sol ameno 
e para o pipilar dos pardais.

Virou o canto da casa de madeira, branca com os detalhes pintados de azul, e correu para a borda da piscina.

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Parou to de repente que quase caiu, tropeando nos prprios tnis.

Gritou, gritou, gritou to alto, que acordou o irmozinho, que apareceu na janela acima dele.

Gritou com tanto desespero, que os vizinhos correram em seu socorro. Abraaram-no, tentando no deix-lo ver a cena que ele j vira e que nunca mais esqueceria.

O que o menino de seis anos viu, boiando na gua cintilante, foi o pai, com seu roupo vermelho axadrezado e a cala bege. Um dos ps estava enfiado num chinelo 
amarelo. O outro chinelo flutuava, livre como uma folha de lrio aqutico.

Os olhos do pai estavam abertos e fixos nele. Sua culpa, pareciam dizer. Menino mau. Sua culpa, Will.

Voc sabe o que fez!

Voc sabe o que fez!

As cinco e cinqenta e dois, Anthony Shepherd sara de casa e, deliberadamente, afogara-se na piscina.

E tudo o que havia em Will Shepherd, que valesse a pena salvar, pareceu afogar-se juntamente com o pai.

Alguns dias aps o suicdio do pai, Will e Palmer passaram sua ltima tarde na Califrnia, escolhendo as roupas e brinquedos que levariam. Cada um poderia levar 
s duas malas. No mais do que isso.

A me recusara-se a lev-los para morar com ela. Ningum disse o motivo a Will e Palmer. A puta idiota, pensou Will, usando um dos palavres que o pai gritava quando 
brigava com ela. Os irmos haviam passado os dias que se seguiram ao suicdio com a bab, que tambm no aceitara ficar com eles, e agora sabiam que iriam para a 
Inglaterra, viver com pessoas que os queriam. Iriam comear uma nova vida com as tias, Eleanor e

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Vannie, que no conheciam, mas que haviam estabelecido a regra de "duas malas cada um".

No aeroporto internacional de Los Angeles, apinhado, barulhento, catico, os dois meninos loiros, parecidos um com o outro, srios e confusos, ficaram sentados com 
o dr. Engles, um dos poucos amigos do pai,  espera do vo. O dr. Engles continuava falando de Londres, da estpida rainha, da estpida troca da guarda no palcio 
de Buckingham, como nos poemas que a me lera para Will, quando ainda vivia com a famlia. Will estava se lembrando do pai boiando na piscina, olhando para ele de 
algum lugar morto.

- Senhoras e senhores, queiram embarcar no vo quatrocentos e onze da Pan American, com destino a Nova York e Londres - Will ouviu.

O dr. Engles estendeu a mo para pegar a de Will.

- Vamos?

De repente, Will mordeu-lhe a mo o mais forte que pde, arrancando sangue.

- Que praga! - exclamou o dr. Engles, dando-lhe um tapa com a mo livre. - Seu merdinha! Seu monstrinho!

Will abriu a boca. Os dentes da frente estavam vermelhos.

- No quero ir para a Inglaterra! - berrou. - No podemos ficar aqui?

Por favor, papai,

Por favor, mame.

Por favor, algum me ajude.

Eu no queria matar meu pai. Eu no queria!

Papai, pare de olhar para mim desse jeito. Por favor, papai!

Will jamais esqueceria suas primeiras horas na Ingla

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terra. Seria a mesma coisa se ele e o irmo tivessem viajado para a lua.

Tia Eleanor esperava-os no porto de desembarque. Era gorda, agitada, tinha um rosto branco como talco, e Will percebeu que estava com mais medo dele do que ele 
dela. Antipatizou com a mulher no instante em que a viu.

Ela no vai me machucar, decidiu. Ningum me machucar de novo, principalmente ela.

Tia Eleanor explicou que tia Vannie ficara em casa para preparar um jantar especial para eles.

Vai ter gosto de merda, pensou Will. No existe lugar pior do que a Inglaterra.

No percurso do aeroporto de Heathrow para casa, tia Eleanor no parou de falar, e os meninos tiveram pouca chance de observar o que os cercava. Sempre que desviavam 
o olhar, ela erguia o dedo e mandava-os prestar-lhe ateno. Will pensou seriamente em arrancar aquele dedo com uma mordida.

- Muita gente que trabalha em Londres mora longe do centro, mas perto de uma estao de metr. Por exemplo, ns moramos em Fulham, desde que sua me se mudou para 
a Amrica, querendo fazer fortuna. E suponho que fez, casando com seu pai, no? Ela herdar todo o dinheiro, sabem, e vocs no ficaro com nada. A menos que ela 
queira lhes dar alguma coisa. Ns tambm no receberemos nada, mas nunca esperamos coisa alguma dela. De sua me, no.

No. Nunca espere nada de minha me, pensou Will.

Sabia que tia Eleanor lecionava histria em uma escola primria, e isso explicava aquele modo montono de falar. Mas ela cheirava a suor, e quem pensava que era, 
para falar mal da me dele? Dava para perceber que

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Palmer tambm no gostara dela. O espertinho estava fingindo que dormia.

Por fim, o txi parou diante de uma casa de trs andares, de tijolos  vista, com janelas muito pequenas e seis degraus que levavam  porta da frente.

- Chegamos - anunciou tia Eleanor em tom alegre. Will pensou nas rvores, no espao, no sol de San Diego, e seu peito apertou-se.

As casas amontoadas nos dois lados da rua eram parecidas com a das tias, e a nica rvore que ele viu estava encurvada, maltratada pela chuva, e no tinha nenhuma 
folha.

Palmer pegou uma das malas, tia Eleanor outra, e Will carregou suas duas degraus acima, com grande dificuldade.

Antes de chegarem ao topo, a porta abriu-se com mpeto, e uma mulher apareceu. Usava cala preta, justa, e um suter preto de gola olmpica.

Will soltou um gritinho abafado. O corao disparou, e o rosto ficou quente.

A mulher era jovem, os cabelos castanhos, meio acinzentados, iam at o meio das costas. Tinha olhos azuis e pele muito clara.

 minha me, ele pensou.

S que, claro, no era.

Era tia Vannie, a irm mais nova de sua me, mas lembrava dolorosamente a mulher que um dia, muito tempo atrs, abraara-o, pegara-o no colo, dissera-lhe que o amava 
e depois fora embora. Ele se encheu de uma curiosa mistura de medo e alegria. Queria jogar-se nos braos de Vannie e, ao mesmo tempo, correr desabaladamente rua 
abaixo, gritando.

- Tirem os sapatos antes de entrar - ela instruiu. - No queremos sujar a casa, no ?

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A casa. Inglaterra. O novo lar. A nova vida de Will. Sua prpria histria de horror. E estava apenas comeando.

A lenda teve incio cedo e nunca mudou.

"Will  um menino extremamente inteligente e esperto, mas parece ser um incorrigvel mestre da Grande Mentira Audaciosa e Encantadora!"

Foi isso o que o diretor da escola primria de Fulham escreveu, na primavera de 1970.

"Se Will se esforasse mais, suas notas melhorariam, mas ele s se interessa por esportes, em que se sobressai, e em arrumar brigas com os colegas, que o consideram 
um campeo. Eu, pessoalmente, tenho minhas dvidas que ele conhea os aspectos mais elementares do comportamento social, ou a diferena bsica entre realidade e 
fantasia."

Will conhecia a diferena, apenas fizera sua escolha.

Nos fins de semana, dava longos passeios pelo bairro, sozinho. Um dia, quando estava com onze anos, ouviu gritos vindo de um estdio que ficava a mais ou menos um 
quilmetro e meio da casa das tias. Intrigado, foi investigar. Gastou a mesada da semana para comprar o ingresso.

L, a sua frente, desenrolava-se uma cena deslumbrante: vinte e dois homens, divididos pelos uniformes, porm unidos por um mesmo objetivo, jogavam o que na Inglaterra 
chamavam de "futebol", mas que Will conhecia como soccer. Ele s vira jogarem daquela maneira pela televiso.

Jogava bastante futebol, na escola, mas eram jogos desordenados, com um bando de garotos chutando a bola pelo campo de qualquer jeito.

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Ali, no entanto, havia simetria, geometria, coordenao no ataque, uma beleza to inevitvel quanto a das ondas do mar. Um jogador, controlando a bola com os ps, 
moveu-se para a frente; outro correu para junto dele; um terceiro, correndo pela lateral, recebeu a bola do segundo, sem parar de correr, e lanou-se para o meio 
do campo, perseguido por um adversrio que deslizou a seus ps e conseguiu tirar-lhe a bola, chutando-a para um dos colegas de time.

E, ento, subitamente, tudo comeou a acontecer de modo inverso, como a mar refluindo. Jogadores da defesa tornaram-se atacantes, atacantes transformaram-se em 
defensores, uma massa rodopiante. Will pensou em um caleidoscpio que o pai lhe dera quando ele tinha cinco anos.

E o barulho! Cada vez que havia uma inverso, cada vez que uma equipe ameaava o goleiro, a multido rugia, como se respirasse pela boca dos atletas, e, quando um 
time fez um gol, o rugido tornou-se to estrondoso, que Will achou que seus tmpanos se romperiam e seu corao explodiria.

Naquela noite, a me apareceu-lhe em um sonho e, enquanto Will a observava, horrorizado, ela beijou os olhos abertos do pai morto e depois riu, olhando para ele. 
Seus dentes estavam vermelhos, gotejando sangue.

Voc sabe o que fez, Will.

Foi tudo culpa sua.

Uma manh, vrios dias depois, ele encontrou um cachorro perdido, vagueando pelas ruas de Fulham. Era macho, amarelo-escuro e marrom. Por fim, encontrara um amigo 
na velha Inglaterra de merda.

- Venha, co. Venha comigo - Will chamou, batendo na coxa vrias vezes. - Venha, Lassie.

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Entrou no parque municipal, e o animal solitrio acompanhou-o como se fosse sua sombra. No sabia por que estava sentindo raiva, mas estava. Essa sensao apoderava-se 
dele com muita freqncia, desde a mudana da Califrnia para a Inglaterra. Desde que o pai se matara. O suicdio do pai fora um mau negcio para Will, que ainda 
se sentia responsvel. Mas, pior ainda, ele se convencera de que aquele tambm seria seu fim.

Sentou-se junto de um pequeno lago. O cachorro ainda estava com ele. Era seu novo companheiro.

- Ficar comigo foi um grande erro, co. - A m sorte me persegue. No, no estou brincando.

O animal ganiu e estendeu-lhe uma pata. Mas Will estava ficando cada vez mais zangado, por causa de uma poro de coisas. O pai, as tias, Palmer. Sentia-se como 
se uma faixa apertada lhe envolvesse o peito. A cabea zunia. Havia uma bruma vermelha diante de seus olhos.

Ps a mo na gua fria e rasa e apalpou o fundo, tirando uma pedra do tamanho de um punho. Sem aviso, bateu com a pedra no lado da cabea do cachorro. Bateu de novo, 
e o animal caiu, gemendo. Will continuou batendo, at mat-lo.

No sabia por que fizera aquilo. Gostara daquele co. Fosse como fosse, no estava mais zangado. Sentia-se bem. Na verdade, no sentia quase nada.

Fizera uma pequena descoberta a respeito de si mesmo: dentro dele, havia um lado predominante, bom, mas tambm havia um lado mau.

No era possvel existirem dois Wills, era?

Desde o comeo, Will soube que era grande e no

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ficou muito impressionado com isso. Mas os outros, com certeza, ficaram.

Will Shepherd era o mais jovem de todos os jogadores que j haviam pertencido ao time oficial da escola de Fulham. Com apenas onze anos, persuadiu o treinador a 
deix-lo treinar com a equipe. Ento, foi imediatamente escolhido e, ignorando as zombarias dos companheiros, cinco ou seis anos mais velhos do que ele, tornou-se 
o artilheiro do time. O que mais fazia gols!

Quando estava com doze anos, Fulham venceu o campeonato estudantil de Londres e nunca mais perdeu outro, at Will deixar a escola. Aos catorze anos, ele marcou nove 
gols em um jogo que seu time venceu por doze a zero.

Era magro e de pernas muito compridas para a idade, mas possua equilbrio notvel. Extraordinariamente rpido, corria com a velocidade de uma flecha, como dizia 
o treinador. Corria como os recebedores laterais e do meio, no futebol americano.

Treinava todos os dias, em cada momento livre, at a bola assemelhar-se a uma extenso de seus ps, ou, no mnimo, a um satlite preso por um fio invisvel. Aos 
sbados e domingos, chegava a treinar dezesseis horas. O campo era sua casa, no aquele lugar nojento onde Palmer e as tias moravam.

Os reprteres dos jornais locais espalharam sua imagem de estudante legendrio por toda Londres. Comentavam seu estilo ousado, individual e inusitado, que atribuam 
ao fato de ele ser americano.

Mas no era essa a razo. Nenhum deles sabia que Will trabalhava secretamente, aperfeioando seu estilo individualista. Ele decidira ser diferente, queria ser notado, 
pois achava essencial sobressair-se, em vez de ser visto como um solitrio. Compreendia perfeitamente o que

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aquele esporte significava para a sua vida: o futebol, naquele estilo ingls, no o deixaria sentir-se sozinho e com medo. Ele nunca mais precisaria pensar na porca 
da me, nem no pai.

O futebol era sua nica arma e iria salv-lo. Tinha de salvar!

Primavera de 1985.

Por um ano e meio, Barry Kahn me fez treinar tanto, tocando piano, que meus dedos quase se gastaram. Ensinou-me tambm vrias teorias da arte de escrever letras 
de canes: de Bob Dylan, Joni Mitchell, Rodgers & Hart e Johnny Mercer. A teoria bsica de Barry era a de que trabalho rduo vencia a mediocridade.

Ele me fez escrever e reescrever, obrigando-me a mergulhar cada vez mais fundo no passado, e havia dias em que eu queria implorar para que no me forasse tanto, 
que me deixasse descansar. Mas no pedi misericrdia. No ntimo, desejava que ele me forasse ainda mais.

Barry era impiedoso, e eu tambm.

- Voc est sonegando - ele dizia. - Est se escondendo atrs de rimas pobres e sentimentos falsos.

Certa vez observou:

- No est sentindo nada. Sei disso, porque tambm no estou. Se me deixa frio, pense numa platia. Eles a crucificaro, Maggie.

- Que platia?

- Voc no v? No sente uma platia que tem de ouvir suas canes? Se no, saia daqui. No gosto de desperdiar meu tempo.

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Continuei, at que ns dois ficamos satisfeitos, finalmente, e, ento, pude me entregar  arte de compor. Barry no deixou de ser severo e exigente, mas a msica 
chegava a mim com mais facilidade do que as letras. Eu me sentia  vontade. Um dia, ele disse que eu podia soltar ou reter o fluxo da msica, como se fosse gua 
de uma torneira. Acho que estava com um pouco de inveja. Gostei daquilo, de competir com ele, em seu nvel.

Por ltimo vieram as aulas de canto, e nisso Barry revelou-se um verdadeiro mestre. Ele me ensinou expresso, sotaque, dico, como cantar diante de uma platia, 
como usar o microfone em um estdio de gravao.

Eu tinha, ele dizia, uma voz natural, diferente da de qualquer outra cantora, mas que essa era a parte mais difcil de julgar.

- S o pblico decidir, Maggie. Quem poderia imaginar que a voz de Bob Dylan conquistaria o corao de uma platia, antes de isso acontecer? Sua voz  vibrante, 
sincera, com muitas e repentinas mudanas de entonao, de acordo com as palavras da letra. Voc consegue se mostrar carinhosa, fria, enfadada, maternal, amorosa. 
Adoro a sua voz!

Adorava? Finalmente, um elogio. Decorei-o, palavra por palavra.

Eu treinava ali perto, no estdio de gravao Power Station, cantando minhas canes, mas tambm indo buscar e entregando sanduches e caf, uma tarefa sem-fim. 
Costumava usar um sobretudo preto que descia at as botas. Usava-o em todos os lugares. Tornei-me a "Loira alta, de sobretudo, quer buscar sanduches para ns?". 
E tambm a "Claro, sem problema. Sanduches de qu?".

Eu me ressentia por ser tratada daquele jeito, achando que Barry nunca permitiria que fizessem o mesmo com

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um homem, mas ele insistia em dizer que aquilo fazia parte do trabalho e acrescentando que eu podia procurar outro lugar, se no estivesse satisfeita.

No havia "outro lugar", e eu sabia disso.

Havia Jennie, naturalmente. As "tagarelas" estavam vivas e passando bem.

Havia tambm Lynn Needham, que se tornou uma verdadeira amiga, bab ocasional, minha guia de turismo oficial em Nova York, um ombro onde encostar a cabea.

Havia nosso apartamento no West Side, o covil da iniqidade, que tinha apenas uma caracterstica realmente legal: uma cozinha onde existia uma banheira da virada 
do sculo. Eu adorava tomar banhos quentes na cozinha!

Havia encontros espordicos, mas nada que pudesse tornar-se srio. Comecei a me sentir como me sentira antes de conhecer Phillip, achando-me muito alta, muito desajeitada, 
um tanto tmida, com seios pequenos, cabelos que normalmente no ficavam como eu queria. Mas, claro, tudo isso era porque eu estava com medo de me envolver novamente. 
Eu no queria ter de contar a outra pessoa o que acontecera com Phillip. No. O que eu fizera a Phillip. Levava aquele enorme A escarlate no peito e no acreditava 
que um dia a letra desbotasse ou desaparecesse.

No, no havia "outro lugar". ,

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Eu era, ento, a garota do caf e dos sanduches. Mas fazer o qu? Aquilo era muito melhor do que a vida que eu tivera. De vez em quando era chato. Eu detestava 
aquelas corridas  lanchonete Famous, detestava ser a "loira de sobretudo", mas tambm adorava. Estava escrevendo, compondo, aprendendo. Fazia parte de uma coisa 
que, em certas ocasies, podia ser linda e emocionante.

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Uma manh, na "fbrica de msica", minha amiga Lynn Needham espiou para dentro do meu cubculo que tambm era depsito de caixas.

- E melhor largar tudo, exceto, talvez, esse caf quente. O sr. Maravilha est chamando.

Barry tentava reservar algum tempo para mim, mas apenas no fim do dia, e nem em todos, de modo que aquele chamado era bem fora do comum. Corri para o escritrio 
dele. Seu tempo ainda era precioso.

- Tenho uma boa notcia e, infelizmente, tambm uma ruim - Barry anunciou, quando entrei na sala onde dera uma audio para depois me tornar garota de recados.

Minha pulsao disparara.

Diga o que aconteceu! No fique enrolando.

- Mandei uma das suas canes para a Califrnia - ele informou. - Perda do Estado de Graa. A verso revisada, que voc me mostrou na semana passada. Algum de l 
gostou e quer gravar.

Em um impulso, corri e abracei-o. Acho que nunca fizera aquilo, antes. Sei que no.

Ele sorriu e me empurrou gentilmente, olhando-me nos olhos.

-  Agora, a m notcia. Aquele algum, uma mulher, quer ela mesma cantar.

Era minha cano.

- Diga que no - respondi. De repente, fiquei muito desanimada. - No. Por favor, Barry!

- No quer saber quem  esse algum? Eu tive de admitir que ela pode cantar a msica. Foi o que decidiu o negcio.

Tive uma viso de pesadelo, imaginando uma cantora iniciante, de terceira categoria, interpretando minha cano de modo todo errado.

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- Claro que quero saber quem . Mas se ela estragar tudo, eu vou mat-la!

Eu sei que no fui feliz na escolha das palavras.

- Acredito que ela far tudo certo. - Ele sorriu, tornando-se a pessoa doce que s vezes sabia ser. -  Barbra Streisand. Deseja gravar Perda do Estado de Graa. 
E quer que voc esteja l, com ela.

Abracei Barry novamente. Agarrei-o e beijei-o nas duas faces. Adeus ao vaivm atrs de caf e sanduches de pastrame. Ol, Hollywood!

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Reservei passagens de avio para mim e Jennie. Ns merecamos aquilo. Tnhamos lutado para conseguir. Quando chegamos, vi-me dirigindo um Saab Turbo alugado, indo 
para o Hotel Beverly Hills. Tnhamos a impresso de estar a milhes de quilmetros de West Point.

-  cor-de-rosa! -Jennie exclamou, quando subimos pela entrada de carros e paramos diante do hotel. - Minha cor favorita. E todo cor-de-rosa!

- Mandei pintar para voc - eu disse. - Telefonei e pedi a eles para pensar cor-de-rosa.

- Tagarelas! - Jennie gritou, enquanto continuvamos no impressionante abrigo de carros.

- Para sempre!

Um bonito carregador, garoto de praia, a julgar pelo loiro dos cabelos, levou nossas desgastadas maletas como se fossem da marca Louis Vuitton e guiou-nos at um 
adorvel bangal aninhado atrs do edifcio principal. Bangal nmero seis, nosso cantinho particular, tudo arranjado por Barry. "Para que voc e Jennie causem boa 
impresso." Ele conhecia essas coisas. Eu, certamente, no.

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- Chegou, senhora. E a senhorita tambm. - O carregador sorriu e abriu a porta com um movimento floreado.

No pude impedir de recuar um passo. Dzias de rosas American Beauty esperavam-me l dentro.

- Cristo... - murmurei.

Para onde olhava, via rosas vermelhas.

- H sempre tantas flores assim? - brinquei.

Minhas palavras deslizaram por cima dos cabelos loiros e hirsutos do carregador. As luzes esto acesas, pensei, mas no h ningum em casa neste Hotel Califrnia.

- Oh, no, senhora. Foi um presente. H um carto.

"Bem-vinda  cidade de lantejoulas. Acho que voc est prestes a tom-la de assalto. Mas no se deixe enganar por todo esse ouro brilhante, e muito menos por algumas 
dzias de rosas. Amo voc e Jennie, ,

B." ;\

Tambm amo voc, Barry. Mas nunca mais lhe levarei outra, xcara de caf, por mais tempo que viva.

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Talvez vocs consigam imaginar o que eu estava sentindo, ou pode ser que ningum consiga.

Aquilo era tudo com o que eu sonhara. Era todo meu estudo de quebrar a cabea, toda a tirania sem misericrdia de Barry, todas as aulas de canto e todo o trabalho 
de escrever e reescrever. Agora, l estava eu, com o estmago dando ns de marinheiro, olhando para o corredor na penumbra que levava  sala de gravao A, no famoso 
estdio Devan Sound.

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Canes que fizeram sucesso foram gravadas aqui. A minha tambm pode fazer. Oh, cara!

Era isso. Ou ia, ou rachava. A grande oportunidade que todo mundo diz querer, mas que tanta gente nunca consegue, e que eu nunca imaginei que teria.

Sabia que cada estdio ganhava uma mstica curiosa, s vezes uma reputao supersticiosa, no meio restrito de grandes msicos, de cantores que eram astros e de seus 
empresrios. Durante anos, Elton John gravou apenas em um castelo isolado, no sul da Frana. Os Rolling Stones tinham gravado em uma rstica casa flutuante, na Jamaica, 
s para conseguir um certo som. Muitos cantores country preferiam um determinado estdio de Nashville, e apenas a Chet Atkins podia produzir seus discos.

Devan era assim, em Los Angeles. Segurei a mo de Jennie. Assistimos, como que em sonho,  sesso de gravao de Barry Kahn e Barbra Streisand diante de nossos olhos.

No gostei! Na verdade, detestei. Queria gritar com os dois. A voz de Barbra no era a que soara na minha cabea, quando eu compusera Perda do Estado de Graa. O 
estilo dela era inconfundvel, poderoso demais.

- O que voc acha? - perguntei a Jennie.

Ela me ouvira cantar aquela cano centenas de vezes, na nossa casa. Conhecia meu modo de me exprimir, as grandes mudanas de emoes.

- No to boa quanto voc - ela respondeu, depois de um momento de reflexo. - Mas gosto desse jeito tambm. E to bonito!

Traidora. Infiel.

A msica foi ficando mais bonita  medida que a trabalhavam. A cada tomada ficava melhor. Comecei a ouvir coisas em minha prpria cano, que nunca ouvira.

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Era minha, mas se tornou dela tambm. Percebi que era uma parceria quase perfeita.

Fiquei quieta e engoli aquele sapo. Barry iria nos ver entre tomadas. Estava sendo to gentil comigo e com Jennie, de repente to solidrio e encorajador.

Depois de algum tempo, imaginei que Barbra Streisand estava cantando s para mim, como eu cantara para Jenme, e me senti transportada para um lugar onde a msica 
e as minhas emoes se juntavam. Estava de volta a West Point, mas em uma poca mais feliz, quando eu costumava cantar para Smooch, o esquilo, e quando raramente 
me permitia sonhar com um momento como aquele.

Comecei a sentir o corpo todo amortecido, porm de um modo agradvel.

Houve no mnimo cem tomadas, antes de Barry e Barbra se darem por satisfeitos, e a tenso na sala de controle dissolveu-se em piadas tolas e riso contagiante. Experimentei 
imenso alvio, como se eu prpria tivesse cantado, e curvei minha cabea cansada.

Senti algum pr a mo no meu ombro. Ergui a cabea e vi o rosto de Barbra Streisand. Ela se aproximara de mim.

Na vida real, se aquilo era vida real, ela era impressionante, mas no convencionalmente bonita. Havia bondade em seus olhos, e o sorriso era simptico. Eu j vira 
que ela sabia ser dura, e vi que possua um lado terno tambm. No acreditem em tudo o que lem nos jornais. A respeito de Barbra, acreditem em mim.

- Sei como deve estar se sentindo - ela disse. - Um pouco, pelo menos. Lembro-me da minha estria na Broadway, da minha primeira sesso de gravao. Estmago apertado 
e tremedeira, certo?

- Uma experincia extracorporal - respondi. Ela se sentou perto de mim e de Jennie.

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- No esquea que voc trabalhou para isso. Todo o suor, as lgrimas e os problemas de antes de hoje lhe do o direito de apreciar isso intensamente. Sua cano 
seria um sucesso, no importa quem a cantasse. Porque sou eu, receber a ateno que merece. Amei sua msica, Maggie, e todo mundo tambm amar. Escreva mais coisas 
para mim, por favor.

Ento, beijou-me no rosto e me deu um abrao.

- Obrigada - murmurou. - Sua cano  to verdadeira, e a verdade dentro de voc est hesitante.

Por um momento fiquei com a lngua presa, ento recuperei a compostura.

- Estou tentando no dizer algo estpido demais - cochichei. - No pode imaginar o que isso significa para mim e para Jennie.

- Posso, sim, perfeitamente - ela declarou. - A primeira msica  a melhor de todas. - Ento, olhou para Jennie. - Sua mame  um assombro.

Jennie sorriu, concordando com um gesto de cabea.

- Eu sei. Mas, s vezes, ela no sabe.

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Eu costumava devanear o tempo todo sobre coisas como aquelas que estavam acontecendo. Todo mundo faz isso. Ento, tudo aquilo devia ser um devaneio muito maluco, 
no?

Vendi muitas de minhas canes em um curto perodo de tempo. Estava mesmo com sorte. Todas as manhs, quando acordava no minsculo apartamento do qual ainda no 
me mudara, por insegurana, pensava a mesma coisa: nada disso pode estar acontecendo.

Uma noite, Barry me levou a um restaurante muito

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chique para comemorar "os grandes sucessos de Maggie", como dizia. Eu continuava com sorte. Matrias a meu respeito foram publicadas na Rolling Stone, na Spin e 
na People. Era tudo bizarro, irreal, fora do meu estilo, mas eu no queria que acabasse. Sentia-me algum, provavelmente pela primeira vez na vida.

Anoitecia, quando chegamos ao Lutce, na Fiftieth Street, em Manhattan. Fomos levados a nossa mesa, no salo-jardim, com uma certa pompa. Barry conhecia o chef, 
o proprietrio, os garons, os ajudantes.

- Este  um encontro romntico? - perguntei, brincando.

Acho que estava brincando.

-  meu jeito de compens-la, de uma vez por todas, pelo que aconteceu na nossa primeira entrevista - ele respondeu com um sorriso.

Estava bem-humorado. Eu tambm. Pedimos coquetis de champanhe, depois foie gras, salmo corn molho ferrugem e sufl de ameixas.

Nada disso pode estar acontecendo.

- Eu saberia fazer um jantar igual a este - declarei no fim, quando j havamos pedido conhaque e caf.

- Acredito. Sabe, nada teria me deixado mais feliz do que fiquei vendo-a...

- Voltar  vida?

- Desabrochar - ele disse. -  difcil para mim falar desse jeito, mas  a verdade.  como me sinto.

De repente, fiquei um pouco nervosa e desconfortvel. Imaginei se o nosso seria um encontro romntico, achando que ainda no estava pronta. Alm disso, tinha medo 
de estragar a amizade que nascera entre ns.

Barry, ento, piscou para mim. Devia ter captado meu desconforto.

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- As pessoas vo querer ouvi-la cada vez mais, Maggie. Suas letras, suas melodias, sua voz especial, esse seu contralto quente. Nada vai segur-la, Maggie. No h 
limites para voc.

Comecei a chorar. No salo-jardim do Lutce. Sem me importar com quem pudesse ver. Estava feliz demais, completamente eufrica.

Barry usou seu guardanapo para enxugar meu rosto, e comeamos a rir.

- Fale-me de voc. Quem diabos  voc, Maggie? Com certeza, no  mais "a loira de sobretudo".

Eu mantivera tudo preso dentro de mim, mas naquela noite deixei escapar um pouco. Barry era meu amigo, e eu confiava nele: outro grande passo.

- A mais ou menos trinta e cinco quilmetros ao norte de West Point, existe uma pequena cidade chamada Newburgh - comecei.

- J estive l e no quero voltar - ele declarou, fazendo uma careta. - A rua principal lembra Beirute. E essa Newburgh?

- J foi uma cidade bonita, Barry. Fica junto ao rio Hudson. Cidade pequena dos Estados Unidos, essa sou eu.

- Ouvi isso em algumas das suas canes, Maggie. Honestidade, sinceridade, no muito cinismo. Aspereza, mas que diabo! - Ele sorriu de modo maroto.

Comecei a me sentir acanhada.

- Tem certeza de que quer ouvir?

- Pare de se menosprezar, por favor. Agora, vai ser uma grande estrela. Tudo o que disser ser interessante. Voc j era interessante, naquela primeira vez em que 
foi ao meu escritrio.

Dei um soco no brao dele. Com fora. Fechei os olhos, tornei a abrir. Era difcil, eu no queria falar sobre o passado, nem mesmo com Barry.

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Por fim, respirei fundo, preparando-me para comear.

- Meus pais bebiam demais. Modo ameno de dizer. Eram alcolatras. Meu pai era louco, no tinha sossego. Deixou-nos quando eu tinha quatro anos. Meu papai. Adquiri 
uma gagueira que me fazia chorar de vergonha. Mas eu a venci. Mame morreu quando eu cursava a oitava srie. Tia Irene ficou comigo e minhas duas irms. Sa de casa 
quando acabei o colegial. Minhas irms se casaram e se mudaram para o interior.

Fiz uma pausa.

- Todos os meus professores queriam que eu fosse para a faculdade - prossegui. - Mas eu no conseguia me ver l. Arrumei um emprego num restaurante elegante, perto 
de West Point. Conheci Phillip. Ele me amava. Dizia que me amava, agia como se fosse verdade. Eu precisava ser amada. Realmente precisava.

Barry franziu a testa.

- Phillip era seu pai de novo, Maggie. Temos a tendncia de repetir nossos piores erros, no ?

- Acho que sim. Ele era matemtico do Exrcito. Reprimido. Vulnervel. Ainda mais necessitado do que eu. Tambm bebia. Como papai. Eu queria salv-lo, naturalmente. 
Pensei que pudesse.

- Ele batia em voc? - perguntou Barry, tocando meu rosto de leve.

Era a coisa mais certa que poderia fazer. Meu amigo.

- Eu no sabia como sair daquela situao. Naquela poca, no sabia. Para onde iria? Como criaria Jennie? Costumava me refugiar no sto da nossa casa e escrever 
canes, que cantava para Jennie. Ns duas, l no sto.

- Nunca se apresentou em pblico?

- Nem pensar! Era tmida demais para isso.

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- Mentiu para mim, quando a entrevistei para o emprego. Est despedida.

- Tudo bem. - Afaguei o rosto de Barry. - Agora, posso me sustentar e a Jennie. Obrigada por me ajudar.

- No fiz nada. S fiquei observando as coisas acontecerem. Voc  uma pessoa notvel, Maggie. Espero que perceba isso, algum dia.

Inclinei-me sobre a mesa e beijei-o suavemente. ramos bons amigos, e eu o amava. Conseguia pensar isso, mas no conseguia dizer.

- Voc  o melhor - murmurei.

- No. Estou em segundo lugar. Falo com sinceridade, Maggie. No se esquea de onde ouviu isso pela primeira vez.

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Aquele dois de julho melhorou minha vida em dez mil por cento.

Encontrava-me no estdio Meadowlands, na periferia de Nova York, com Barry e Jennie.

Nunca esquecerei. Ningum pode me tirar isso.

Alguns minutos depois das oito e meia, Bret Wolfe, o extravagante disc-jockey, subiu no palco do estdio. Estava vestido como um adolescente irreverente que no 
deveria ter recebido permisso dos pais para sair de casa com aquelas roupas.

O primeiro nmero, o de "aquecimento", iria comear logo. A platia sabia que a atrao principal, a banda R.S.V.P., s faria sua grande apario por volta das dez, 
provavelmente mais tarde. <

Mas teria uma grande surpresa.

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Bret Wolfe mal podia ser ouvido acima do barulho da multido:

-  com prazer que lhes apresento...

A orquestra comeou a tocar uma melodia muito conhecida. Objetos voadores, de brilho fluorescente, subiram em direo  lua suave, que se mostrava como uma fatia 
acima do teto do estdio.

- Tenho o grande prazer de lhes apresentar... senhoras e senhores... a banda R.S.V.P.!

Um silncio atnito seguiu-se, ento houve um rebulio entre os espectadores que ainda estavam entrando.

- No acredito que sejam eles! Iriam aparecer muito mais tarde!

- Droga, o que est acontecendo? Que merda  essa? Dos bastidores, observei serpentinas e fogos de artifcio

eltricos de cor azul voarem acima do palco. Fumaa e centelhas douradas entraram em erupo e subiram, flutuando para o leste, na direo de Nova York. O vocalista 
da R.S.V.P., Andrew Tone, esbelto e muito sexy, marchou para o microfone e segurou-o como se fosse uma cobra viva. Correu uma das mos pelos longos cabelos castanho-claros.

- Estamos Vivos e Protestando! - anunciou, erguendo o punho fechado.

A banda atacou os compassos que eram sua marca registrada. Os membros do grupo comearam a cantar a msica que estava em primeiro lugar nas paradas de sucessos de 
quase todo o mundo.

A seguir, veio Campeo de Mim Mesmo. Depois, a balada Amar uma Mulher de Carter.

A platia entregara-se a um total frenesi. Ningum conseguia entender o que estava acontecendo. Dezenas de milhares de fs s chegariam por volta de nove e meia,

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quando, em geral, as bandas locais e os grupos que faziam o "aquecimento" j estariam terminando de apresentar-se.

A msica parou, finalmente. Andrew Tone aproximou-se do microfone, erguendo as mos para pedir silncio.

- No se preocupem - comeou. - Cantaremos tudo de novo, quando todos tiverem chegado. Vocs, pssaros madrugadores, mereciam um presente. So aqueles que realmente 
gostam de msica, no?

Aplausos. Risos. Mas o mistrio continuava. O que a R.S.V.P. estava fazendo no palco, to cedo?

- Cantamos Vivos, Campeo e Mulher por uma razo especial. Sei que so trs das nossas melhores msicas. Vocs tambm sabem.

Um forte aplauso confirmou a opinio que Andrew expressara sobre a platia.

- O negcio  o seguinte: as trs foram compostas por uma pessoa que far o primeiro, e nico, nmero de aquecimento desta noite. O melhor que poderamos desejar.

Alguns assistentes talvez conhecessem meu nome. Poucos deviam saber que eu cantava. Atrs de Andrew Tone, apareceu uma turma de trabalhadores de palco empurrando 
um piano. As luzes do palco apagaram-se e um spot iluminou o teclado.

Um murmrio elevou-se da multido expectante, mas desconfiada. A curiosidade de todos estava no ponto mximo.

- Ela  uma verdadeira mulher de carter - Andrew Tone prosseguiu, falando baixinho, longe do foco de luz. - Esta ser sua primeira apresentao ao vivo, e foi por 
isso que aparecemos mais cedo. Queremos apresent-la. Foi o modo que encontramos de agradecer-lhe por suas canes.

Fez uma breve pausa.

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- Uma coisa eu garanto a vocs! Vai ser a ltima vez que essa mulher far a abertura do show de outra pessoa. Escutem. Segurem suas cabeas. Segurem seus coraes. 
AQUI EST AQUELA QUE EXPLODE CREBROS, QUE FAZ OS CORAES PARAR DE BATER: MAGGIE BRADFORDl

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Fiquei ouvindo Andrew falar e falar. Ele estava exagerando, pensei. Elevando as expectativas da platia a um nvel alto demais. Falava como se alguma cantora de 
fama mundial fosse adentrar o palco.

No estava falando de mim. No podia estar. A tenso, que aumentava sem parar, passou uma faixa de ao em volta do meu peito. E eu, com voz de contralto, tinha dificuldade 
em alcanar as notas muito altas.

Achei que no seria capaz nem de tocar, muito menos de cantar. No me sentia uma "mulher de carter", mas um ser invertebrado.

Mal podia respirar!

Obriguei-me a entrar no palco gigantesco. Os aplausos foram sinceros, mas esparsos.

Lembrei-me das palavras de Andrew Tone: "Essa ser sua primeira apresentao ao vivo".

Olhei para a suave encosta daquela montanha de rostos, vi a colcha de retalhos formada pelas roupas coloridas, o jorro de luz do spot, que fazia o piano parecer 
enorme, assustador e cheio de si.

Oh, Deus, acho que no vou conseguir. H uma cidade inteira me olhando!

Uma onda de pnico abateu-se sobre mim. Eu me senti exatamente como quando gaguejava na escola.

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Conhecia muitos dos msicos da orquestra, das sesses de gravao, em Nova York. Eles estavam de p e batendo palmas.

- Cortem essa, caras! - gritei. - Sou eu! Parem, parem, parem!

- Mostre a eles, Maggie! - um baterista chamado Frankie Constantini berrou. - Voc  a melhor!

De alguma forma, cheguei ao piano. At consegui me sentar, sem desmaiar ou ter um infarto.

Com um metro e setenta e dois, sou considerada alta, e Barry dissera que me achara impressionante, naquela noite, mas eu me sentia simplesmente desajeitada, como 
quando era adolescente. Meus cabelos, muito compridos, cascateavam pelas costas abaixo. Pelo menos, eu gostava dos meus cabelos. Eram bonitos.

- Eu morava em West Point, perto da academia militar - fui capaz de comear, falando em voz baixa no brilhante microfone prateado. - Era uma dona de casa e me chamada 
sra. Bradford. Adorava ficar no sto. Tinha um esquilo de nome Smooch, que j era meu amigo antes de minha filha, Jennie, nascer. Gostava de ficar no sto porque 
l me sentia segura. L, no tinha medo de que meu marido chegasse e me batesse. L, comecei a escrever minhas canes.

Minha mente parecia ter explodido. Phillip estava dentro dela, to ntido como se estivesse vivo. Eu ouvia os passos dele nas escadas da nossa antiga casa, a ameaa 
em sua voz: "No pode se esconder de mim!".

Minhas mos tremiam. Forcei os dedos a pressionarem as teclas do piano. Cantei, com todo o corao, tudo o que havia dentro de mim:

Eu era uma dona de casa,

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Uma esposa recente, Uma parideira, Levava uma boa vida No alto das montanhas do rei tempestade. Cortava os cabelos dele, Fatiava carne fria, Remendava punhos de 
camisas. Meu nome era sra. Bradford, E eu achava que iria morrer. Agresses, Ele me batia!

Esta no pode ser eu! -  f>\ Esta no pode ser eu! - "

Agresses.

Eu era uma dona de casa. Uma esposa recente, ,

Uma parideira, Ele me batia!

Como pode dizer que me ama, Quando acho que vou morrer?

Os aplausos aumentaram, vigorosos, ento se tornaram incrivelmente fortes. As pessoas comearam a bater os ps no cho, marcando o ritmo. O barulho era como uma 
presena fsica elevando-se para fora do estdio. E me levava para cima, mais alto do que eu jamais estivera em minha vida.

O barulho dizia que toda aquela gente acreditava em mim, na minha histria.

Era algo diferente de tudo o que eu experimentara, que no conhecera nem mesmo em sonhos e, confesso, queria que nunca acabasse.

Oh, cara! Oh, cara! Oh, cara!

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Aquilo foi o passado, e isto  o presente.

Eu nunca poderia pensar que um dia estaria onde estou agora. Em uma priso de Nova York.

Inconcebvel, impossvel. Eu nunca poderia imaginar que um conjunto de circunstncias me poria aqui.

Esta semana, trouxeram uma famosa e respeitada psiquiatra para falar comigo, uma mulher chamada Deborah Green.

Acho que no posso culpar aqueles que pensam que sou louca.

"A assassina de maridos." E assim que os jornais se referem a mim.

"A viva-negra de Bedford."

Conversei com a dra. Green em uma pequena sala de reunies ao lado da capela, um fato que me fez sorrir.

Fiquei satisfeita em saber que a dra. Green era mais especializada em casos de agresso fsica do que em homicdios.

Ela facilitou as coisas para mim. Falou de si mesma, disse por que fora escolhida e que iria embora, se eu no a achasse adequada. Tem minha idade, fala baixo e 
no  pretensiosa.

Acho que gostei da doutora. Tenho confiana nela? Bem, isso pode acontecer mais tarde.

- No vou dificultar - eu disse. - Contarei tudo o que tenho na cabea. No vejo razo para haver segredos entre ns.

Eu estava sentada diante da dra. Green, no deitada na cama porttil que haviam providenciado. Ela con

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cordou, ento sorriu. Era boa nisso de convencer as pessoas a falar.

Mas, claro, eu no iria ser completamente sincera. Havia um grande segredo que no contaria a ela, nem a ningum.

Por ironia, era o que poderia ter me salvado.

- Se deseja jogar fora um monte de tralha, Maggie v em frente.

Eu ri.

-  mesmo tralha, no? Sim, eu queria jogar fora.

Desse modo, nas primeiras sesses, contei  dra. Green tudo o que os jornais e emissoras de televiso gostariam de saber e no tinham conseguido arrancar de mim 
por dinheiro algum.

Contei a ela o que me deixava ansiosa, envergonhada e, tambm, furiosa.

Falei sobre meu pai, e de como ele abandonara minha me, em 1965. Fora embora, simplesmente, como se a nossa casa fosse um motel onde se hospedara durante uma viagem.

Sobre minha horrvel gagueira, que apareceu quando eu tinha quatro anos e continuou at os quinze. De como as outras crianas me machucavam, zombando de mim, como 
isso fazia que eu me sentisse inferior e intil. Como vencera essa deficincia sozinha, sem a ajuda de ningum.

Contei que criava canes na minha mente para fugir das vozes negativas que povoavam o mundo da minha infncia. Falei de Phillip, o professor universitrio que todos 
julgavam gentil e tranqilo, mas que no era nada disso. Ele tinha um Corvette preto, que costumava tirar da entrada de carros da nossa casa em marcha a r, a sessenta 
quilmetros por hora. Tinha uma coleo de ar

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mas Estabelecera regras s quais eu devia obedecer em todos os momentos em que estivesse acordada e, provavelmente, tambm quando dormia.

Eu falava durante mais ou menos duas horas, sem parar, e a dra. Green raramente me interrompia.

Acredito que esgotei o repertrio durante a terceira ou quarta sesso.

- Acho que voc omitiu uma coisa - ela comentou.

- O qu?

- Bem, o que me diz de Will Shepherd? Lembra-se dele? Claro, Will.

Eu fora para a priso porque o matara.

- Estou treinando para chegar em Will - respondi. - Ele se encaixa numa categoria especial.

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Will aprendeu a fingir que era um bom aluno e a no ser desmascarado. J estava sendo considerado o melhor jogador juvenil de Londres. E era muito popular, pelo 
menos entre as garotas. Mas ainda no tinha um amigo de verdade.

No incio do vero que se seguiu ao seu dcimo quarto aniversrio, pegou a gripe asitica e foi dominado por arrepios e febre. Chegou a ficar com medo de morrer 
e ir juntar-se ao pai.

Tia Vannie cuidou dele no perodo mais crtico. Estava sempre  disposio. Algo estranho, porque toda vez que Will ficava doente, era tia Eleanor que lhe levava 
comida e o confortava. Na verdade, estivesse ele doente ou saudvel, tia Vannie no passava de uma figura distante em sua vida. Ela saa quase todas as noites, geralmente 
para encontrar-se com homens, que lhe davam uns aper

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tos por algum tempo e depois desapareciam, sendo substitudos por outros.

No entanto, Will e Vannie costumavam jogar xadrez. Ela era vida por vitrias, mas ele aprendera depressa, e no fim de uma semana os dois j podiam de fato competir. 
Will pegou-se esperando ansiosamente pelas partidas.

O xadrez permitia-lhe observar a tia de perto. Ele e o irmo, Palmer, haviam tido inmeras conversas, que juraram manter em segredo, sobre Vannie. Conjeturavam a 
respeito de seus homens, de suas viagens a Bournemouth ou ao sul da Frana. E, enquanto ela examinava o tabuleiro, Will podia olh-la, observar cada um de seus movimentos.

Olhava os seios dela. Imaginava-se beijando-os, sugando gentilmente os mamilos, que o tentavam, aparecendo sob cada blusa ou vestido que ela usava. Imaginava-se 
arrancando cada um dos mamilos com uma mordida.

- Voc pode enganar todo mundo, Will, mas a mim, no - declarou Vannie, durante uma partida de xadrez particularmente enervante. - Sei que  muito esperto, e que 
no quer que saibamos disso. Mas eu sei. Sei at o que voc est pensando, meu querido menino.

No stimo dia da doena, Will acordou e ficou um pouco aborrecido por estar se sentindo to melhor. Teria de levantar-se, sabia, e s a perspectiva de jogar futebol 
novamente animou-o. Os momentos com Vannie, porm, terminariam.

Por volta de nove e meia da manh, bateram na porta. Tia Eleanor levara Palmer ao zoolgico do Regenfs Park, e Will decidiu fingir que estava mais doente do que 
realmente se sentia. Gostava de fazer encenaes, de provar que era bom nisso.

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- J acordei - disse com uma vozinha fraca, como a de Tiny Tim, em Contos de Natal - Entre, por favor.

Vannie abriu a porta. Usava um vestido listrado de algodo, apertado nos seios. Ele notou os seios imediatamente. Sempre notava.

- vou fazer ovos mexidos - ela informou. - Comeria isso, senhor Will?

- Um pouco - ele respondeu, ainda no papel de Tiny Tim. - Meia poro, talvez.

- No sei se serei capaz de preparar tanto assim - ela brincou, piscando para ele.

Aquilo fez Will sorrir.

Vannie dizia que ele tinha um sorriso velhaco. Will sabia que ela gostava, ento sorria. Encenao.

- Fique a, deitado. Trarei o seu caf da manh, senhor Will.

Trmulo, ele observou-a sair. Ela retornou meia hora depois, trazendo ovos mexidos e pur de batata para os dois, e sentou-se na beirada da cama. Aquilo foi extremamente 
bom.

Will tinha a impresso de que fazia um ms que no comia, mas a proximidade de Vannie acabou com seu apetite por comida.

- Ainda no sente fome? - ela perguntou, acabando de comer. - O que acha de uma ltima partida de xadrez? Pelo campeonato de Fulham? Voc me parece recuperado o 
bastante para poder jogar.

- Vamos l. Pelo campeonato.

E pelo que jogaremos, Vannie? O que vale o nosso campeonato? Acho que sei pelo que voc quer jogar. Acho que sei.

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Vannie retirou os pratos depressa e colocou o tabuleiro

na cama.

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- As peas pequenas da frente se chamam pees - arreliou. - Por favor, movimente uma, de modo que eu possa comear a estraalhar voc.

Will concentrou-se no jogo. O desafio da tia despertara seu esprito altamente competitivo, e ele estava determinado a vencer. At esqueceu os seios e todo o resto 
do corpo da tia.

Foi a melhor partida de todas. Os dois perseguiam-se de perto, mais de perto do que Vannie poderia ter esperado, mas no ltimo minuto, com um lance que ele deveria 
ter previsto, ela tomou sua torre com um cavalo e inclinou-se para trs com maldosa satisfao.

- Receio que seja xeque-mate, querido sr. Competitivo.

- Saco! - Will gritou e deu um tapa no tabuleiro. As peas espalharam-se na cama, no cho, e algumas

foram parar embaixo do criado-mudo.

- O derrotado tpico. O homem tpico - Vannie comentou. - Como voc acha que os seus adversrios sentem quando perdem no futebol?

Os dois riram. Ento, comearam a engatinhar pelo quarto, juntando as peas: a rainha estava sob o criadomudo, um cavalo cara em cima da escrivaninha, e o rei, 
no tapete de estilo oriental.

Eles estenderam as mos ao mesmo tempo para pegar o rei. O cotovelo de Will roou o vestido de Vannie, e ele sentiu o calor da pele por baixo do tecido. Ela no 
recuou. Nem ele.

O menor som, o mais leve movimento no quarto, de repente intensificaram-se. Uma onda eltrica subiu pela espinha de Will, que mal podia respirar.

Ela me deseja! Eu sabia! Estava certo!

Vannie fitou-o nos olhos por um longo instante. Encarou-o. O silncio dominou o quarto. Will tinha cons

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cincia de que seu corao martelava, e ficou com medo de que a tia ouvisse. Queria ouvir o corao dela.

Sem dizer uma palavra, Vannie passou os dedos por uma das faces dele. Ento, deslizou-os para o pescoo, por cima do pomo-de-ado. Will deixou escapar um pequeno 
gemido.

Ela se esticou para a frente e beijou-o suavemente. Ento, mordiscou-lhe os lbios. Abraou-o, apertando-o contra os seios.

Enfiou a lngua em sua boca. A lngua estava dentro dele, e era dura

- Querido menino - ela murmurou. - Voc  muito especial, Will.

Por fim, ele estendeu as mos e tocou-a, hesitante em princpio, como se no pudesse acreditar no milagre que estava acontecendo. Ento, tornou-se mais agressivo, 
correndo as mos pelas costas dela, cujos msculos firmes o surpreenderam, afagando o rosto macio, o pescoo, e, que felicidade, os seios magnficos.

Ela me deseja, finalmente, algum me quer.

- No to depressa - ela murmurou. - Temos muito tempo, meu senhor Will.

- Eu sei. Mas tenho pensado muito nisso.

Ela sorriu, e seus olhos alargaram-se, com expresso divertida.

- Tem, ?

As mos dele deslizaram pelo lado externo de uma perna dela. O tecido do vestido estalou, como esttica no ar.

Ela tirou o prprio cinto, ento puxou Will para mais perto.

Ele no sabia o que esperar. O que poderia acontecer? Era uns quinze centmetros mais alto do que Vannie e muito mais forte, embora ela no fosse fraca. As mos

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dela percorreram-lhe o corpo todo, ento introduziram-se na cala do pijama. Tirou o vestido, jogando-o no cho. Quantas mos tinha? Onde aprendera tudo aquilo?

Will sentia um calor muito grande no rosto e no pescoo. Estavam em chamas. Os ouvidos zumbiam. O pnis crescera de modo assombroso, e ele esfregou-o na pele nua 
de Vannie com um grito de profunda alegria. No tinha certeza do que devia fazer em seguida, mas descobriria. Era muito esperto, como ela suspeitava.

Nua, Vannie deitou-se de costas na cama. Com as mos, segurava as coxas abertas. As faces estavam vermelhas, e ele adorou aquela viso, que nunca mais esqueceria.

- Agora nos divertiremos bastante, Will - ela disse, estendendo as mos para ele.

Ela queria que aquilo acontecesse. Desejava-o tanto quanto ele a desejava.

Will examinou-lhe o rosto, os lindos olhos azuis, os seios que arfavam, o delicioso V entre as coxas, os plos escuros no centro. O pnis estava to duro que nem 
parecia ser o dele, dando-lhe uma sensao de fora e poder que nunca experimentara. Mais importante, ele sabia o que devia fazer. Sabia, simplesmente.

- No se apresse, Will - ela cochichou. - V devagar, meu jovem senhor.

- No se preocupe. Eu tambm no quero que acabe. Mas acabou, e ficaram deitados lado a lado. Ela afagou

os longos e loiros cabelos dele.

- Voc  to lindo! Vai ter qualquer pessoa que desejar. - Sorriu carinhosamente. - E irresistvel, Will.

Isso, ele j sabia. S no tinha certeza do que significava. Ser irresistvel era bom, ou muito, muito ruim?

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AHan "Capito" Thomas aparentava ser um sujeito comum, um comerciante, talvez, mas Will percebeu que o homem era a pessoa mais importante que j conhecera.

Thomas tinha pouco mais de quarenta anos e era o tcnico dos Hammersmith Rangers. Diziam que treinava to arduamente quanto seus atletas e que oferecia um prmio 
a qualquer jogador que o driblasse e passasse por ele, em uma disputa a dois. Tambm diziam que nunca precisara dar esse prmio.

Will estava sentado com ele na sala da casa das tias, ambos comportando-se como cavalheiros educados. Eleanor e Vannie, mostrando muito tato, haviam se retirado, 
deixando-os conversar sobre futebol, uma coisa que os homens adoram fazer.

- Vi voc jogar, Will - disse Thomas cautelosamente, como Will j esperava.

- Isso me deixa honrado, senhor. Sinceramente. Uma ova. Todos os clubes de Londres tinham enviado

espies para v-lo jogar.

- Voc tem talento natural, isso ningum discute. Eu poderia transform-lo num timo jogador, com o tempo.

Will observou "Capito" Thomas calmamente, do jeito como fazia com tudo.

- J sou um timo jogador, senhor. Sabe disso, ou no estaria aqui.

- Voc s tem quinze anos. Ningum  jogador nessa idade. Apenas tem potencial.

- Eu j sou - afirmou Will.

- E modesto tambm - replicou Thomas com uma gargalhada.

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- No, senhor, no sou modesto. Seria falsidade de minha parte. Sou um artilheiro, um grande marcador de gols. No tenho muito senso de equipe, nem penso nos outros 
que esto em campo. Sou um solitrio, um atacante, pura e simplesmente. Sou feito da mesma argila de Johan Cruyff, Pele, Gerd Mller. A Inglaterra nunca viu um jogador 
da minha idade melhor do que eu. Sou rpido como qualquer profissional, e mais forte. Todos os jornais comentam isso.

Thomas sorriu amplamente, tanto por causa daquela audcia, como porque Will podia estar com a razo.

- Os jornais locais, Will.

- E The Telegraph. E The Sun. Olhe, sr. Thomas, por que no acaba logo com isso? Quer que eu jogue para o seu clube, e eu quero jogar. Ento, vamos direto ao ponto. 
Quanto est disposto a pagar, senhor?

- Vamos, Will, me drible. Passe por mim, se acha que pode. Voc  o sucessor de Cruyff, no ?

"Capito" Thomas e Will eram os nicos que ficavam no campo at to tarde, depois de um treino. Era a mesma coisa, noite aps noite, treino aps treino. Thomas nunca 
vira tamanha nsia manaca em um jogador, nem mesmo entre os mais jovens. Will era, de fato, um atacante incrvel, um artilheiro por natureza.

- O que vai me dar, se eu conseguir?

- Vinte libras.

Will riu e afastou-se. Estava sem camisa, sacudindo os longos cabelos loiros.

- Eu no foderia sua mulher por vinte libras.

- Muito bem. Cinqenta. Mas voc tem de me driblar e passar por mim.

Will voltou, aceitando o desafio. Thomas chutou-lhe

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a bola. Will segurou-a com os ps. Com displicncia. Agindo como um merdinha idiota e convencido.

Thomas agachou-se, mas ficou apoiado nos calcanhares.

- Avise quando estiver pronto, filho.

Will estava pronto, e no era filho de ningum.

Fingiu que ia para a esquerda, rapidamente fingiu que ia para a direita, correu diretamente para o seu treinador e ento, erguendo a mo fechada, estendeu o dedo 
mdio, no gesto universal de desprezo. Passou por Thomas sem dificuldade, como se as chuteiras do homem estivessem grudadas no cho.

- Fique com o seu dinheiro - disse, rindo dele. - No vou precisar no lugar para onde vou.

Will jogou no Rangers durante dois anos, depois foi comprado pelo Liverpool, eterno campeo da liga inglesa da primeira diviso. J era o maior astro do futebol 
ingls, e seu passe foi vendido por um milho e meio de libras. Logo no primeiro ano, quando estava com dezenove, foi o grande artilheiro da liga. E por muito pouco 
no foi eleito o Futebolista do Ano.

Os jornais comentavam com grande entusiasmo sua "grande fria interior", sua "fabulosa capacidade de voar pelo campo". O Guardian publicou: "Ele desce como uma guia 
dourada em direo ao gol do adversrio".

"Parece uma flecha loira atirada contra o gol."

"Will Shepherd  um perfeito eglatra no campo. Tem a mentalidade de um artilheiro consumado. Joga como se estivesse sozinho."

Aos dezenove anos, o "Flecha Loira" comeou a aparecer tambm nas colunas sociais. "Ele foi caar raposas com amigos em Gloucestershire", "estava caando aves nos 
pntanos de Lord Dunne. perto de Balmoral, jogando

62 plo em Swinley Forest, na presena da famlia real". "Flecha Loira chama a ateno onde e com quem esteja."

Quando completou vinte anos, Will levou o Liverpool ao ttulo do campeonato da liga. Era, sem discusso, o maior astro da Europa. Ganhou o prmio de Melhor Jogador 
do Mundo, institudo pela Fifa.

- Francamente, Scarlett, no ligo para o que dizem de mim como jogador - declarou na entrega do prmio. - Eu digo se sou o melhor, ou no.

Ao mesmo tempo, Will estivera jogando na seleo dos Estados Unidos. Foi uma tentativa obstinada de manter alguma ligao com seu pas. Mas rapidamente cansou-se 
de jogar em uma equipe de burros. Deixou o time, pondo um firn a essa atividade internacional.

As histrias da imprensa sobre ele tornaram-se perturbadoras e, assim, muito mais interessantes para o pblico. Falavam de alcoolismo, de uso de drogas e coisas 
piores. "Motivos pessoais" faziam-no perder os treinos, mesmo antes de um jogo. O Liverpool passou-o para um ambicioso clube rival por dois milhes de libras. Will 
comeou a participar de corridas de carros Grand Prix, fora da temporada de futebol, uma atividade que seu contrato proibia.

"No faz diferena para mim, viver ou morrer", era uma frase dele que repetiam nos bastidores das pistas de corrida.

Flecha Loira era pura violncia, completamente irresistvel.

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Irresistvel.

Will dirigiu o potente carro esporte de Melanie Wellsfleet, uma Ferrari vermelha, at a propriedade dela, em

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Somerset. Fez o veculo correr a mais de cento e setenta quilmetros por hora, em certos trechos da estrada estreita e sinuosa, e raramente dirigiu a menos de cem 
em todo o percurso.

- No  um maldito carro de corridas! - Melanie gritou, rindo, em um momento de velocidade angustiante, que desafiava o perigo.

- Agora . Comigo no volante, . Segure-se, Mel. Esta  a corrida da sua vida.

A propriedade em Somerset era tudo o que Will imaginara e mais, muito mais.

Parecia que cuidavam dos jardins usando pinas, e Ryertton Hall, com seus vinte e seis aposentos, parecia um museu Tudor.

- Meu patro vive muito bem a minha custa - Will comentou, enquanto Melanie levava-o para conhecer os nove quartos.

Ela era esposa de s ir Charles Wellsfleet, proprietrio do time de futebol de Will, de um haras de cavalos de corridas e de uma conceituada editora. Melanie tinha 
trinta e um anos, e sir Charles Wellsfleet, sessenta e nove.

- Charles j tinha esta casa muito antes de voc entrar em cena. - Ela riu e abraou Will.

Fazia quatro semanas que estavam tendo um caso. Melanie no se fartava de Will e tinha certeza de que ele se sentia do mesmo jeito em relao a ela.

A ex-modelo de alta costura dizia a si mesma que ele no podia estar fingindo tudo aquilo, e isso a confortava, quando Will se mostrava deprimido e um pouco arredio.

- Senti saudade, quero voc, preciso de voc - ela declarou, quando chegaram  sute principal, de onde se viam um jardim topirio e o terrao que acabava no lago. 
- Do que voc precisa? O que quer?

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Ele pareceu confuso. Andou pela espaosa sute, procurando coisas nas gavetas da cmoda de Melanie e no enorme closet. Escolheu vrios vestidos, trajes de noite, 
peas de lingerie, meias, sapatos, e espalhou-os na cama e no cho.

- Posso saber por que est fazendo isso, Will? - ela perguntou, um pouquinho amuada. - No sabia que as minhas roupas eram fetiches para voc.

- Para dizer a verdade, so. Quer desfilar para mim? Nunca vi voc usando um desses vestidos lindos. Gostaria de ver.

Melanie sorriu. Adorava os joguinhos de Will, sua imaginao, sua necessidade de brincar. No era outro jogador cabea-de-vento, como aqueles que ela provara no 
passado. Will merecia sua reputao de amante sensacional.

Ela finalmente compreendera aquele negcio de Flecha Loira. Estava obcecada por ele, e no podia imaginar nenhuma mulher saudvel escapando de seu fascnio. Will 
era danado de bom.

Ela vestiu trajes de noite de Karl Lagerfeld, um vestido preto de Jil Sander, calou sandlias de Chlo. Sentado na cama, gloriosamente nu, Will brincava com o pnis, 
observando todos os movimentos dela.

Ela j sabia que ele podia manter uma ereo durante horas. Se Will tinha um problema, era o de atingir o orgasmo. Ele nunca gozara com ela. Valia a pena esperar, 
no?

Melanie estava usando um vestido vermelho e uma gargantilha de prolas, quando descobriu que no agentava mais. Correu para Will e para a sua linda "flecha".

- Por favor, por favor, faa a minha vontade! - ela gritou, de maneira teatral, rindo. - Deixe-me cair sobre a sua espada!

Will no permitiu que ela tirasse o vestido Carolina

65

II

Herrera, que valia milhares de dlares, nem os sapatos Ernesto Esposito. Usou as echarpes Hermes e meias de nilon para amarr-la s colunas da cama. Ento, fez 
amor com ela, durante horas. Levou-a ao orgasmo tantas vezes, que acabou perdendo a conta. Mas ele prprio no chegou ao clmax.

Sir Charles Wellsfleet chegou  propriedade por volta de onze da noite. Tivera um dia assustadoramente longo, cheio de reunies, em Londres. Esperava encontrar Melanie 
adormecida, como de costume.

No entanto, sua esposa estava totalmente desperta. Os olhos pareciam enormes bolas de gude azuis, e era como se ela tivesse chorado durante dias. Amarrada na cama 
por echarpes e meias de nilon, no usava nada, a no ser a gargantilha. O rosto inchado estava da cor das prolas, de to plido. As peas caras de lingerie italiana 
encontravam-se espalhadas na cama, assim como os sapatos e o vestido Carolina Herrera, rasgado.

Naquele vero, Will saiu do time de sir Charles, transferido para outro. A imprensa suspeitou de tudo, menos da verdade: Will cansara-se de Melanie. O Flecha Loira 
precisava lanar-se em um espao mais amplo.

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Uma tarde, antes de a temporada de futebol comear, Will convidou Palmer para ir ao seu apartamento, em Chelsea. Embora luxuosamente mobiliado, o lugar parecia rido, 
como se ningum morasse l. Um disco de Maggie Bradford tocava baixinho.

- Preciso da sua ajuda - disse Will, tomando um gole do conhaque caro que servira para os dois.

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Na verdade, era sua quarta ou quinta dose, e o mesmo disco estava tocando pela terceira vez.

Palmer olhou para o irmo, surpreso. Will parecia nunca precisar de nada, de ningum.

- E como eu poderia ajud-lo? - perguntou.

- Estou precisando de um empresrio e acho que voc seria perfeito. Tenho pensado muito nisso.

- Um empresrio! Pensei que Jacob Golding fizesse esse trabalho.

- Ele cuida dos meus negcios. Falo de um empresrio pessoal, algum que cuide de mim, que me mantenha longe de encrencas.

Estou comeando a assustar a mim mesmo, meu irmo. Se voc no me ajudar, quem o far?

- Uma bab, Will? - Palmer abanou a cabea e riu. Will deu de ombros.

- Se quer dar esse nome... Aceita? Pago muitssimo bem. Palmer engoliu o conhaque e levantou-se.

- De jeito nenhum, irmo.

- Por qu? O que voc est fazendo, que  to importante?

- Consegui um bom emprego no departamento de marketing da Cadbury's. Mas, mesmo que estivesse desempregado, no aceitaria.

Will sorriu.

- Por qu? Porque me odeia?

Palmer moveu a cabea, negando. Tinha cabelos loiros como os do irmo, mas curtos.

- No odeio voc, Will. Ningum consegue odi-lo. Mas odeio viver a sua sombra.

- No vai me ajudar, ento? Nem se eu disser que me sinto desesperadamente infeliz? Que estou correndo no vazio? Que todas as noites penso em me suicidar?

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Palmer no pde desviar o olhar de seu fabulosamente bonito e bem-sucedido irmo. Voltou a sentar-se.

- Est falando srio, Will? Ou  outra encenao? Outro dos seus joguinhos?

- Muito srio. Agora mesmo, estou querendo me matar, aqui, enquanto conversamos. Parece que estou fazendo uma brincadeira?

- Meu Deus! - exclamou Palmer. - Acho que est sendo sincero. Ou ficou louco. Ou as duas coisas.

- Eu no presto - declarou Will. - Nunca prestei. S voc pode me ajudar, Palmer. Temos de nos unir.

O irmo levantou-se com um leve sorriso, estranho e triste.

- Lamento, mas no posso ajud-lo, Will. Ter de procurar outra pessoa.

Will observou-o sair do apartamento. Ps mais conhaque no copo e tomou-o de uma vez s.

- Quem eu poderia encontrar? - murmurou. - Quem poderia me amar de verdade?

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Encare a realidade, Maggie.  hora de chegar  parte de Will, de falar de Will, de se livrar disso de uma vez por todas. Foi para ouvir voc falar dele que vieram 
aqui.

As pessoas, principalmente os reprteres, perguntam como pude me apaixonar por Will. Sempre quero responder: "Vocs tambm teriam se apaixonado, numa frao de segundo. 
No duvidem". No foi assim que aconteceu, porm. No comigo.

Mas Will sabia ser extremamente charmoso. Vocs nem fazem idia! E eu era extremamente carente. Queria ser amada, mais que tudo no mundo. Sempre quis. Quem no quer? 
Vocs no querem?

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Aconteceu assim, mais ou menos. Essa  a verdade, toda a verdade, ento, me ajudem.

Comecei minha primeira turn europia apresentando-me em Londres. Apesar da tenso e de toda a loucura, foi maravilhoso. Jennie e eu ficamos no Claridge's. Fomos 
ver a troca da guarda no palcio de Buckingham, e vimos A Ratoeira, a abadia de Westminster, o Big Ben. Juntas, fomos turistas fantsticas e grandes amigas. Nunca 
calvamos a boca.

Eu iria fazer dois shows em Londres. E fui a convidada de honra em um baile  fantasia, em Mayfair, cujos ingressos custavam mil libras. A renda era destinada  
luta contra o cncer infantil.

Na noite dessa festa de caridade, fiz uma gran entrance na sala de estar de nossa sute no hotel.

- Mame, no! Voc no vai aparecer em pblico desse jeito! - exclamou Jennie, e fez uma careta, como se ela houvesse acabado de tomar um gole de cerveja, das bem 
fortes.

Segurei a mscara de lam dourado diante do rosto e olhei-me no espelho. Dobrei-me de tanto rir. Jennie estava certa. As costuras da minha fantasia de dama antiga 
ameaavam estourar, e os meus seios estavam muito mais expostos do que eu imaginara. Nossa!

- Claro que vou aparecer assim. O traje est perfeito. Barbara Cartland tambm acharia.

- Quem  Barbara Cartland? A costureira que fez a sua fantasia? A estilista de Drcula?

- No sabe quem  Barbara Cartland? Bem, isso prova que no sabe nada sobre bailes de mscaras. Portanto, no pode dar palpites.

Jennie revirou os olhos e enterrou as duas mos nos longos cabelos.

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- Quem voc est fingindo ser? No me deixe num suspense to terrvel.

- Uma rainha na corte do rei Lus XIV. Quem mais? Jennie comeou a rir. Caiu no carpete felpudo e rolou

vrias vezes.

- Parece mais uma danarina de strip-tease. Desculpe! Estou brincando, mame. Desculpe.

- Acho bom que esteja mesmo.

De qualquer modo, com quem eu pudesse parecer no fazia diferena. Era tudo um sonho, no era? Nada daquilo podia ser real. Era bom demais, eu estava feliz demais.

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Tudo era to no eul Por isso era perfeito. O grande baile aconteceu na casa de lorde Trevelyan, uma manso georgiana de quatro andares, que naquela noite estava 
iluminada por enormes refletores colocados nos telhados das casas no lado oposto da rua.

Quando meu carro parou, chegou tambm um txi preto, de onde desceu um grupo barulhento, personificando tipos literrios de Bloomsbury. Usavam tnis, camisetas de 
sufragistas1, longas saias armadas, carregavam livros empoeirados e cestas de flores. Jennie teria aprovado.

Entrei com os personagens de Bloomsbury e vi que pelo menos duzentos convidados j haviam chegado, todos fantasiados, representando vrios sculos e estilos de vida. 
Tomavam champanhe, do qual logo me deram uma taa, e conversavam animadamente.

l Sufragistas ou sufragettes, nome dado s mulheres inglesas que reivindicavam a instituio do sufrgio universal, cujo primeiro movimento foi fundado em 1865

por Pankhurst. (N. do E.)

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Uma trombeta soou, e os presentes ficaram em silncio. Ento, a rainha Elizabeth II comeou a descer a escada para o salo principal, onde a maioria de ns se encontrava. 
A coroa de rubis e safiras cintilava  luz, e o vestido, bordado com prolas, era to majestoso quanto quem o usava.
um sonho, certo? Um sonho muito bonito.

A "rainha", naturalmente, era lay Trevelyan, nossa anfitri.

- A ceia est servida! - um mordomo anunciou. Ento, fomos encaminhados para um magnfico salo,

onde nos deliciamos com salmo, saladas, queijos, frutas frescas e petit fours. Depois de uma hora mais ou menos, lady Trevelyan levantou-se e fez sinal para dois 
criados, que abriram as portas do salo de baile.

A msica comeou, uma srie de valsas e fox-trots.

Um homem aproximou-se de mim. Eu devia ter me afastado, mas o lugar estava lotado, e no havia para onde ir. Ele estava todo vestido de preto e usava capuz e mscara, 
de modo que apenas seus olhos eram visveis. Lindos olhos, fui obrigada a notar. Algo agitou-se dentro de mim. Estranho.

- Voc  Maggie Bradford - ele disse. - Por favor, d-me suas jias, ou serei forado a roub-las.

- Voc tem uma vantagem - comentei. - Sabe o meu nome, e eu no sei o seu.

Ele se curvou, pegou minha mo e beijou-a.

- Raffles, o salteador infame, a seu servio. E prefiro roubar seu corao a roubar suas jias.

No desviei o olhar dos olhos dele.

- Ento, mostre-me o seu rosto. No costumo deixar que qualquer um roube o meu corao.

Eu no sabia o que fazer com ele. Muitos homens 71

tinham tentado me conquistar, depois que eu me tornara algum, mas aquela abordagem era nova: oi, eu gostaria de roubar as suas jias, ou talvez o seu corao.

Ele tornou a se curvar e, com um simples gesto, tirou o capuz e a mscara.

Diante de mim, sem nenhum exagero, estava o homem mais lindo que eu j vira. Os cabelos loiros caam-lhe nos ombros, e os olhos verdes brilhavam com uma luz que 
parecia queimar. Uma msica esboou-se em minha mente.

A pele bronzeada do homem deixava bvio que ele passava muito tempo ao ar livre, e seu rosto no apresentava nenhuma ruga. Ele era jovem. O sorriso revelava dentes 
perfeitos e brancos, e a pele ao redor do queixo era lisa e firme.

- Raffles, ? E como o chamam  luz do dia? - perguntei.

- Will - ele respondeu. - Will Shepherd.

Deu um passo para trs, como que para ver o efeito que seu nome produzia.

No produziu nenhum. Eu nunca ouvira falar dele.

- Bonito nome - afirmei, e, ento, porque notara o sotaque, perguntei: -  americano?

- De nascimento. Passei a maior parte da minha vida na Inglaterra. Mas eu me recusei a falar como eles. Sou teimoso s vezes. Na verdade, quase sempre.

- O que faz, sr. Shepherd? Alm de assaltar viajantes nas estradas?

Se aquilo era possvel, o sorriso dele tornou-se ainda mais brilhante.

- Jogo futebol, ou soccer, como dizem os americanos. Poderia ir me ver jogar, um dia.

- Acho que gostaria muito, apesar de no ser grande f de esportes.

- Mas eu, por outro lado, sou seu f ardoroso - Will

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declarou. - Adoro as suas msicas. Principalmente as letras. Parece que voc compreende. De repente, pegou-me pelo brao.

- Toco os seus discos o tempo todo, Maggie Bradford. E quero lev-la para casa comigo, esta noite. Estou dizendo a verdade. Quero fazer amor com voc. Vamos sair 
daqui. Voc sabe que tambm quer.

Como ele ousava falar comigo daquela maneira? Como?! "Voc sabe que tambm quer!"

- Como ousa falar comigo dessa maneira? - gritei, mais alto que a msica.

Dei-lhe um tapa no rosto, e ele recuou, surpreso. Minha voz devia ter chegado at os msicos, porque eles pararam de tocar abruptamente. Todo mundo estava olhando 
para ns. No me importei. O toque da mo de Will em meu brao era o toque de Phillip. Suas palavras eram as palavras de Phillip.

- Se voc realmente ouvisse as minhas canes, saberia o que penso de cantadas nojentas - eu disse. Minha voz tremia, assim como o meu corpo. - Para mim, a festa 
acabou, est arruinada. Voc pode ser at o melhor jogador de futebol do mundo, mas isso no faz diferena. Na minha opinio, no passa de uma porcaria. E se ousar 
falar comigo novamente, eu... eu...

Calei-me, antes de dizer: eu o matarei.

No disse, apenas porque ele j se afastara. Fiquei observando-o atravessar o salo em direo  porta, cabea erguida, os cabelos esvoaando, os passos firmes, 
todo msculos, mas, para mim, completamente odioso.

Fiquei parada, lutando contra o embarao e a raiva. A msica recomeou, as pessoas voltaram a danar. Lady Trevelyan foi at mim e pegou a minha mo.

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- Desculpe - pedi, sentindo-me  beira das lgrimas. - Lamento muito. No queria fazer uma cena.

- No lamente - a anfitri respondeu com riso na voz. - Deu a Will Shepherd exatamente o que ele merecia, e no existe uma s mulher neste salo que no esteja aplaudindo 
voc por isso.

Riu.

- Claro que iriam para a cama com ele, se tivessem essa chance, mas bravo para voc, de qualquer maneira.

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A CALMARIA ANTES DA TEMPESTADE

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Foi em uma da primeiras audincias no tribunal, no lembro qual. Tudo o que sei  que estava muito feliz por sair da priso, nem que fosse apenas para ir ao tribunal 
e voltar. Sentia que usava meu A escarlate, naturalmente. Sou inocente, at prova em contrrio, mas no na mente de um nmero muito grande de pessoas. Gente que 
no me conhece, que j me julgou e condenou.

Para alguns, sou culpada de homicdio. Para outros, andei dormindo com todo mundo, embora Deus saiba que nada poderia estar mais longe da verdade. Os que mais machucam, 
porm, que mais profundamente me ferem, so aqueles que me julgam uma pssima me. Se, durante dez minutos, me vissem com os meus filhos, se perguntassem a eles 
que tipo de me eu sou, veriam como esto errados.

Mulheres, eu acho, so culpadas at que sua inocncia seja provada. E as piores acusadoras so as outras mulheres. Por qu?

Assim, levei meu A escarlate para a audincia, naquela manh de vero. Eu estava to contente por me ver do lado de fora! O nvel de plen no ar devia ser alto, 
porque

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diversas pessoas pelas quais passamos nas ruas estavam espirrando, e os carros estacionados mostravam uma camada fina de p verde.

Os guardas da priso me conheciam, gostavam de mim e tentavam me proteger da inevitvel multido diante do tribunal. Alguns dos "fiis" manifestantes haviam levado 
seus cartazes agressivos. "Maggie  uma assassina!" "Assassina de maridos!" "Ofeream uma CADEIRA a Maggie. Ela parece cansada, depois de toda aquela matana."

- Mantenha a cabea baixa, Maggie, e v direto para dentro - um dos guardas aconselhou.

Eu ficara tanto tempo presa, desligada do mundo, que queria olhar em volta, mas o guarda tinha razo. Baixei a cabea, mesmo que aquilo me fizesse parecer culpada.

Os representantes da imprensa eram espertos. Sabiam exatamente onde esconder-se para ficar  espera. Caram sobre ns, na entrada, e atacaram.

Como sempre, houve uma enxurrada de perguntas insensveis. Apresentavam-me microfones. Queriam que eu cantasse? As cmeras de televiso me fitavam com seus grandes 
olhos fixos.

Vi uma reprter de cabelos loiros e frisados inclinar-se sobre a corda de isolamento.

- Maggie! Aqui, Maggie! Por favor! - ela implorou. Olhei-a involuntariamente.

- O que aconteceu com Patrick, Maggie? - a mulher perguntou, o olho de uma cmera de televiso encarando-me sem piedade. - Voc matou Patrick tambm? Matou, Maggie?

Eu nunca havia cuspido em um ser humano. No tenho o costume de cuspir. Mas, naquela manh, cuspi na reprter. No sei o que me deu.

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A cmera captou a cena, que foi mostrada em todos os noticirios, vezes sem conta.

Um temperamento incontrolvel. A verdadeira Maggie Bradford?

O que aconteceu com Patrick?

Voc matou trs homens, Maggie?

Algum se surpreender, no caso de voc ter matado?

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- Contadores no sabem merda nenhuma! No sei por que gastamos dinheiro com eles. Por falar nisso, no seria m idia conter os gastos.

Quem disse isso foi Patrick O'Malley, de p no banheiro da sute Tower, no mobiliada, em seu hotel no acabado e ainda sem nome, na esquina da Sixty-fifth Street 
com a Park Avenue.

Olhava furioso para Maurice Freund, o contador, que tambm era chefe de seu departamento financeiro. Freund j ouvira antes a opinio do patro sobre contadores.

- Sabemos disso - afirmou calmamente. - Mas voc est custando uma fortuna a si mesmo, sem necessidade.

- Sabonetes Pears so necessrios - gritou O'Malley. - Toalhas Porthault so necessrias. Uma banheira de hidromassagem na sute Tower  essencial.

Freund suspirou e deu de ombros.

- A boa notcia  que todos os quartos j foram reservados. A m  que estamos perdendo dinheiro a cada reserva.

- Vamos calcular novamente o maldito preo das dirias. Quando se promete o melhor, tem que se dar o melhor, e este hotel vai ser o melhor de todos, raios, ou eu 
enfio este sabonete no seu rabo!

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- Se for Pears... - replicou Freund, sorrindo. O'Malley grunhiu.

- A construo est seguindo dentro do prazo?

- Dentro do prazo deles. Oito meses de atraso, um excesso de custos de vinte por cento.

- Menos do que voc calculou no comeo?

- Dez por cento menos.

- Ento, tire os sabonetes e toalhas desses dez.

- De jeito nenhum! - Freund pegou O'Malley pelo brao e levou-o para fora da sute, em direo ao elevador provisrio. - Conhecendo voc, haver excessos por todos 
os lados. E os preos das dirias sobem.

Se O'Malley tinha uma opinio sobre isso, no a expressou.

- J sei que nome vou dar ao hotel - disse. Boa notcia, pensou Freund. At que enfim!

- Qual?

- Cornlia.

- Cornlia. Esplndido! - Freund sabia que o patro o observava para ver sua reao, mas seu prazer era genuno, e seu sorriso, sincero. - Muito bom. Escolha perfeita, 
Patrick.

- No creio que algum hotel de classe internacional tenha recebido o nome em homenagem a uma mulher - comentou O'Malley, quase timidamente.

- Um nome extraordinrio para um hotel extraordinrio, Patrick. - Alm disso,  o momento certo.

- Ela era uma mulher extraordinria. Finalmente, concordamos em alguma coisa, Maurice.

Freund tomou a mo do patro e apertou-a com ar grave. Parecia realmente ter sentido alguma coisa.

- O hotel ser um monumento, Patrick. Seu tributo  nica mulher a quem amou.

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*

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Durante vinte anos, Cornlia e Patrick O'Malley foram um dos mais cortejados e populares casais de Nova York. Aparentemente, no poderiam ser mais opostos. Ele era 
o rude empresrio que sara do nada, que com seu talento fizera surgir, de uma cadeia de motis, uma rede de hotis de luxo nos Estados Unidos, Europa e sia. Ela 
era uma beldade da alta sociedade, que ultrajara a famlia, os Whiting, apaixonando-se por Patrick e casando-se com ele, uma catlica que no estudara em Princeton. 
No entanto, combinavam perfeitamente. A frieza de Cornlia temperava o ardor de Patrick. A paixo dele despertava a dela. E, no mais rico dos cus ricos, eles orbitavam 
como luas, e nunca escndalo algum os atingira. A despeito das incontveis tentaes, ele permanecera fiel a ela, e seu apoio a fortalecia. Por baixo de sua altivez, 
ela se tornara malevel e confiante, mas apenas para ele, sempre para ele.

At que o "sempre" acabara, aniquilado por um glioblastoma que a matara em um ano e meio, e que, muito antes de tirar-lhe a vida, tirara-lhe a alma. Patrick, aos 
cinqenta e quatro anos, ficara sem nada, a no ser sua riqueza, o filho rebelde, Peter, e a infinita solidariedade dos amigos.

Agora, ele estava construindo seu hotel mais magnfico, ao redor da estrutura de uma manso antiga, de um modo muito parecido com aquele que Helmsley fizera com 
o Palace. Teria quatrocentos aposentos, incluindo as setenta sutes, algumas com o mrmore da casa Witherspoon. Os hspedes poderiam escolher o estilo

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de sua preferncia: italiano da Renascena, francs do sculo dezoito, americano ultramoderno.

E em todos os quartos do Cornlia - O'Malley no sabia por que no se decidira por esse nome desde o comeo - haveria sabonetes Pears e toalhas Porthault. Iria ser 
um verdadeiro hotel de luxo, igual aos que eram construdos em pocas muito melhores, antes que houvessem inventado os contadores.

Ele passou o dia inteiro no hotel, falando com Freund pela manh, dirigindo pessoalmente o minucioso trabalho de polimento das colunas de mrmore do vestbulo, examinando 
as banquetas e a iluminao do Gold Bar e, ento, ao meio-dia, reunindo-se com o arquiteto-chefe, Michael Hart.

A conversa dos dois durou o almoo todo. Hart abordou vrios assuntos de crucial importncia, principalmente a dourao dos ornamentos renascentistas do vestbulo 
principal e as filigranas acima das janelas, na entrada.

Sozinho novamente, O'Malley foi para a cozinha, por fim ouvindo o doce e animador barulho de marteladas e de furadeiras em ao. Os foges de ao inoxidvel, fornos 
e balces finalmente estavam chegando, depois de uma espera de trs meses e meio. J havia utenslios de cobre, ele notou com satisfao, suficientes para abrir 
uma loja em Manhattan.

s sete e meia da noite, viu-se novamente sozinho, sob o antigo relgio na parede do vestbulo, uma pea que adornara o Palcio de Inverno de Catarina, a Grande1.

\ Catarina II (1729-1796), imperatriz russa que se notabilizou por propor reformas radicais que deveriam levar  europezao e liberalizao do imprio. (N. do E.)

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No centro do trio ajardinado do hotel, aos fundos do vestbulo, erguia-se uma fonte original de Bernini1, importada de Roma, e que fora restaurada, readquirindo 
seu incomparvel esplendor. Naquela tarde, o encanamento ficara pronto, e Timothy Sullivan, da Bronx Local

41, que cuidara desse servio, telefonara a CXMalley para anunciar que todos os sistemas estavam funcionando.

- Tudo pronto para a decolagem - resmungou O'Malley, acionando o interruptor que comandava os registros e o jorro.

A gua subiu em suaves ondulaes e arcos. O rosto dele iluminou-se como o de uma criana no dia de Natal.

- Raios,  mesmo bonito! - exclamou no jardim deserto.

Mas o jorro precisava subir ainda mais alto, ele decidiu, observando a fonte. Girou o registro. A gua permaneceu no mesmo nvel.

Assim, nunca vai pegar a luz da tarde, ele pensou.

Parecia a ejaculao de um velho de noventa anos de idade.

Aquele idiota do Sullivan! "Todos os sistemas", uma merda. vou dar um jeito para ele nunca mais ejacular.

Patrick O'Malley j fizera sua primeira anotao mental para o dia seguinte.

Passou novamente sob o relgio do vestbulo, ento parou, olhando para o que tinha no pulso. Oito e dezesseis! O relgio do vestbulo estava trs minutos adiantado!

Sentiu vontade de matar algum.

"Calma, Pat", a voz de Nellie pediu, em sua imaginao. "Cuidado, cuidado."

l Giovanm Lorenzo Berrura (1589-1680), escultor e arquiteto italiano uma das maiores expresses da arte barroca (N do E.)

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O "cuidado" que se danasse. Com uns burros incompetentes a sua volta, e sem Nellie, de que adiantava viver?

27

Quando Jennie estava com treze anos e quase indo para o colegial, comprei uma bonita casa na Greenbriar Road, em Bedford, Nova York. J era hora de termos um verdadeiro 
lar e, mais importante, eu queria que ela se fixasse em uma boa escola.

Queria estabilidade e uma vizinhana tranqila, tanto por Jennie quanto por mim. Ns duas escolhemos a casa, construda em um extenso terreno, e a adoramos. Tambm 
gostamos muito de Bedford. Tnhamos um lar outra vez, finalmente.

Minha fama como artista no era das melhores, por eu ser muito exigente na escolha dos shows em que me apresentava e por no gostar de ficar viajando em turns. 
Acho que estabeleci prioridades com exatido, e minha cabea fixou-se nelas. Nunca pretendi viver como uma grande estrela. Jurei que no criaria Jennie assim.

Os anos com Phillip deixaram-me com medo de ter muitas esperanas, alm daquela de poder viver em paz e com alegria. Isso no era to ruim, eu vivia dizendo a mim 
mesma.

Jennie e eu encontramos uma tima escola para ela, em Bedford. Morvamos a menos de uma hora de viagem de Nova York, de modo que eu podia ter privacidade quando 
queria, e atividades sociais quando estava com vontade. Bedford parecia o lugar ideal para ns, tranqilo, capaz de nos ajudar a apagar os ltimos vestgios de uma 
histria ainda dolorosa.

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Jennie apelidou nossa casa de Shangri-l-l-l, um nome para ser cantado, no falado. Ela possua uma bela voz e um grande senso de humor.

Quase todas as noites eram calmas em nossa casa. Os sons que ouvamos eram os piados de algumas aves, os latidos ocasionais de um co e, s vezes, msica de um rdio 
de carro, quando algum grupo de jovens passava pela estrada. Os veculos em trnsito faziam-me lembrar que eu crescera em Newburgh, a apenas quarenta e cinco quilmetros 
ao norte.

Uma noite, em abril, surpreendi-me ao ouvir batidas fortes na porta. No estava esperando ningum. E, pelo que sabia, no tinha nenhum problema com a polcia. Jennie 
estava no quarto, fazendo a lio de casa, e eu a achava jovem demais para ter um namorado.

Eu tivera o cuidado de no deixar que revelassem meu endereo, de modo que o intruso no podia ser um f, nem algum que no gostava de mim. A pessoa batera na porta 
errada? Provavelmente.

Curiosa e um pouco nervosa, fui at a porta. Pelo olhomgico, vi um homem, as feies e o corpo um pouco distorcidos pela lente. Estava bem-vestido, apesar de parecer 
um tanto amarrotado, com a gravata torta, os cabelos revoltos, o rosto vermelho. Achei-o bastante inofensivo, ento abri a porta.

- Sra. Bradford? - ele perguntou, dando a impresso de que se esforava para parecer exasperado.

- Sim. Posso ajud-lo em alguma coisa? Como sabe meu nome?

- Fcil deduo. Est escrito na caixa de correio.

- Existe uma campainha. Por que bateu na porta daquele jeito?

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- Existe? - Ele parecia genuinamente surpreso.

- Acho que estava com tanta raiva que nem percebi. Desculpe.

Era bvio que sua raiva se evaporara. No, ele no oferecia nenhum perigo. Convidei-o para entrar.

- O que aconteceu? - perguntei.

Ele me seguiu pelo vestbulo at a sala de estar.

- Se eu construsse hotis como os caras da GM constrem carros, seria apedrejado. No entanto, aqueles merdas...

Ah, estava explicado.

- Problemas com o carro, ento?

- Um conversvel novo em folha. A maldita carroa ainda no rodou nem mil e quinhentos quilmetros. E l estava eu, exausto, satisfeito por ter sado da rodovia, 
quando o filho da puta morre. Morreu! Sem aviso, sem ao menos um estertor de agonia. E tenho um telefone no carro? No. Se tivesse, usaria, e, enquanto me levassem 
para casa, eu ficaria em paz para poder pensar. Um telefone no carro s  til num caso desses, mas um automvel novo, de oitenta mil dlares, quebra assim,  toa? 
De jeito nenhum. Ah!

De repente, ele parou de falar e sorriu. O sorriso lembrava o de Paul Newman. Muito.

- Posso usar o seu telefone? Devo ser o nico irlands catlico que  membro da Associao Americana de Automveis, e no dos Alcolicos Annimos.

- Claro que pode - respondi, ocultando um sorriso.

- O telefone fica no escritrio. - O que estava fazendo na Greenbriar a esta hora da noite?

- Eu moro na Greenbriar. A mais ou menos cinco quilmetros daqui. A senhora deve ter passado milhares de vezes pela minha casa, indo para Bedford. Meu nome

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 O'Malley. A casa  aquela em estilo georgiano, de tamanho exagerado. Vivo l para impressionar os amigos. Eu conhecia a casa, ou, para ser mais exata, a vasta 
propriedade. Era uma das maiores na Greenbriar Road.

- Falou em hotis - comentei. - Ento, deve ser...

- Patrick CXMalley - ele completou. - Estou construindo um na Park Avenue. O Cornlia. Gosta do nome? Diga que sim, e ser a primeira hspede, como minha convidada.

Daquela vez no pude conter uma risada.

- Cuidado, que posso cobrar a promessa. Aceita uma bebida, sr. O'Malley?

Ele me fez uma reverncia.

-  muito gentil e compreensiva. Usque, se tiver. Puro.

Levei-o ao escritrio, ento fui  cozinha buscar o drinque. Havia alguma coisa naquele pobre-rico homem agitado que me dava vontade de rir. A expresso de seu rosto 
era digna de uma comdia clssica do cinema mudo. Ele poderia ser um ator de primeira linha.

Eu no recebia muitas visitas em meu mundo seguro e confortvel, a no ser o pessoal ligado  msica. Estava ficando boa naquele negcio de fingir que gostava do 
isolamento. No, eu no gostava nem um pouquinho.

Voltei para o escritrio com a bebida e bati na porta. Ento, entrei, e estaquei, comeando a rir. No pude evitar.

Patrick 0'Malley despira o palet amassado e pendurara-o nas costas de uma cadeira. Tirara os sapatos pretos de pelica, deitara-se no meu velho sof com estampa 
floral e estava profundamente adormecido.

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Levantei-me cedo, Patrick j fora embora, quando

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desci. Jen e eu demos uma corrida de cinco quilmetros, tomamos um suco reforado, e ela foi para a escola. Comecei a trabalhar, mergulhando na letra de Uma Mulher 
Difcil Como o Amor.

Por volta de dez e meia, dirigi-me ao estbulo, notando que o dia assumira a mesma aparncia difana da vida vista atravs da lente de uma teleobjetiva. Eu me sentia 
contente. No muito, mas tambm no pouco. Faltava alguma coisa em minha vida, mas eu certamente tinha muito e no podia me queixar.

Vi um furgo de floricultura entrar sacolejante na minha alameda. Um garoto, com cabelos alaranjados e eriados, culos que pareciam o fundo de uma garrafa de Coca-Cola, 
correu em minha direo, carregando um arranjo de frsias e fitas coloridas.

Havia um carto. O'Malley, pensei, satisfeita, sem saber bem por qu.

"Querida Margaret Bradfor,

Perdoe-me por no ter reconhecido seu nome imediatamente, mas os nicos cantores de que j ouvi falar so os Clancy Brothers.

No tenho certeza de que poderei encar-la outra vez. No, depois do que fiz ontem  noite. Mas vou tentar. Farei o melhor que puder.

Jantaria comigo, qualquer dia desta semana? D-me uma chance de tentar me desculpar.

Voc tem os olhos azuis mais lindos que j vi. Passarei o tempo, de agora at o nosso jantar, ouvindo os discos de Maggie Bradford, ate' decorar as suas canes.

O dorminhoco mortificado, seu vizinho,

Patrick."

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Meus olhos so castanhos, e tenho a impresso de que Patrick O'Malley sabia disso, e que sabia que eu sabia que ele sabia.

Um jantar? Por que, no? Eu precisava fazer amizades em Bedford. Deixei um recado em sua secretria eletrnica, marcando um encontro para a noite de quinta-feira.

Olhos azuis... Esse  o Sinatra, no eu.

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A noite de quinta-feira foi um inesperado e grande sucesso. Patrick me fez rir, e muito. Contou histrias, uma atrs da outra, tinha um sorriso clido e natureza 
generosa. Eu soube que fizera meu primeiro amigo em Bedford e me senti bem com isso.

Nas semanas seguintes, sa com ele vrias vezes. Gostava de seu estranho, mas honesto senso de humor, de seu mpar e cmico senso de oportunidade, das histrias 
ultra-sentimentais, mas comoventes, que contava sobre sua famlia irlandesa, composta de dez pessoas. Uma delas, por exemplo, era a respeito do prazer que ele sentira 
ao instalar os pais na sute nupcial do primeiro hotel de luxo que construra.

Em deferncia a suas andanas pelo mundo, comecei a cham-lo por nomes que o divertiam: Padriac, Patrice e Patrizio. Mas Patrick no me deu nenhum apelido. s vezes, 
chamava-me de Margaret, a primeira pessoa a fazer isso desde minha me.

- Meu primeiro amor foi o mar - ele me contou. - E a nica imagem vvida que ainda tenho da Irlanda.

Era dono de um veleiro modesto, e, uma manh, em um dia de semana, samos para velejar no brao de mar.

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Patrick cabulou o trabalho no hotel, e eu podia muito bem passar uma manh longe do piano e da rotina.

Descobri que adorava navegar. Como era cedo, e dia til, no havia muitos outros barcos na gua, embora a temperatura estivesse amena e o cu, azul, sem nuvens. 
Enquanto deslizvamos para longe da praia, vi o trfego pesado e, observando os carros que levavam as pessoas para o trabalho, pensei em como era afortunada.

- Trouxas! - Patrick exclamou, saudando os que passavam.

No estava sendo mesquinho, apenas brincava.

Ele e Jennie tinham obviamente conspirado, porque ele levou para bordo minha bebida vitaminada e meu caf da manh habitual. At me acompanhou, ingerindo um pouco 
daquela mistura de diversas frutas e vitaminas.

- Ento, voc finalmente superou o que sofreu por causa do canalha, Maggie? - ele perguntou enquanto bebericvamos suco.

Como sempre, estava sendo espontneo, sendo ele mesmo. Eu sabia que se referia a Phillip, a respeito de quem j havamos conversado, mas no muito.

- Sim e no - respondi com sinceridade.

- Acho que sei o que quer dizer. - Ele me enlaou com um brao, enquanto observvamos a arrebentao. - Lamento no ter nenhum conselho para lhe dar. Nunca atirei 
num canalha, embora conhea muitos que mereciam levar um tiro. Desculpe se brinco com isso.  meu jeito, voc sabe.

- Sei.

Era o estilo dele, brincar quando as coisas ficavam pretas. Sempre me fazia rir, e isso era bom.

- Meu marido era um canalha, e lamento ter me casado com ele.
Patrick gesticulou raivosamente com o brao livre.

- Ele se aproveitou de voc, que era muito jovem e mal tinha acabado de sair da casa de sua tia. Desempenhou o papel de homem decente, fez grandes promessas, mentiu. 
J sei! Vamos velejar at West Point, para desenterrar o miservel e pulverizar os ossos dele.

- Voc sempre me faz rir - comentei, sorrindo.

- E nisso que sou bom. Olhei-o.

- No que acha que sou boa?

Ele fez um gesto amplo com as mos.

- Em tudo. Em tudo o que vi, pelo menos. S que est se fechando um pouco. E o nico campo onde penso que deve melhorar.
Voc  engraado. E encantador.

- Acha?

- Acho. Sei que . Tenho certeza.

- Bem, isso  discutvel, porque no tenho nem dez por cento do seu encanto. O jeito como voc fala, como pensa, como cria sua linda filha... Tudo aparece nas suas 
canes, e  por isso que elas fazem tanto sucesso, sabe?

- Eu...

- No sabe, mas eu sei. Quero lhe pedir um favor, bem grande.

Fiquei um pouco tensa, e ele franziu a testa com desgosto.

- Veja o que ele fez com voc, querida Maggie. Detesto quando percebo que fica com medo.  algo reflexo. Suas costas ficam duras como uma tbua.

- Estou melhorando - afirmei.

- Sei que est. Agora, no se contraia toda. O favor que vou lhe pedir significa, para mim, a coisa mais maravilhosa que posso imaginar.

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Eu no podia pensar em nada que pudesse ser to maravilhoso, nem fazia idia aonde Patrick queria chegar, mas no estava mais tensa. Ele me deixara  vontade.

- Tudo bem - concordei. - Farei qualquer coisa que me pedir, porque confio em voc.

- timo. So as palavras mais bonitas que a ouvi dizer at agora. Sabe do que eu gostaria, Maggie? Eu adoraria que voc cantasse para mim. Pode escolher a cano, 
mas cante aqui, agora, bem baixinho, s para mim.

Era um lindo pedido. Cantei para Patrick.

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Uma noite, mais ou menos uma semana depois, fiz uma refeio leve com Jennie e levei-a  casa de sua amiga Millie, onde ela iria dormir. Ento, fui  casa de Patrick, 
para jantar com ele.

Patrick dera folga ao cozinheiro e seu ajudante, porque, como explicou, queria fazer-me as honras, pessoalmente. Preparou lagosta assada com pasta de alho, batatas 
fritas, crocantes e cortadas em fatias grossas, e milho cozido. Um "banquete" simples e muito gostoso.

Depois do jantar, fomos andar e chegamos a um grupo de macieiras na extremidade mais distante da propriedade. Patrick passou um brao em volta de mim e beijou-me 
no alto da cabea.

- Voc cheira a flores de laranjeira. Como consegue?

- Acho que  o perfume do xampu Chega de Lgrimas, da Johnson e Johnson.

- Seja o que for,  delicioso.

Ele beijou minhas duas faces, o nariz, a ponta do queixo. Beijou-me na boca, e senti sua lngua tocando a minha.

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Recuei. J havamos nos beijado antes, mas eu nunca realmente sentira seu desejo, porque sempre recuara. Naquela noite, porm, foi diferente.

Ele beija muito bem. Senti seu corao e gostei da sensao.

Estava segura com Patrick. A brisa noturna murmurava nas folhas das rvores. Ele tornou a me beijar, e, ento, peguei-me correspondendo.

No posso continuar me fechando. No posso passar a vida sentindo medo, embora ainda sinta.

- Vamos entrar - ele props. - Dormi na sua casa, no escritrio, sem a sua permisso, como voc no se cansa de me lembrar. Quer dormir na minha, esta noite?

Virei-me para ele, sorrindo. Pela primeira vez, estava contente por Jennie estar dormindo na casa de uma amiga.

- No no escritrio, espero. Senti sua ereo.

- No, Maggie. Venha comigo, por favor. Confie em mim.

Minha relutncia devia ser maior do que eu imaginava, para ele a ter captado. Confiar nele. Ah, como eu queria! No entanto, quando nos viramos na direo da casa, 
vi o rosto de Phillip, senti a ameaa que ele representava. Estremeci. Amaldioado! Devamos ter-lhe pulverizado os ossos.

- No precisamos fazer nada - Patrick disse, percebendo meu medo. - No sei tudo o que lhe aconteceu no passado, mas podemos esperar. Voc foi a primeira mulher 
por quem me interessei de verdade, em muito tempo. Mas quero que isso seja bom para ns dois.

Era um homem extremamente atencioso e amoroso. Eu confiava nele.

- Quero - murmurei, consciente de que estava

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gelada e com a garganta apertada. - Eu quero, Patrick. Vamos entrar.

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Ficamos estranhamente calados, enquanto nos despamos no quarto de Patrick, um amplo aposento banhado pelo luar, no andar superior. No silncio que se prolongava, 
as batidas do meu corao pareciam eltricas, amplificadas. Todos os tipos de perguntas e dvidas comearam a cirandar em minha mente.

Sou muito alta para ele. Patrick no vai gostar de mim-, quando de fato me conhecer. O que sei sobre ele? Relaxe, Maggie. Por favor, relaxe.

Ele era magnfico  luz da lua. Ventre firme, de trabalhador braal. Pernas musculosas. Peito largo, levemente cobertos por plos prateados e castanho-claros. Sensual. 
E eu gostava do que estava sentindo.

Abra-se para ele, Maggie. No tenha medo.  a hora certa.

Patrick tomou-me nos braos, por um longo momento silencioso, beijando meus cabelos e o pescoo. Abraamo-nos, de p junto  janela, ao luar, e ele esperou que eu 
relaxasse. Senti que estava disposto a esperar pelo tempo que fosse necessrio.

Tornou a me beijar, e tive a sensao de que estvamos caindo um na direo do outro. Ele beijou-me nas faces, na testa, no nariz, nos olhos. Beijos suaves, demorados. 
Por fim, comecei a beij-lo tambm, na testa, nas faces, nos olhos, continuando a cair para a frente, para ele, ou pelo menos com essa impresso.

- Querida, doce Maggie - Patrick murmurou.

Ele sabia que eu continuava com um pouco de medo. Sempre captava meus sentimentos. Era sbio, inteligente,

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mas nunca se exibia, nunca parecia impressionado consigo mesmo.

- Voc  uma mulher adorvel e muito especial. Eu te adoro, Maggie.

Era a voz de Patrick, os braos de Patrick, e, quando ele me ergueu e carregou-me para a cama enorme, senti-me livre. Era como se ele tivesse quebrado as cadeias 
invisveis que me haviam mantido cativa. Era uma dana lenta e deliciosa. Nova para mim, ou esquecida, ou nunca experimentada. Ele prolongou o momento, ento penetrou-me 
com gentileza, cuidadosamente.

Emergindo de um recanto frgil em meu ntimo, um lugar esquecido, o prazer ondulou em meu corpo, e estremeci. Experimentei uma sensao profunda, quente, que jorrava, 
espalhava-se impetuosamente. Uma sensao da qual sentira falta por tanto tempo. E continuou pela noite adentro.

- Meu gentil Patrick - eu disse por fim, achando que nunca mais conseguiria parar de sorrir. Toquei-lhe o rosto. Ele tambm sorria. - Voc me faz tanto bem! Voc 
me faz bem, ponto final.

- Tudo ficar cada vez melhor, Maggie. Confie em mim. Confie em ns.

Eu confiava. Confiava outra vez em algum.

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Will Shepherd deveria sentir-se no topo do mundo, mas por alguma razo no se sentia. Era famoso, podre de rico, mas odiava tudo aquilo. Naquela noite, o dio chegara 
a um nvel perigosamente alto.

O lobisomem de Londres. Cuidem-se.

A cocana que tomara quando o show havia comeado,

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e novamente, um pouco antes da entrada de Maggie Bradford no palco, fazia com que ele se sentisse todopoderoso. E por que no se sentiria, diabo? Era um astro, no 
s nos campos de futebol, mas tambm na elite ali reunida para assistir ao espetculo especial, no Albert Hall.

Will olhava em volta, sorrindo, acenando. Pete Townsend se encontrava l, e Sting, e Mick Jagger, um novo conjunto de rock, o Hasbeens, assim como Rupert Murdoch 
e Margaret Thatcher, as duas pessoas que no momento estavam destruindo a Inglaterra.

Eles tinham ido ouvir Maggie Bradford para que ela acalmasse suas almas atormentadas, porque suas baladas tinham esse poder. As canes eram extraordinrias, um 
milagre. Melodia forte, lrica, hipntica. Nenhum cantor ou cantora punha tantas emoes diferentes em uma cano. Tudo o que ela cantava retratava a estonteante 
complexidade da vida moderna, ou assim parecia a Will.

Ela entrou no palco sob intenso aplauso, carregado de adorao, mas mesmo assim mostrou-se tmida. As entradas haviam se esgotado meses antes. Ela se sentou ao piano, 
e simplesmente comeou a cantar.

Will no se lembrava da cena na casa de lay Trevelyan, de modo que olhava para Maggie sem nenhuma preveno. Via os longos cabelos loiros, esvoaantes, e a simples 
beleza de seu rosto.

Naquela noite ela parecia brilhar, e Will conjeturou sobre o motivo. Qual era o segredo de Maggie? O que aquela mulher aprendera, que ele desconhecia?

A voz dela no era muito forte, nem particularmente dramtica. No existia nenhum trao de melodrama em seu estilo. Ela cantava com uma pureza que perfurava

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o corao como uma espada, e ele podia realmente sentir a dor, assim como a singela beleza da msica.

Ela estava cantando uma cano que falava da tristeza dos sonhos perdidos, do que significava sair do estado de graa.

Will teve a impresso de que as palavras eram sobre ele. Lgrimas rolavam por seu rosto. Comovia-se com a msica, de um modo que no conseguia compreender, mas era 
como se uma luz poderosa viesse do palco e o abraasse, transportando-o para um lugar onde s existiam ele e ela.

Que estou pensando, diabo?

Ficou tentado a rir de si mesmo, sentindo-se um idiota completo.

S Deus sabia, porm, como ele adorava a voz dela. Poderia ouvi-la sem parar pelo resto da vida.

Teve a estranha, premente sensao de que Maggie Bradford poderia salv-lo de si mesmo.

- Esqueceu que eu estava l com voc, Will? Esqueceu, seu desgraado?

Will olhou para a mulher de cabelos escuros, que saa do local do show com ele, pendurada em seu brao. Esquecera-se dela. Nem sabia quem era a linda mulher que 
o olhava por trs dos culos escuros. Ah, o lobisomem atacava novamente!

Ela era deslumbrante. Mas no eram todas? Modelo? Atriz? Aspirante a atriz? Balconista? Onde, por todos os diabos, ele a conhecera? Cristo, que situao embaraosa! 
At mesmo para ele, aquilo era um novo tormento.

- H quanto tempo vem usando cocana? Voc usa, no ? Como consegue jogar?

Will suspirou, aliviado, lembrando quem era a mulher.

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Reprter! Do Times. Queria escrever uma matria sobre ele. Ele queria um pedao dela. Uma troca justa.

Recuperando a pose, Will deu incio a um de seus melhores desempenhos, encarnando o Prncipe Encantado. Sabia que podia arrancar a calcinha de qualquer mulher. At 
de uma reprter do Times.

- Eu no estava drogado, Cynthia - mentiu. Cynthia Miller! Esse era o nome dela, lembrou, orgulhoso de si mesmo. -  que adoro as canes de Maggie Bradford. Adoro 
mesmo.

- Foi o que voc disse no caminho para c. Seu carro est cheio de fitas dela.

- O que Maggie escreve  to real! Sai da vida dela - Will continuou. - Voc tambm gosta?

- Como eu disse, no caminho para c, tambm gosto das msicas dela. Gostei do show, mas acho que no tanto quanto voc.

Will beijou-a no rosto. De leve, castamente.

- O que faremos agora? Cuidado, Will. Ela  reprter.

Cynthia Miller olhou-o com um sorriso malicioso.

- Gostaria de ouvir mais alguma coisa sobre Flecha Loira - respondeu.

Era a tpica jornalista, incrivelmente cnica, uma romntica que apodrecera.

- Gostaria de v-la tambm? - Will provocou-a, sorrindo.

Sabia que ela queria. Todas as mulheres queriam, exceto, talvez, uma.

Maggie Bradford! Era ela que ele queria, era dela que precisava. Uma pessoa de verdade, para compreend-lo e desafi-lo.

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A campainha tocou, e Will parou de ler o jornal matutino. Olhou pela janela. Um vistoso Rolls-Royce azulprateado estava estacionado na alameda de entrada. Ele ouviu 
a empregada receber o visitante, depois passos aproximando-se da sala de estar.

- Sr. Shepherd, o sr. Lawrence.

O homem parado  porta sorria. Era, talvez, uns dez anos mais velho do que Will e tinha cabelos cor de areia. Will sabia quem era Winifred "Winnie" Lawrence. Era 
o grande poder que apoiava o desenvolvimento do futebol nos Estados Unidos, um homem determinado a levar a graa e a beleza do refinado esporte para uma nao que 
tomara uma overdose de futebol desfigurado. Lawrence era advogado, um administrador, mas, acima de tudo, um batalhador incansvel.

Will esperou sentado, at que ele entrasse, ento levantou-se lentamente, desdobrando-se, como se acabasse de acordar, e apertou a mo do americano. Como tantas 
pessoas do pas dele, ou melhor, deles, Lawrence deixou de lado os prembulos, indo direto ao ponto, iniciando a caada.

- Diga-me, Will, por que voc acha que os alemes so uma ameaa to forte aos outros participantes da Copa? - perguntou com um sorriso que parecia colado no rosto. 
- Ano aps ano, mesmo que os jogadores no sejam os mesmos, eles sempre tm um time poderoso.

Era uma pergunta que Will fizera-se muitas vezes.

- Disciplina, suponho - respondeu. - O estilo deles  mais de equipe do que individual, e isso os torna fortes.

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Lawrence ampliou o sorriso, divertindo-se com o bvio, como os americanos costumam fazer.

- E um estilo que incorporamos ao time americano. Mas tambm precisamos de jogadores com talento individual, de grande categoria. Precisamos de um artilheiro, no 
de um simples atacante.

- Imagino que foi por isso que veio aqui.

- Foi. Vim para persuadi-lo a jogar pelos Estados Unidos, e no sairei daqui at que aceite.

Will riu da idia e da desfaatez de Lawrence.

- Vai ter um bocado de trabalho - respondeu. - Comigo, ou sem mim, os Estados Unidos no tero nenhuma chance de vencer. Por que eu me sujeitaria a todos aqueles 
treinos, se o time nem vai ser classificado? Existe alguma coisa que sou imbecil demais para ver?

Lawrence retirou um formulrio de computador de uma pasta gorda e o abriu sobre a mesa de centro. Os dois inclinaram-se sobre o papel.

- Veja isso, Will. Deixe a descrena de lado, s por alguns instantes. Olhe. Concacaf. Chave da Amrica do Norte. Chave da Amrica Central. Chave do Caribe. A tabela 
oficial dos jogos do time americano para as eliminatrias.

- E da?

- No entende? vou ajud-lo. Os americanos no vo enfrentar nenhuma seleo que preste. No, at que estejam entre as vinte e quatro classificadas.

Will tornou a rir. Apreciava o desempenho de primeira classe de Lawrence, mas o homem estava exagerando.

- Talvez no saiba, Winme, mas o time americano  considerado um nada. A seleo de qualquer pas ficaria extasiada em pegar os americanos pela frente. No poderia 
existir vitria mais fcil.

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- Isso ser uma vantagem para ns! - Lawrence passou um brao pelos ombros de Will. Era mesmo um vendedor danado de bom, o grande camel americano. - Teremos o benefcio 
da surpresa. E se eu lhe disser que Wolf Obermeier concordou em ser o tcnico do time?

Obermeier treinara equipes campes, tanto em sua terra natal, a Alemanha, como na Argentina. Tinha fama de possuir uma das mais brilhantes inteligncias no mundo 
do futebol e uma lngua ferina que no poupava ningum.

- Isso me impressionou - Will admitiu. - Agora voc conseguiu atrair a minha ateno. Fale mais, sr. Lawrence. Talvez eu esteja precisando de um desafio.

- Ou de uma vitria que o consagrar - o americano sugeriu, sorrindo.

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"Tentem imaginar o World Series, o Super Bowl, o Kentucky Derby e as convenes dos partidos Democrata e Republicano reunidos em um nico e grandioso evento", escreveu 
Mickey Trevor Jr. na popular revista americana Sports Illustrated.

"A, vocs tero uma pequena idia do poder e da glria da Copa do Mundo. Em seguida, imaginem o Rio de Janeiro, onde o futebol pode ser mais importante do que sexo 
ou samba, e onde a Copa do Mundo faz o Mari Gras1 parecer um congresso de escoteiras.  l que a final da Copa do Mundo ser disputada.

l Tradicional festa carnavalesca de Nova Orleans. (N. do E.)

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"Agora, pensem nas duas selees finalistas: a do Brasil, a grande favorita, tetracampe, cuja linhagem  to impressionante quanto a do New York Yankees, e a dos 
Estados Unidos, nova, sem histria e sem importncia, dos mgicos jogadores de uniforme vermelho, branco e azul, cuja faanha de sair do anonimato, aparecendo como 
hericos desafiadores, tem todos os elementos de um clssico conto de fadas. Com uma diferena: milagrosamente, inacreditavelmente,  real.

"Gente, essa  uma histria para competir com O Rei Leo! Talvez vocs no tenham prestado muita ateno, quando a equipe americana se classificou. Talvez sua pulsao 
tenha ficado mais rpida, quando nossos rapazes passaram pelas eliminatrias, com a ficha maculada apenas pela derrota diante da equipe da Alemanha. Vocs, provavelmente, 
pensaram: isso foi bom para ns, bom para nossos filhos, que jogam futebol na escola, mas foi o fim, acabou. Ento, voltaram sua ateno para as corridas de barcos 
e para a maravilhosa temporada de beisebol de Barry Bonds, ainda um pouco confusos, querendo saber por que o resto do mundo leva o futebol to a srio. E, enquanto 
isso, nosso time passava pelo da Nigria, entrando na oitavas-de-final.

Mas quando os Estados Unidos derrotaram a Itlia - a Itlia! - nas quartas-de-final, por 3 a 2, com gols marcados pelo astro dos astros americanos, Will Shepherd, 
e depois tirou a Alemanha da jogada por

2 a l, nas semifinais, certamente vocs voltaram a prestar ateno. E, agora, se sua temperatura no estiver em ponto de ebulio, se seus coraes no esto martelando 
loucamente, se vocs no cance

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laram todos os planos para o domingo  noite, para ficarem, em casa, assistindo  final, ento vocs no so americanos, no gostam de esporte, ou esto mortos.

A equipe americana conta com Will Shepherd e dez outros rapazes que provavelmente no teriam condio de estar em nenhum dos grandes times envolvidos nessa competio.

Mas Shepherd... Ah, Shepherd!

Futebol  um esporte de equipe, mas at mesmo Wolf Obermeier, o tcnico dos Estados Unidos, admite que, neste caso, Will Shepherd  o time. Ele disse que, sem Will, 
ns no nos classificaramos, e < mandou que olhssemos onde estvamos agora, com ele. E eu digo: vejam onde estamos agora!"

- Bravo! Parabns  Sports Illustratedl Finalmente publicou algo que preste.

Will acabou de ler a matria e exultou.

- "Shepherd  o time", ele disse. - Soa bem. Opinio correta, para variar. Bravo!

- Eu li, enquanto voc estava dormindo - informou Victoria Lansdowne.

A atriz inglesa de pernas compridas estava espalhada na cama luxuriosamente, por cima das cobertas. Os olhos fabulosos, azul-cobalto, examinavam com admirao o 
fsico do homem que conhecera na noite anterior: Flecha Loira. No momento, o atleta mais famoso do mundo.

A despeito do ar-condicionado do Rio Hilton, o calor era intenso, e nenhum dos dois se vestira, depois da longa sesso de sexo. Os dois eram to bonitos quanto sua 
fama de grandes astros sugeria. Os corpos perfeitos brilhavam com a pelcula de suor que os cobria.

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- O que voc acha disso? Que  pura conversa mole?

- perguntou Will.

- Acho que, se voc joga futebol to bem quanto faz outras coisas, vai arrancar a pele do Brasil, amanh.

Ele sorriu.

- Est satisfeita, imagino.

- De jeito nenhum, benzinho. Nem cheguei perto. Sou insacivel. No l os jornais? No sabe da minha "fila de amantes"?

Ele olhou para os seios redondos e cheios, para as pernas esbeltas e bronzeadas, que haviam se aberto to ansiosamente para ele. Ela lembrava Vannie. Muitas mulheres 
lembravam. Talvez fosse por isso que ele estivesse comeando a ficar com raiva da presunosa Victoria.

- Quer outra corrida para... o gol? - ela perguntou, notando o olhar dele sobre seu corpo.

Tinha o maior prazer em ver o poder que exercia sobre homens supostamente fortes. Aquele, porm, era diferente. Era mais inteligente do que ela imaginara.

- Acho que no. Talvez sua "fila" termine aqui - ele respondeu, retribuindo o brilhante sorriso dela.

- O que ? No temos mais flechas na aljava? Ficamos sem o suco da alegria?

Will controlou a raiva, forando-se a rir.

- Um jogo muito importante me espera. Ou voc no sabe? No disse que l os jornais, querida Vic?

- E o doce cordeirinho quer se levantar para o jogo, mas no para mim?

- No faa isso - ele alertou. Pelo menos, avisara.

- No devo fazer o qu? - ela zombou. - Tent-lo?

- Umedeceu um dedo com a lngua e colocou-o no meio das pernas. - Se no consegue mais fazer, suponho que

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terei de me virar sozinha. Que suculenta notcia para os jornalecos! Victona teve de se masturbar. Will no agentou. Com um urro, Will jogou-se sobre ela, pesadamente, 
tirando-lhe o ar.

- Ai! Est me machucando! - ela ofegou. Tentou empurr-lo, mas ele segurou-lhe os pulsos contra a cama.

- Por favor, pare! Por favor, por favor! Eu imploro, Will! Pare! No estou brincando!

Mas no havia nada que pudesse impedir Flecha Loira de prosseguir.

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 tarde, no dia da final da Copa do Mundo, a temperatura subiu a quase quarenta graus, na areia branca como acar das praias de Copacabana e Ipanema. Por algum 
tempo, o dia foi tranqilo, um feriado nacional em comemorao  final da Copa. Ricos e pobres descansavam, economizando energias para o evento esportivo mais popular 
do mundo.

Ento, de repente, o dia transformou-se em um redemoinho de movimento fervilhante e calor de selva tropical. Toda a cidade do Rio de Janeiro parecia estar nas ruas, 
para testemunhar, para participar do futebol, o esporte nacional.

As largas avenidas da metrpole sul-americana tornaram-se o palco de um carnaval barulhento e perigoso. Buzinas de carros tocavam em um ritmo que dizia: Brasil! 
Bra-sil! Ao longo das avenidas Brasil e Rio Branco, universitrios brincavam, desafiadoramente enrolados em bandeiras brasileiras. Todos os nibus e txis estavam 
decorados com fitas verdes e amarelas. Mulheres dan

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avam pelas ruas, as camisetas grudadas nos seios, as saias girando como bambols.

s dezenove horas, a multido convergira para o lendrio estdio do Maracan, a polcia a postos, para no deixar ningum entrar sem ingresso, embora centenas burlassem 
sua vigilncia e entrassem, procurando encontrar um lugar com boa viso do campo.

L dentro, mais de cem mil cariocas frenticos agitavam bandeiras e cartazes que proclamavam tanto a vitria no esporte, como a revoluo social, gritando na cadncia 
do samba, marcada por dez mil tambores e o dobro de cucas.

De p, em uma das entradas para o campo, Will aguardava, junto com os companheiros de time. No barulho ensurdecedor, ele podia ouvir as batidas do prprio corao, 
martelando no peito. Ouvia...

- Nmero nove... dos Estados Unidos... Will... Shepherd! - um locutor anunciou pelos alto-falantes.

Vaias. "Palhao!", o povo gritava. Mas, mesmo ali no Rio, havia aqueles que admiravam Will, e o aplaudiram. Alguns espectadores davam mais valor  arte do futebol 
do que ao patriotismo, e Will era um grande artista. Quatro homens sem camisa entraram correndo no campo, cada um com o nmero nove pintado no peito.

Os aplausos continuaram quando Will apareceu, erguendo um brao, a mo fechada, bem acima dos cachos loiros. Tinha a mente cheia de sons e imagens, fantasias e sonhos. 
Mal conseguia respirar.

Sentiu "A Excitao" percorrer todas as partes de seu corpo.

Ningum o deteria naquele jogo.

Iria fazer histria no esporte, diante de metade do

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mundo. Ningum jamais o esqueceria, depois daquela noite no Rio. >

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s 8:32, o rbitro colombiano assentou a bola em um tufo de grama amassado.

Brasil versus Estados Unidos! Impensvel, impopular, impossvel. No entanto, estava acontecendo!

A final da Copa do Mundo comeara!

Artur Ribeiro, o eltrico astro brasileiro de dezenove anos, chutou a bola, mandando-a para um companheiro, um lance ensaiado durante horas nos meses anteriores, 
ento correu para a frente, em uma dana sinuosa e inteligente. A bola foi chutada de volta para ele. De costas para o gol, ele executou uma "bicicleta" e mandou 
a bola para as redes norte-americanas.

Os torcedores explodiram.

- Gooooooool do Brasil! - O locutor berrou. - Gooooool de Artur Ribeiro!

Tempo decorrido: trinta e trs segundos.

Menos de seis minutos mais tarde, o Brasil fez outro gol. Facilmente, sem esforo.

O povo danava nas arquibancadas. Rojes explodiam no cu noturno. Fora do estdio, armas de fogo disparavam tiros no ar. Sirenes de viaturas policiais uivavam, 
e parecia que a revoluo, to longamente esperada, comeara.

Algum poderia pensar que um jbilo maior seria impossvel. Mas a comemorao do segundo gol do Brasil no foi nada perto do que aconteceu quando Ribeiro marcou 
outro, aos trinta e trs minutos do primeiro tempo.

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Brasil 3 a zero!

O jogo estava parecendo uma chacina. No. Era um massacre total.

Escutem s esse burro convencido, Will pensou, cabisbaixo, na sada no vestirio.

- Voc est jogando como se estivesse drogado - dizia Wolf Obermeier.

J repreendera severamente os outros assim denominados jogadores, e agora falava baixo com Will, que chamara para um lado, enquanto o time se dirigia de volta ao 
campo para o segundo tempo.

- Alguma coisa o incomoda? Voc est drogado?

- Talvez. - Will sorriu da consternao carrancuda do alemo.

Na verdade, no sabia o que havia de errado com ele. Sentia-se revigorado, depois da noite anterior, embora a lembrana do que acontecera j estivesse borrada em 
sua mente. Era outra coisa que o estava segurando. Deu de ombros, olhando para o tcnico. Fosse por que fosse, "A Excitao" passara por ele com a rapidez de um 
relmpago, e ele no pudera recaptur-la. Estava mal-humorado e sentindo-se pesado.

- Precisamos que voc comece a se comportar como um louco - Obermeier continuou. - Trs gols. Impossvel empatar. Mas j vi voc fazer o impossvel. No  hora de 
jogar o pior futebol da sua vida, filho. Voc tem de ser o astro principal, no o palhao. - Deu um tapinha paternal na cabea de Will. - V l e mostre a eles que 
 homem!

Homem. Will entrou no campo em estado de choque.

Voc est na Copa do Mundo e jogando como se ainda

estivesse no time de Fulham. Esses so os brasileiros. Os

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melhores do mundo. Se os derrotar, ficar famoso para sempre. Obermeier tem razo. Seja homem, Will.

Respirou fundo e correu para o gramado. Ouviu o rugido da multido, mas sabia que os aplausos no eram para ele. Eram para o time brasileiro, que emergia do tnel. 
Olhou para as arquibancadas. Um oceano de gente morena agitava-se, torcendo contra ele.

Fodam-se todos!

Ele era Flecha Loira! Fazia o impossvel, como sempre.

No princpio, Will deu apenas um show no campo do Maracan. Dribles espertos, sbitas mudanas de direo, que criavam caminhos onde no existia nenhum, velocidade 
inacreditvel por dentro dos menores espaos. Mas, sem nem meia chance de marcar um gol.

Ento, aos nove minutos do segundo tempo, ao tentar interceptar um passe destinado ao atacante brasileiro Raimundo Pinheiro, ele se atirou na frente da bola.

A esfera branca bateu em seu ombro e caiu como uma pedra na direo de seus calcanhares. Quase com um nico movimento, ele ergueu a perna direita para trs. Foi 
nesse momento que sentiu um msculo da coxa se distender, a dor penetrando na rtula do joelho.

Que a dor se danasse. Will mandou a bola para o canto esquerdo do gol do Brasil. O goleiro no teve tempo nem de erguer completamente o brao, muito menos de impedir 
a bola de passar por ele e entrar.

- Gooool dos Estados Unidos! - Will ouviu pelos alto-falantes, tendo a confirmao da verdade. - Gooool de Will Shepherd!

"A Excitao" explodiu em seu crebro. A adrenalina percorreu-lhe o corpo, e a dor na coxa e no joelho de

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sapareceu. Ele se sentiu todo-poderoso, como na noite anterior, quando Victoria o provocara. Todo-poderoso!

O artilheiro!

O marcador de gols!

Ningum mais estava jogando naquele campo, a no ser ele. O solitrio!

Faltando apenas trs minutos para o final da partida, ele se soltou de novo. Furiosamente, levou a bola pela linha lateral esquerda, fingiu que iria mand-la para 
dentro, mas no mandou, ludibriando um jogador brasileiro da defesa, que s pde ficar olhando para ele, incrdulo. As pernas pararam de repente. Foram para a frente 
outra vez, pararam, aceleraram.

Ento, ele chutou, e a bola avanou como uma bala de canho, um borro branco que passou pelo goleiro e entrou, quase furando a rede do gol brasileiro.

- Goooool dos Estados Unidos! Goooool de Will Shepherd!

Dois minutos e quarenta e seis segundos para o final do jogo.

Tempo suficiente.

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A enorme multido ficara silenciosa e imvel, a ateno voltada tanto para o relgio do estdio quanto para a luta furiosa no campo. Menos de trs minutos para o 
final do jogo, que se tornara extremamente dramtico.

Um nico jogador no podia derrotar um grande time. Nem mesmo Will Shepherd seria capaz de tal faanha.

Era isso o que todo mundo que assistia ao jogo pensava. Entretanto, ningum podia ter certeza. Ele era um artilheiro fabuloso, talvez o maior de todos, de todos 
os

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tempos. Era um mgico, ou, talvez, fizera um trato com o demnio.

Will, parecendo uma guia, interceptou a bola de um passe para o lateral-direito do time do Brasil, dominou-a e correu pelo campo a uma velocidade incrvel. Em total 
concentrao, repetia movimentos que treinara mil, no, um milho de vezes. Fez uma finta para a esquerda e foi para a direita, em uma virada de quase noventa graus, 
passou por um defensor, que ficou estacado, sem ao. Viu o goleiro a sua frente, um retalho da cor inimiga.

Nem que ele fosse Deus poderia me impedir, Will pensou.

Viu medo nos olhos do goleiro. Passou a bola do p direito para o esquerdo.

Usou o cotovelo para afastar um defensor brasileiro. Virou suavemente para a direita.

Os quarenta e cinco minutos do segundo tempo estavam esgotados, mas ainda havia alguns segundos para serem descontados. Bastante tempo para tornar-se imortal, para 
juntar-se a Pele e Cruyff.

Calma. Deixe "A Excitao" percorrer seu corpo como herona.

O goleiro brasileiro moveu-se para a esquerda, antecipando o chute de Will, deixando aberto o canto direito do gol.

O rbitro estava erguendo o apito. Dentro de alguns segundos, apitaria, assinalando o fim do jogo.

Aquela modalidade de chute dera fama a Will. Um golpe oblquo com o p esquerdo, da esquerda para a direita. Will calculou-o cuidadosamente. A abertura do gol era 
larga como a porta do inferno!

Ele tomou conscincia de muitas coisas: do silncio

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arrepiante que cara sobre o estdio, do som de sua prpria respirao, da bola na grama, do olhar horrorizado do goleiro, da intil perseguio do defensor brasileiro.

O rosto do pai ergueu-se diante dele. Os olhos. Os olhos abertos, mortos, na superfcie da gua da piscina.

Com a fora de um furaco, as frias atacaram, os demnios apossaram-se de seus instintos, de suas pernas, de sua alma.

No! Ele no deixaria que o dominassem!

Com um estremecimento e um urro, Will chutou, batendo o p na bola, no ngulo perfeito.

Queria rir de todos os que haviam duvidado dele. Queria gritar na cara de todos os que o olhavam, encarapitados nas arquibancadas.

A multido enlouqueceu. Literalmente. Estranhos abraavam-se e beijavam-se, e uma dana maluca comeou, com cem mil pessoas participando. Dentro e fora do estdio, 
cometas e buzinas berravam, milhares de serpentinas flutuavam no ar, subindo em direo  lua.

Assim que chutara, Will cara, sem foras. Deitado no cho, esperava pelo grito que no vinha: "Gooool dos Estados Unidos... Gooool de Will Shepherd!"

Viu os jogadores correndo para fora do campo, com medo da turba enlouquecida que se dirigia para eles. Confuso, tentou levantar-se. Encheu-se de pavor ao notar que 
no conseguia.

Mas o jogo ainda no foi decidido, pensou. Temos a prorrogao. No deviam deixar os torcedores entrar no campo. Tirem esses idiotas daqui!

Wolf Obermeier, obviamente abalado, correu para ele e tentou ajud-lo a erguer-se.

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- Que pena! - exclamou. - Como  que dizem os americanos? Que azar!

- O jogo vai ter prorrogao - disse Will, mas a expresso de Obermeier revelou a verdade.

Naquele instante, todas as frias se soltaram, ainda mais barulhentas e aterrorizantes do que os milhares de torcedores que invadiam o campo.

O pai, no meio da multido, carregava a me. Ela estava morta. De sua boca aberta esguichava sangue, e o pai estendia-a para Will, como se ela fosse um trofu.

"A Assombrao."

Will Shepherd comeou a gritar. Por fim, compreendeu.

O Brasil vencera a Copa do Mundo.

Flecha Loira perdera o gol mais importante de sua vida.

Falhara.

E tudo culpa sua.

Sempre foi culpa sua.

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Parecia uma noite de carnaval no Rio, e em nenhum outro lugar do mundo poderia haver um acontecimento mais sensual e louco. Pessoas formavam cordes, ao longo de 
todas as ruas.

Will alugara um Corvette vermelho, que estava dirigindo pela cidade como um insano.

O jogador bundo. O perdedor. O lobisomem do Rio.

- Seu nome  Angelina? - ele perguntou  mulher a seu lado, no carro que paiecia voar.

Tinha cabelos escuros, era alta, esbelta e linda. Dissera a ele que queria experimentar Flecha Loira. Queria a "flecha" dentro dela.

- E - ela respondeu. - No pra de perguntar, como

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se o meu nome fosse mudar. Mas, do jeito que voc dirige, acho que daqui a pouco ns dois nos chamaremos Defuntos Frescos.

- Essa foi boa. Voc  muito engraada - Will comentou, engatando a quarta marcha na larga avenida que corria ao longo da praia de Copacabana. - Uma mulher bonita 
e engraada pode ser muito perigosa, no ?

Ela jogou os cabelos escuros para trs e riu.

- Tem medo que eu roube o seu corao?

- No, Angelina. Acho que nem voc, nem ningum, roubar o meu corao. Voc me entende?

- Nem um pouco, querido.

- Perfeito!

Will a levou para a sua sute, no hotel. O lugar estava bem iluminado pelas luzes piscantes da cidade, de modo que ele no se deu ao trabalho de acender nenhuma 
lmpada. O som dos tambores, l na rua, era to alto, que parecia que a bateria tocava ali dentro.

- Enfie a sua flecha dentro de mim agora mesmo, Will Shepherd, nmero nove. No posso esperar mais nem um segundo - ela gritou, quando se abraaram.

Isso fora horas e horas antes. Ele enfiara a "flecha" dentro dela, claro que sim. Ela gemera, depois tentara gritar. Desesperadamente, tentara arrancar a "flecha" 
de seu corao.

- O que voc fez? Oh, meu Deus! O que voc fez comigo?

- Queria roubar o seu corao - murmurou Will. - Roubei?

Ele esquecera novamente o nome dela. Como era mesmo? Oh, sim, Angelina.

Agora, Angelina jazia na banheira de sua sute. Ele

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olhou para ela, sabendo que, finalmente, fora longe demais. Mesmo sendo quem era, exagerara.

Fora longe demais, ficara louco.

Se os fs pudessem me ver agora!, ele pensou. Este  o Will Shepherd verdadeiro. Um lixo. Sob uma aparncia bonita, um corao feito de trevas.

Conrad, certo? Will lera aquele livro na escola. Compreendera a histria perfeitamente da primeira  ltima pgina.

Ningum o conhecia, ningum sabia o que ele era, exceto, talvez, Angelina.

Agora ela sabe, no?

Os olhos castanhos da mulher estavam vidrados, fixos nele, de modo meio oblquo. Ele era o deus dela, no era? O salvador que a tirara das perversas ruas do Rio. 
Ela quisera tanto transar com um dolo! Bem, transara.

Ele segurava um copo cheio de um lquido vermelho. Ergueu um brinde a Angelina. Saudou a mulher com o prprio sangue dela.

- Lamento - disse em um murmrio. - No, no  verdade, mas eu gostaria de ser capaz de lamentar.

Tomou um gole do sangue, sabendo que estava perdido. Cometera um assassinato. Iria a julgamento. Sua culpa seria provada, por fim.

Gotas de suor formaram-se em sua testa.

Flecha Loira, estilete de prata, vampiro. No fazia diferena.

Ele pegaria priso perptua.

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Eu sabia tudo a respeito de "sair do estado de graa", mas "entrar no estado de amor" era algo que, percebi,

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nunca soubera o que significava. Mas estava acontecendo, devagar, de um modo lindo, entre mim e Patrick. A cada dia, os sentimentos de um para o outro se tornavam 
mais profundos. Era algo diferente de paixo, algo que tambm havamos experimentado.

Deixe-me calcular de quantas maneiras Patrick estava me ensinando a am-lo.

Havia aquela sua maneira de me lembrar, quase todos os dias, de que eu era muito especial, uma pessoa de valor. Comecei a acreditar nisso pela primeira vez em minha 
vida.

Havia a maneira de Patrick querer saber tudo a respeito das msicas que eu escrevia e cantava, e de compreend-las e apreci-las mais do que muitos compositores 
que faziam msicas para os Rolling Stones e o Spin.

Havia a maneira como ele e Jennie conseguiam conversar sobre qualquer coisa, e como ns trs juntos tambm fazamos isso.

Havia a maneira de ele me surpreender e deliciar com suas histrias, sua graa, sua percepo.

De fato, durante os primeiros seis meses que ficamos juntos, a nica causa de aborrecimento foi o filho de Patrick. Peter era um canalha completo, o oposto do pai. 
Naquele perodo, tentou assumir a direo da empresa do pai, mas falhou. Patrick lamentou o fracasso, dizendo que "perdera seu nico filho".

O que foi um bom gancho para o que tenho a dizer a ele, pensei uma tarde, quando estava com Patrick em minha sala de estar.

Se era que podia haver um gancho para aquilo...

Era to difcil! Eu estava apavorada. Suspirei e preparei-me o melhor que pude.

- Vamos ter um filho, Patrick - disse, ento.

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No demoraria muito para a gravidez ficar evidente. Tnhamos nos protegido, mas de nada adiantara. Eu ficara grvida.

Embora eu fosse uma artista, uma compositora e cantora, era muito conservadora, e a gravidez sacudiu-me at as razes. Contara a Jennie assim que descobrira.

- Voc ama Patrick e ele a ama. Eu amo os dois. Estou feliz por voc estar grvida - ela afirmara, e aquilo ajudara muito.

Naquele momento, ali na sala, Patrick me olhava, e seu rosto exibiu vrias emoes: espanto, susto, consternao, preocupao, dvida, mas, por fim, alegria. Inconfundvel, 
fabulosa alegria, mostrando-se no sorriso que eu amava tanto.

- Para quando espera o beb? Meu Deus, Maggie, conte tudo!

- Para daqui a cinco meses e doze dias. O dr. Gamache no especificou a hora.

Ele estava sorrindo amplamente.

- Menino ou menina? - perguntou, segurando minhas duas mos.

- Menino, de acordo com o exame do lquido amnitico. Voc gosta do nome Allie?

- E lindo. - Ele abanou a cabea, maravilhado, sorrindo. - Estou muito feliz, Maggie. No poderia estar mais. Tenho lhe dito, ultimamente, quanto amo voc?

- Tem - murmurei. - Mas diga de novo. Nunca canso de ouvir.

Naquela noite, com uma clareza que pensei que houvesse desaparecido, eu me lembrei dele. Phillip voltou para tentar estragar tudo. Estava bbado, como sempre. Mal 
podia andar. Entrou

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pela porta da frente, gritando por mim, e me escondi na cozinha. No respondi. Nem mesmo quando ele se encontrava a apenas alguns passos de distncia.

Ele era muito diferente quando nos conhecemos, em Newburgh. Um oficial do Exrcito, um cavalheiro, e culto, tambm. Eu, com dezenove anos, fiquei deslumbrada. Era 
muito carente, muito solitria. Como podia saber que o papel de professor o deixava frustrado? Que ele entrara para o Exrcito para lutar, mas que recebera ordens 
para dar aulas?

Phillip tinha de obedecer s ordens, e estava determinado a fazer com que eu obedecesse s dele.

- Quando eu chamar voc, responda: "Estou aqui, Phillip" - comandou com um sorriso de superioridade.

- No, quando voc estiver desse jeito - retruquei.

- No, nunca mais.

Ele deu um tapa em minha boca com as costas da mo.

- Quando eu chamar, responda: "Estou aqui, Phillip"

- repetiu.

Eu no disse nada. Os culos de aros de metal que ele usava estavam cados para o nariz. Parecia o esnobe enfadado que tanto receava ser.

- Maggie - ele disse baixinho, soturnamente. No respondi.

Phillip ergueu a mo novamente, mas dessa vez fechou-a. No era musculoso, mas uns trinta quilos mais pesado do que eu.

- Estou aqui, Phillip. V se foder - resmunguei. No costumo usar palavres como aquele, mas usei.

- O qu? O que foi que voc disse, mulher? Ouvi direito?

- Ouviu.

Ele ficou parado, imvel, olhando-me lascivamente.

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- Certo. Vamos foder, ento.

Jogou-se em minha direo, cambaleando. Subi correndo para o sto, pela escada dos fundos. Entrei e bati a porta na cara dele.

Phillip guardava armas no sto tambm. Havia armas por todos os lados, na casa do bom soldado. Peguei uma, carreguei-a e fiquei apontando-a para a porta, at que 
o rosto dele apareceu.

- D mais um passo e eu atiro - ameacei surpresa com minha voz, que soara calma, apesar do meu nervosismo.

Ele me encarou, tentando me olhar com desprezo, mas no saiu do lugar. Ento, comeou a rir. Era um cacarejo monstruoso.

- Oh, querida! Voc venceu este round - disse, quando conseguiu se controlar. - Mas vai se arrepender.

Eu ainda estava me arrependendo, depois de tantos anos.

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Em uma promissora manh de cu azul, Patrick, ansioso e agitado, teve de me levar s pressas para o hospital Northern Westchester, em Mount Kisco, Nova York. Mostrava-se 
to descontrolado, to diferente de como costumava ser, que se tornou mais charmoso e engraado. Jennie foi conosco, e, dos trs, era quem mais calma estava.

Enquanto o carro de Patrick corria pelas estradas ladeadas por pinheiros, eu no conseguia afastar os pensamentos sombrios. Pense no beb, dizia a mim mesma, mas, 
em vez disso, fiquei me lembrando das notcias publicadas em jornais e revistas, que vinham me atormentando desde que a notcia da gravidez se espalhara.

"A melhor cano de amor de Maggie Bradford: a his

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tria do domnio no to secreto que ela conseguiu exercer sobre Patrick."

Como nosso relacionamento to bonito podia parecer to srdido? Quem escrevia aquelas coisas? Quem as lia? Eu dissera a Patrick que no me importava com o que os 
outros diziam, mas a mdia sabia ser cruel. Eu me sentia ferida, humilhada.

E, na poca, no tinha idia de como os jornalistas podiam ser perversos.

- Patrick, voc no est indo devagar, mas poderia ir mais depressa um pouco, por favor?

O dr. Lewis Gamache estava a nossa espera, no hospital.

- Ol, mame! - ele me cumprimentou, apertando os olhos por trs dos bifocais com armao prateada.

Eu o descobrira meses atrs, na cidadezinha de Chappaqua. Era clnico geral e obstetra, e eu confiava mais nele do que em qualquer um dos mdicos famosos de Nova 
York.

- Ol, Lewis. Estou me sentindo uma merda. Tentei sorrir, mas achei que iria desmaiar.

- Isso  timo - ele afirmou. - Significa que est quase na hora.

Guiou-me at uma cadeira de rodas, e levaram-me para dentro.

Quase na hora? Pois, sim! Foi s s onze da noite que duas enfermeiras de branco me empurraram na maa pelos corredores do hospital, rumo ao centro cirrgico. Meu 
corpo estava molhado de suor. Os cabelos, molhados e grudados, pareciam quase castanhos. Eu me sentia pegajosa e gelada. A dor era insuportvel, duas vezes pior 
do que quando tivera Jennie.

O dr. Gamache aguardava no centro cirrgico. Como sempre, alegre.

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- Ol, Maggie. Por que demorou tanto?

- Aaaaai... - Fechei os olhos, quando veio nova contrao. - Eu estava me divertindo muito com o trabalho de parto.

- Ento, vamos ao rock and roll - ele disse. No ri da piada.

s onze e dezenove da manh seguinte, o dr. Gamach informou:

- Maggie, voc ganhou um menininho.

Deitou o beb perto de mim, para que eu pudesse v-lo. Ele parecia estar bocejando. J entediado com o planeta Terra? Mas era uma beleza.

Levou o clssico tapa na bunda, e ouvi seu vagido fraco, quase imperceptvel.

- Acho que ele no tem seus pulmes - o dr. Gama che brincou. - Enfermeira, coloque o beb no aquecedor, por favor.

- O nome dele  Allie - murmurei e, em seguida, desmaiei.

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Patrick entrou quase voando no quarto do hospital. Sorria, radiante. Aproximou-se da cama, e nos beijamos. Ele era Paul Newman e Spencer Tracy misturados em um s. 
Realmente maravilhoso: solcito, compassivo, terno, amoroso. Queria casar-se comigo, mas a idia de casamento, depois de minha experincia com Phillip, no era fcil 
de aceitar, e pedi a ele que esperasse mais um pouco. Patrick disse que compreendia, e eu esperava que

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de fato compreendesse. Tambm esperava que fizesse a proposta novamente, e logo.

Alguma coisa amassou no bolso do palet dele, quando nos abraamos, e, curiosa, enfiei a mo para descobrir o que era.

- Dessa vez voc foi longe demais, malandro - comentei com um sorriso, revirando os olhos. - Charutos? E to antiquado assim?

- Sou. Charutos para os amigos, usque irlands para o pai solteiro.

- J viu Allie? - perguntei.

- Claro. Que testculos! Maiores do que os ps. Fiquei impressionado.

Eu ri.

- Ficou foi satisfeito

- Achei que a me tambm devia ficar, pelo menos um pouquinho.

- Por saber que o filho est bem equipado para o mundo?

- Exatamente. Disse bem.

Patrick abraou-me, mantendo-me aninhada em seu peito. Ouvi o corao dele bater. Adorava aquilo cada dia mais.

No posso pensar em um pai melhor do que ele, refleti.

Ento, eu disse isso em voz alta. Nunca me sentira mais feliz em toda a minha vida. Sabia que me casaria com Patrick em breve. Mas j ramos uma famlia. Uma famlia 
mais feliz do que muitas que eu conhecia.

Naquela noite, cantei para o pequeno Allie pela primeira vez.

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Foi assim que aconteceu, caros leitores, o terceiro as

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sassinato sobre o qual vocs ouviram e leram tantos comentrios horripilantes, na televiso e nos jornais. Esta  minha confisso, que nunca foi publicada em nenhum 
outro lugar.

Patrick amava seu trabalho, os grandes hotis que construra, e tenho certeza de que amava Allie, Jennie e a mim. Amava tambm o mar e adorava navegar. Seus problemas 
maiores eram as brigas constantes com o filho, Peter, a direo da empresa e o Hotel Cornlia. Peter, no conflito com o pai, deixara claro que me desprezava. Patrick 
e eu decidimos que tnhamos de aprender a viver com os ataques dele, pois no havia outro jeito.

Nunca esquecerei aquele dia, no comeo de maio. Foi quando samos para o nosso primeiro passeio de barco, na nova primavera. Precisvamos de algum tempo s para 
ns dois.

s cinco da manh, j estvamos vestidos e tomando chocolate quente. A sra Leigh, minha maravilhosa empregada, que morava comigo, apareceu e nos desejou um bom-dia 
e um passeio agradvel.

- No se preocupe com nada, sra. Bradford.

Com ela em casa, eu no precisava me preocupar. Criara dois filhos lindos e j fazia parte de nossa famlia.

Patrick e eu fomos de carro at Port Washington, em Long Island. Um dia inteiro juntos! Que delcia!

Por volta de seis e meia, caminhvamos pelo deque j banhado de sol do orgulhoso Victorian Manhasset Bay Yatch Club. O ar estava frio, mas o dia prometia prazer 
e descontrao. No meio do caminho, no resisti. Parei Patrick, abracei-o e beijei-o.

- Eu te amo - murmurei. - Por mais simples e descomplicado que isso possa parecer.

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-  difcil encontrar o amor. - Ele sorriu. - Mas quando se encontra,  espetacular. Tambm te amo, Maggie.

Chegamos ao Rebeion um pouco mais tarde. Pretendamos navegar para o leste. Como Patrick dissera, "ao encontro do sol, para longe da terra".

- A tempestade da semana passada causou avarias nos barcos, inclusive no nosso - ele comentou, iniciando uma rpida inspeo. - Ainda h gua aqui e provavelmente 
a bateria do motor descarregou.  antena do rdio de comunicao est quebrada. Merda. Nunca me deixe construir um navio de luxo. Seria outro Titanic.

O Rebelhon saiu do iate clube por volta de sete e quinze. Estvamos a caminho da alegria e da despreocupao. Por mais que eu adorasse passar quase todos os momentos 
do dia com Allie, por mais que j estivesse com saudade dele, sabia que precisava de algumas horas de liberdade e de passar algum tempo s com Patrick, algo de que 
sentira falta.

Era um dia de cu azul, daquele tipo que sempre fazia com que eu me sentisse bem. Vi que Patrick relaxara, manejando o leme. No horizonte, um iate de dezesseis metros 
movia-se lentamente, talvez indo para o Caribe.

Ao meio-dia, nosso barco deslizava sobre ondas suaves, a quilmetros de distncia da loucura de Nova York. O hotel, Peter, e at mesmo Jennie e Allie foram esquecidos. 
Patrick e eu estvamos juntos, sozinhos, na privacidade do mar. Imaginei se seria naquele dia que ele me pediria novamente em casamento.

De repente, nuvens escuras surgiram a noroeste. Era uma tempestade correndo rapidamente em nossa direo. A temperatura caiu pelo menos dez graus em cinco minutos.

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- Oh, que merda! - resmunguei. - No se pode planejar um passeio! Odeio quando essas coisas acontecem.

Patrick olhou para as nuvens com ar preocupado.

- vou falar com a guarda-costeira, pedindo a previso do tempo. Talvez possamos esperar a tempestade passar.

Comeou a andar na direo da cabine, ento parou.

- Inferno! No posso me comunicar. A antena est quebrada. Acho que isso significa que temos de voltar. Pegue o leme, Maggie. Segure-o com fora.

- Certo.

Lutei com a roda do leme, enquanto Patrick prendia os rizes da vela principal. A trao ainda era muito forte no lerne. Patrick decidiu trocar a vela por uma bujarrona 
menor. Como ltimo recurso, baixaria a bujarrona e usaramos o motor para voltar a Manhasset.

Ento, a tempestade nos atingiu. Uma neblina gelada envolveu o barco, e a chuva desabou, deixando-nos encharcados. O vento uivava. A gua do mar inundou o convs. 
O apavorante poder da natureza estava evidente em tudo, a nossa volta.

Minha mo escorregava no leme, e tive de lutar para manter o curso. Era excitante, mas, por baixo da excitao, como uma serpente enrodilhada, pronta para dar o 
bote, o medo comeou a me ameaar. A situao deixou de ser divertida.

Patrick xingava, correndo e escorregando, tentando chegar ao lugar onde uma vela solta batia ao vento como um lenol molhado pendurado em um varal.

Ele pareceu hesitar ao aproximar-se da vela, arrastando a perna esquerda. A impresso que tive foi essa, de que ele arrastava a perna.

Parou, ento caiu de joelhos, como se algum houvesse lhe dado uma pancada na nuca.

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- Patrick! - gritei.

Ele tentou se levantar. Vi-o levar a mo ao peito e, ento, tombar.

- Patrick!

Corri pelo convs escorregadio e ajoelhei-me a seu lado. O rosto dele estava branco como a vela principal, e sua respirao era irregular. Como cara de lado, virei-o 
de costas, e ele fez uma careta de dor. De repente, fiquei sem poder respirar, com a impresso de que levara um soco na boca do estmago.

Fui buscar cobertores1 de l e cobri Patrick o melhor que pude. Tomei a mo dele entre as minhas.

- Por que saiu de perto de mim? - ele murmurou.

- No faa isso de novo. Quero ficar olhando para voc, Maggie.

Eu tentava segur-lo, quando as ondas rolavam sobre ns.

- Ficarei aqui, Patrick. E voc tambm. Tudo vai dar certo.

Eu acreditava realmente naquilo, mas, dentro de mim, a serpente do medo ergueu-se, e precisei virar o rosto para no v-la. Ento, tornei a olhar para Patrick.

O rosto dele ficara cinzento. Gotas de suor apareceram em sua testa e acima da boca, embora o vento estivesse gelado.

Oh, Deus, por favor. Eu amo Patrick. Por favor, no faa isso!

- S para o caso de eu no estar mais por perto, quero que voc seja feliz, Maggie - ele disse baixinho.

- E que faa nosso filho feliz, o que sei que far. No deixe Jennie casar-se com um irlands. Prometa.

- Prometo - murmurei por fim, lutando contra as lgrimas.

- Amo voc, meu bem. Amo voc, Maggie, a melhor de todas as mulheres.

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Patrick me olhava com aquele seu jeito particular, meio de lado. Ento, os olhos moveram-se, e ele fitou algo atrs de mim.

Um som estranho escapou-lhe do peito, e Patrick soltou minha mo. Gritei, olhando dentro dos olhos dele.

Por favor, Deus, no o deixe morrer!

Abracei-o com fora, comeando a chorar. Apoiei a cabea em seu peito imvel e silencioso.

Por favor, por favor, no deixe isso acontecer. Quem quer que esteja no comando, tenha misericrdia!

Patrick no podia me ouvir. Ele se fora. To rapidamente quanto surgira a tempestade que rugia a nossa volta.

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Devo ter ficado abraada a Patrick por mais de uma hora, sem me importar com o que pudesse acontecer comigo ou com o barco.

A tempestade fora para o leste, e as guas estavam novamente calmas, embora eu mal notasse o que se passava a minha volta. O sol fraco lanava focos de luz ambarina 
nas ondas verde-acinzentadas.

Fiquei sentada junto de Patrick, no convs solitrio e oscilante. Pensava nos bons momentos que havamos tido, e sempre que me lembrava de alguma coisa, recomeava 
a chorar.

"Por que saiu de perto de mim? No faa isso de novo. Quero ficar olhando para voc, Maggie."

No v embora, Patrick! No me deixe! Oh, Padriac, oh, Patrizio!

Marinheiros da guarda-costeira localizaram o barco, que flutuava  deriva, na margem vermelha do pr-do-sol. Encontraram-me com Patrick aninhado em meus braos.

Agora vocs j sabem como foi que o matei. Esta  a minha confisso.

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LIVRO TRS

WILL

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Will estremeceu, quando ouviu pancadas fortes e insistentes na porta de sua sute no hotel Rio Hilton. Arrastou-se para fora da cama e escondeu-se no banheiro.

Mal pde dar aqueles poucos passos sem cair.

V embora. Seja quem for, suma daqui!

Ouviu que abriam a porta. Vozes. Era uma camareira falando com outra pessoa.

Cristo, eles no podem entrar aqui! Agora, no!

- Obrigado por me deixar entrar - disse um homem.

Palmer! Quem o convidou? Ningum pode entrar aqui, nem mesmo meu irmo! Perdi o controle e no sei se um dia poderei recuper-lo.

Palmer examinou os detalhes do enigma: a porta do banheiro fechada um espelho deitado na mesinha-de-cabeceira, com uma navalha em cima, alm de uma nota de cem dlares 
e restos de cocana. No cho, uma garrafa de tequila, vazia. Meio copo de um lquido vermelho, na outra mesinha-de-cabeceira. Vinho do Porto? Cinzano?

Mas onde estava Will? Onde diabo se metera?

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Estou aqui, irmozinho.

Nu, soltando um urro de lobisomem, Will caiu sobre Palmer, jogando-o no cho, prendendo-o pelos pulsos. Ento, sentou-se em sua barriga, como fazia quando eram pequenos.

- Voc perdeu. Eu ganhei.

Mas, dessa vez, os olhos de Will exibiam uma assustadora expresso de loucura, e seu corpo - Deus, seu corpo! - estava coberto de sangue.

Palmer ficou olhando para o irmo com incredulidade e horror.

- Por Deus, Will, o que fez? Como se feriu? Will riu alto.

- Eu me cortei fazendo a barba.

Saiu de cima de Palmer e pareceu danar ao atravessar o quarto. Pegou o copo com o lquido vermelho.

- Quer? - ofereceu. - Cortei ela, tambm. Sangue  gostoso, com tequila. Experimente.

- Voc cortou quem? Que diabo aconteceu aqui?

- Angelina. O corpo dela est no banheiro. Era uma puta. - Estendeu o copo para Palmer. - Bebi quase tudo. Caf da manh de campees.

- No, Will, voc no fez isso! - o irmo murmurou, levantando-se. Suas pernas estavam bambas. - No pode ter feito!

- No fiz o qu? No posso ter feito o qu?

- Matado a mulher.

- Bem, no sei. - Os olhos de Will estavam do tamanho de dlares de prata. Olhos de louco. - Vamos ver.

Ele abriu a porta do banheiro e revelou sua vida secreta ao irmo.

- Qual  o veredicto, irmozinho? Matei ou no? Vai me ajudar, agora?

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Pelo menos uma vez, quase todas as histrias publicadas nas revistas de mexericos foram verdadeiras, e, talvez, at complacentes. Will sabia disso, assim como o 
irmo.

Will era perigoso, mais ainda do que suspeitavam os que escreviam as matrias. Passara um ms e meio em um hospital particular de Nova York, recuperando-se de um 
"colapso nervoso", pois tivera um "grande problema" no Rio de Janeiro.

Fizera coisas muito piores do que usar cocana, mas sara impune. Isso estava lhe custando um substancial suborno semanal, que pagava a seu bem-amado irmo, mas 
o que importava era que continuava livre. No ficaria na cadeia pelo resto da vida.

Juntamente com Palmer, decidira que no deveria morar em Londres por algum tempo. Na verdade, o desgraado do irmo insistira nisso. Fora parte de seu "trato". Will 
escolhera Nova York porque, por algum motivo, era atrado por aquela cidade.

Alugou um apartamento no East Side e gostou tanto do lugar, que comeou a procurar uma casa. Lera no Times que Maggie Bradford tinha uma propriedade em Westchester, 
assim como Winnie Lawrence. Por isso, decidiu ver se encontrava algo por l.

Ainda era f incondicional de Maggie. Estava convencido de que a msica dela tinha o dom de curar. At falara das canes com seu impecvel psiquiatra da Fifth Avenue, 
especialmente das letras. O mdico tambm era f de Maggie Bradford, de modo que compreende o que Will queria dizer, ou, pelo menos, achou que compreendera.

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Will fantasiava que um dia se encontraria com Maggie em Westchester. Estava certo de que esse encontro poderia ser arranjado. Era bastante esperto para isso, no 
era?

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Essa  a parte que no faz muito sentido. Talvez seja por isso que fascina tanta gente, que prende sua ateno por semanas e at meses,  medida que o dia do julgamento 
se aproxima. E um mistrio, at para mim, o tempo que passei com Will Shepherd, a noite escura de minha alma. Como pde acontecer? Como aconteceu?

Depois que Patrick morreu, de infarto, fiquei isolada, s com Jennie e Allie, a quilmetros de distncia da mdia, que eu aprendera a temer e desprezar durante a 
gravidez. Em uma maravilhosa manh de primavera, quase um ano aps a morte de Patrick, eu estava trabalhando no jardim, com Allie brincando a meu lado. Fui interrompida 
pelo segurana que eu contratara para manter afastadas as visitas indesejveis, isto , quase todo mundo.

- Um senhor chamado Nathan Bailford deseja vla. Eu falei que a senhora no quer receber ningum, mas ele insistiu. Disse que se trata de algo muito importante.

Nathan era um vizinho que eu no conhecia muito bem. Mas sabia que era um advogado famoso, que tivera a incumbncia de impedir que Peter O'Malley interferisse na 
construo do Hotel Cornlia. O que ele poderia querer de mim? Peter estaria causando mais problemas?

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- Deixe o sr. Bailford entrar - concedi, relutante. Ento, virei-me para Allie. - Temos visita. Vamos ficar bonitos.

O advogado beirava os sessenta anos, mas aparentava quarenta e cinco. Ele sorriu ao me ver, porm o sorriso no diminuiu a seriedade do traje formado pelo terno 
grafite, a camisa branca e a gravata bordo e amarela. Notei que nenhum fio do cabelo grisalho estava fora do lugar.

Nathan Bailford tomou entre as suas a mo que lhe estendi.

- No sei quantas vezes passei por aqui, desde que Patrick morreu. Pensava em lhe fazer uma visita, mas no sabia se devia parar e entrar, ou deix-la em paz.

- Estou contente por ter decidido vir.

Um amigo de Patrick era meu amigo tambm, de modo que tentei mostrar-me hospitaleira.

- Voc est bem? - ele perguntou.

- s vezes estou, outras no. O pior  quando chega a noite. Minha vida no tem sido fcil nos ltimos dez anos.

Nathan no soube o que responder. Por fim, apenas sorriu. Uma boa escolha. Gostei dele por isso.

- Vim aqui a negcios - informou, quando estvamos tomando caf no ptio. - E sobre... bem, trata-se de algo que no podia esperar mais. Como sabe, faz quase um 
ano que Patrick morreu. Eu tinha de vir v-la hoje.

Tomou um gole de caf, e notei que sua mo tremia. Ele afrouxou o n da gravata.

- A data da leitura do testamento de Patrick finalmente foi marcada. Nunca vi coisa igual. Meus assistentes e eu tivemos um trabalho incrvel para fazer tudo de 
acordo com os desejos explcitos e tipicamente complicados de Patrick. Mas fizemos. Maggie, tenho de avis-la.

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Vai ser uma guerra. Peter no est nada satisfeito. Patrick tinha razo quando dizia que o filho era um safado.

Eu no estava preparada para aquilo. Nem pensara nos bens de Patrick, e o desconforto evidente de Nathan me assustou. A idia de entrar em uma disputa com Peter 
me perturbava, mas pensar que a mdia poderia tomar conhecimento do caso era muito pior.

- O que tudo isso tem a ver comigo? - perguntei. - Nathan, no quero me envolver.

Ele fixou o olhar em meus olhos.

- Voc, Jennie e Allen tero o controle da empresa, com a parte que Patrick deixou aos trs. A Peter ele legou uma imensa soma de dinheiro, uma tremenda soma, mas 
vinte e sete por cento dos negcios so seus e de seus filhos.

Eu no podia acreditar no que acabara de ouvir. No podia!

- Quan-quanto vale o que ele nos deixou? - gaguejei.

- Mais de duzentos milhes de dlares, em dinheiro, aes e imveis. Um bocado, Maggie.

Experimentei uma raiva louca.

- No preciso de vinte e sete por cento, nem de coisa nenhuma! J tenho dinheiro mais do que suficiente. No quero nada. Nada.  verdade.

De repente, peguei-me rindo, o que fez Nathan Bailford recuar na cadeira.

Meu Deus, como era engraado! Eu acabara de herdar duzentos milhes de dlares e me sentia como se tivesse sido jogada em uma priso.

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Ele estava carregando Jennie no colo! No podia ser! Eu no podia acreditar no que via, mas estava vendo!

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Will Shepherd, o jogador de futebol que me passara uma cantada na casa dos Trevelyan, em Londres, estava  porta, com minha filha no colo! Era ele, com certeza. 
Eu no podia estar enganada. Jamais esqueceria aqueles longos cabelos loiros, o rosto e outras coisas mais.

O guarda interfonara do porto, dizendo que Jennie se machucara e que um vizinho estava entrando com ela. Quando vi quem era o vizinho, fiquei estarrecida.

Aquilo era loucura.

No perguntei a Jennie o que acontecera. Usando um conjunto de moletom, com as pernas balanando, ela parecia muito  vontade nos braos dele.

- Largue-a - ordenei, quase gritando. - Largue minha filha!

- Onde, senhora? - Will Shepherd perguntou em tom calmo.

Notei que ele sustentava Jennie no colo com a mesma facilidade com que carregaria um travesseiro.

- L no sof da sala. Por favor, solte-a. Ele me olhou com expresso perturbada.

- Ei, a menina est ferida! Quase a atropelei com o meu carro. Por sorte, ela saltou para o lado e s torceu o tornozelo. Aconteceu bem na frente da casa dos Lawrence, 
onde estou hospedado. Eu ia saindo e no a vi.

- Foi gentileza sua traz-la. Obrigada - consegui engrolar, mas a minha voz era fria. - Agradeo muito. Agora, v embora, por favor.

Jennie ajeitou-se no sof onde ele a pusera.

- Podia pelo menos oferecer um caf a ele - comentou.

- O sr Shepherd foi muito gentil, mas com certeza precisa ir. Deve ter outras coisas para fazer.

- Sabe o meu nome? - ele perguntou, parecendo espantado. .

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Canalha.

- J nos vimos antes - expliquei laconicamente.

- Onde? No costumo ir aos bastidores falar com artistas, mas j assisti a um dos seus shows, no Albert Hall. A rainha estava l.

- No foi num show, mas numa festa.

- No me lembro. E tenho certeza de que me lembraria, se a tivesse visto.

Ele se ajoelhou para examinar o tornozelo de Jennie.

- Parece que no h nada quebrado. J quebrei muitos ossos, por isso posso dizer. Mas acho que deveria chamar um mdico.

- vou chamar, assim que o senhor for embora - afirmei. - Obrigada pelo conselho.

Ele se ergueu lentamente.

- Foi um prazer conhec-la, Jennie. Espero que fique boa logo.

Virou-se na direo da porta.

- At logo, sr. Shepherd - Jennie murmurou.

De sbito, suspeitei que aquilo tudo podia ser uma armao da parte dela. De vez em quando, Jennie e as amigas "perseguiam" cantores de rock. Podiam fazer a mesma 
coisa com celebridades do esporte, no podiam?

- No quero que voc fale com ele - declarei, quando Will Shepherd saiu e fechou a porta.

Ela olhou para mim, muito vermelha. Eu nunca a vira com raiva.

- Me! Como pode fazer isso? - ela gritou. - Meu Deus!

Saltou do sof, deixou escapar um gritinho e caiu. Estava machucada.

Will Shepherd agira corretamente, levando-a para

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casa. Podia ser que, daquela vez, eu houvesse me enganado a respeito de suas intenes.

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Minha casa fica ao lado de um dos melhores clubes de campo de Westchester, o Lake Club de Bedford. Os scios pagam mensalidades astronmicas para que apenas excelentes 
cozinheiros e jardineiros sejam contratados. Os gramados perfeitos e graciosos jardins lembravam-me Gstaad, Lake Forest e Saint-Tropez, lugares que eu conhecera 
em minhas turns pela Europa.

Fui a uma festa no clube, no final de setembro. Era uma de minhas primeiras incurses no mundo real, de que me afastara.

Tive de parar para recuperar o flego, no topo da ngreme escada que levava da entrada de carros ao prdio principal. A ltima grande festa a que eu comparecera 
fora a inaugurao do Cornlia, e lembrei-me de Patrick com tanta clareza, que meus olhos encheram-se de lgrimas.

- Droga! - exclamei baixinho.

Controle-se, Maggie.

Uma verdadeira multido espalhava-se pelo maravilhoso gramado. Notei que haviam montado um bar, perto do qual um conjunto de jazz estava tocando baixinho. Cumprimentei 
vrios moradores de Bedford e sorri para outros, cujos nomes deveria saber, mas no sabia. Um produtor da Broadway puxou-me para um lado e disse que pagaria o que 
eu pedisse por um show. Acrescentou que eu poderia escolher os artistas que quisesse, para me acompanhar. Respondi que a oferta era tentadora,

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mas prematura, e que telefonaria quando me sentisse pronta para me apresentar.

Ele continuou a me pressionar, e comecei a sentir a velha ansiedade crescendo dentro de mim.

A reclusa de Greenbriar Road ataca novamente!

Mas eram coisas demais, depressa demais. No, eu no deveria ter ido  festa.

Droga! Droga!

Pedi licena e fui procurar solido no jardim que circundava a pista de hipismo. Estava me sentindo uma tola, uma fracassada, uma estranha naquele meio, uma aberrao. 
Lembrei-me de que era assim que me sentia o tempo todo, na adolescncia. Alta demais para a maioria dos garotos e, ainda por cima, gag.

No havia ningum naquele jardim, e aspirei o ar perfumado, relaxando, sentindo uma nebulosa satisfao. Bem melhor.

- "Sair do estado de graa  a mais triste das viagens." Mas  um estado que pode ser recuperado, Maggie.

Uma frase da minha msica, sussurrada atrs de mim! Girei nos calcanhares para encarar o homem que a recitara. Vi Will Shepherd. Dei um pulo para trs.

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Saltei para trs, mas no me afastei muito. Ele no parecia to ameaador naquele jardim colorido, em plena luz do dia.

- Procurei voc para tentar descobrir por que me tratou to friamente, quando levei sua filha para casa.

Revirei os olhos, antes que pudesse me conter. Mas, afinal, ele no podia ser to dissimulado.

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- No se lembra mesmo?

Ele abanou a cabea, e o sol arrancou reflexos de seus cachos loiros.

- Do que est falando? Por favor, diga.

- Estou falando do baile  fantasia na casa dos Trevelyan. Voc me convidou para ir a sua casa. Para dormir com voc. Foi muito grosseiro. Mais do que grosseiro, 
na verdade.

- Eu no me lem... - Ele interrompeu-se, dando um tapa na testa. E corou. - Oh, meu Deus! Voc precisa me perdoar, Maggie. Eu estava bbado, talvez drogado, completamente 
louco.

- Estava nojento - acrescentei. - No esquea isso. Bem, gostei de v-lo novamente. At logo.

Virei-me e comecei a caminhar de volta para o local da festa.

Ele me alcanou.

- Hoje no estou bbado, nem drogado, s um pouco louco. Por favor, fale comigo.  importante para mim. Por favor! Acho que posso explicar o meu comportamento.

- Sabe se eu quero ouvir a explicao?

- Mereo isso. O fato  que no me lembro do que fiz naquela noite.

Olhei-o por alguns segundos. Usava um amassado terno de Unho branco, e os cabelos loiros pareciam feitos de ouro. Era bronzeado, lindo, eu tinha de admitir.

- S quero lhe dizer uma coisa - ele prosseguiu, afetando uma sinceridade em que no acreditei. - Voc  uma inspirao para mim, para muita gente. Ouvi-a cantar 
no show para a rainha e achei que estava cantando para mim. Sei que no estava, mas foi o que senti. Voc me comoveu, e lhe agradeo.

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Apesar de no querer fazer isso, encarei-o. Vi sofrimento em seus olhos.

- Est falando de Perda do Estado de Graa? - perguntei.

- Dessa cano, sim, mais do que de qualquer outra, embora eu goste de todas. Bem, de quase todas. Eu estava atravessando um perodo muito difcil, e voc me fez 
acreditar que podemos recuperar o estado de graa.

- Entendo. Voc recuperou?

Os olhos dele tornaram-se ainda mais tristes. De repente, Will pareceu autntico, quase humano.

- No. Isso no acontecer, pelo menos nesta vida. No, depois do que aconteceu no Rio.

Fiquei sem compreender.

- No Rio?

Ele sorriu. Seu sorriso era fabuloso, digno de ser visto.

- Quer dizer que no sabe?

- Acho que no. Se me lembro bem, quando conversamos pela primeira vez, eu lhe disse que no me interesso por esportes. Desculpe, mas no coleciono recortes sobre 
Will Shepherd. Temos uma caneca de Michael Jordan, que ganhamos no McDonald's. Nossa coleo de lembranas esportivas acaba a.

- Graas a Deus por isso! - ele exclamou, o sorriso um pouco apagado, mas ainda presente.

Ficamos em silncio por um momento. Ele fica tmido perto de mim, pensei. No sabe o que vai dizer em seguida.

Oh, Maggie, no comecei Nem pense nisso!

- Preciso voltar para a festa - falei. - Meu acompanhante...

- Ele pode esperar mais alguns minutos, no pode? Voc no quer dar um passeio com um velho cavalheiro aposentado?

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Hesitei.

- Mas eu j ia voltar...

No v ainda, por favor. Estivemos falando sobre voc, ontem ao jantar. Winnie Lawrence, June e eu.

-  mesmo?

- Eles me contaram o que aconteceu com Patrick O'Malley. Sinto muito.

- Foi terrvel - concordei, mas no havia mais nada que pudesse acrescentar.

Caminhamos por um tnel formado pelos galhos pendentes de pinheiros enfileirados, uma cena que parecia uma aquarela iluminada por focos de luz. Comeamos a conversar 
sobre as coisas mais inesperadas. Falamos da velha ferrovia Harlem River - Will era louco por estradas de ferro -, comparamos a campestre Westchester com a zona 
rural da Inglaterra, comentamos o ltimo livro de Jeffrey Archer, que ambos havamos lido.

Ele foi to correto comigo como um garoto de escola primria, e senti minha velha timidez me dominar. Receei estar sendo bajulada, mas era bvio que ele se esforava 
para me agradar, com muita gentileza. E devo admitir, para ser honesta, que era bom olhar para um homem to lindo.

Risos e aplausos chegaram at ns atravs da vegetao espessa. Olhei para o meu relgio.

- No acredito! Faz mais de uma hora que estamos conversando. Tenho de ir para casa.  minha vez de preparar o jantar. Sinto muito.

- Eu tambm gostaria de ir para casa, mas sou uma espcie de convidado de honra. Esta poderia ser a minha festa de despedida do futebol.

Quando voltvamos para o gramado, ele pegou meu brao por um momento, em um toque leve, ento soltou-o.

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- Eu estava precisando conversar - confidenciou. - Fazia muito tempo que no falava tanto com algum.

- Eu tambm - admiti, sorrindo. - Nesse ponto, compartilhamos alguma coisa.

- Poderamos nos ver outra vez? No sou o que voc pensa, pode crer.

Eu j adivinhara que ele pediria isso e sabia o que responder.

- Acho que no. Ainda  muito cedo para mim.

- Tem razo. Alm disso, voc poderia escolher entre muitos homens melhores do que um jogador de futebol aposentado.

Gostei daquela humildade, mas suspeitei que fizesse parte de seu ritual de seduo. Devia ser horrvel para um atleta to jovem retirar-se do esporte, ver a carreira 
terminada. Como eu me sentiria, se precisasse parar de cantar?

- Tambm h muitas mulheres mais jovens e bonitas

- repliquei.

- Estou procurando algo mais profundo do que isso

- ele declarou. - Mas voc  linda, Maggie. No sabe disso? No, no sabe.

- Preciso mesmo ir - insisti.

Mas j percebera que ele era diferente do que eu o julgara. No era ftil. E parecia muito complexo. Interessante.

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Maggie Bradford era tudo o que suas canes prometiam e, talvez, mais ainda, Will pensou. E muito atraente, embora ela no percebesse.

Era a nica que poderia salv-lo. Ele estava convencido

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disso e comeou a ficar obcecado por ela. Precisava ver Maggie outra vez. Ouvia as msicas dela constantemente, tanto em casa como no carro.

Planejou tudo com o maior cuidado, iniciando por uma longa carta, onde pedia, no um encontro, mas sua compreenso. Escreveu outra, contando sobre a desero da 
me, quando ele era pequeno, e sobre o suicdio do pai. Contou como as canes de Maggie tinham o poder de acalm-lo e ajud-lo, e pediu-lhe apenas que respondesse 
de alguma maneira.

No recebeu nenhuma resposta, e, ento, voltou-se para outras mulheres. Agrediu uma delas. Nada to grave quanto o que acontecera no Rio, mas, de qualquer maneira, 
assustador. O lobisomem de Nova York.

Um dia, inesperadamente, recebeu uma carta de Maggie. Ela dizia que o primeiro passo era encarar a prpria dor, como ele obviamente j fizera. Por fim, Will telefonou 
e pediu um encontro, apenas um, e somente para almoarem juntos, em Nova York.

Encontraram-se  uma hora da tarde, no dia doze de novembro, no Salo de Carvalho do Hotel Plaza. O local era o menos ameaador possvel. Ele tinha tudo planejado. 
Iria conquistar Maggie. No suportaria ser derrotado novamente.

Planejara seduzi-la.

Planejara vencer.

E no tinha nenhuma dvida de que conseguiria.

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Foi s depois de um ms e meio que tornei a ver Will novamente. Mas ele me escreveu uma poro de vezes, e as cartas revelaram muito mais do que nossa conversa

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no clube. Ele tinha profundidade e era sensvel. Quando telefonou, por fim, eu me sentia preparada para v-lo. Apenas um almoo. Algo bastante inofensivo. Foi isso 
que pensei.

Um almoo com Will Shepherd! Mesmo sendo no discreto e sombrio Salo de Carvalho, muitas mulheres teriam dado a vida por tal oportunidade. E havia algumas, nas mesas 
adjacentes, que nos observavam atentamente.

Devo admitir que gostei de estar com Will. Ele era bonito, atencioso, falava bem e continuava sensvel. No entanto, quando recordo aquele encontro, agora, tenho 
a suspeita de que ele ensaiara tudo aquilo.

- Gosto de conversar com outras pessoas que conheceram a fama - Will admitiu. - Desde que tenham mantido a cabea no lugar. Segurei meu pescoo. ? Mantive a minha?

Ele riu. Eu tambm. Sabia exatamente o que ele queria dizer com "conversar com outras pessoas que conheceram a fama". Havia realmente a possibilidade de existir 
um elo entre os famosos.

- Conte o que aconteceu no Rio de Janeiro - pedi, quando o almoo ia em meio. - No, primeiro, fale de coisas boas.

- No quero falar de mim - ele declarou.

Aquilo era novo e agradvel. Uma coisa que me aborrecia, quando conversava com pessoas famosas, era que elas s queriam falar de si mesmas. Eu apostara que Will 
era assim. Ento, vi que me enganara.

- Vamos colocar as coisas assim: estou mudando. - Ele tomou um gole de vinho, olhando para o vazio. - Estou procurando recuperar o estado de graa, como na sua cano.

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- Vai conseguir - afirmei com gentileza.

Will me comovera um pouquinho. Era carente, vulnervel. E eu, secretamente, gostava do fato de ele apreciar tanto minhas msicas. E suponho que desejava participar 
do processo da sua converso.

- Preciso da sua ajuda, Maggie - ele murmurou.

- Como eu poderia ajud-lo, Will? , Ele me olhou to intensamente, que senti as faces

arderem.

- Inclua-me nas suas canes - ele respondeu.

Fiz mais do que isso. Inclui-o na minha vida. Fiquei como que indefesa, sem poder evitar, como se os astros houvessem conspirado para fazer isso comigo.

Ele me convidou para sair, e achei o convite no s encantador como irresistvel. Ele tinha um jeito de me tratar que passava a mensagem de que eu, eu apenas, tinha 
importncia. Tudo o mais ficava de fora, quando conversvamos. Ele olhava apenas para mim, ouvia apenas a mim, fazia-me acreditar que eu tinha valor, que era sbia 
e muito especial.

Por isso tudo, sa novamente com Will.

Foi muito romntico, no comeo. As coisas desenrolaram-se devagar, de modo correto.

No nos beijamos at o quarto encontro. O beijo aconteceu naturalmente,  porta da minha casa, na hora da despedida. Will beijou-me com paixo, e me peguei correspondendo. 
Empurrei-o suavemente.

- Isso vai levar tempo.

O beijo que trocamos a seguir foi mais longo e incrivelmente terno. Para mim, representou prazer e dor. Eu

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desejava Will e tinha medo desse desejo. Ouvira certas histrias sobre ele e no acreditava que pudesse mudar. Will, entretanto, queria desesperadamente modificar-se.

Foi ele quem interrompeu o beijo. Abriu a porta para mim e foi embora.

A alameda de entrada de minha casa era bem iluminada, e fiquei parada, observando-o caminhar para o seu carro esporte. Muito tempo depois de o veculo ter desaparecido 
na escurido da estrada, eu ainda continuava no mesmo lugar, as emoes confusas, mas inegavelmente intensificadas.

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Naquela noite, Will foi direto para Manhattan, dirigindo o carro esporte a mais de cento e cinqenta quilmetros por hora, na Saw Mill River Parkway. Cristo, ele 
era bom! Mas estava se sentindo frustrado, incrivelmente, dolorosamente excitado, como um bode. No sabia por quanto tempo mais poderia prolongar aquela dana lenta 
que era cortejar Maggie. No estava acostumado com isso.

Ela era to direta e honesta quanto suas canes, mas ele comeava a se perguntar se aquele desafio valia a pena. No estava sendo fcil mostrar-se to delicado 
o tempo todo. s vezes, ele tinha a impresso de que nunca poderia conquist-la.

Gato e rato, ele pensou, cruzando o limite entre Westchester e Nova York. O jogo era aquele, no que dizia respeito a mulheres. Ele quase sempre as pegava. Umas apenas 
davam mais trabalho do que as outras. Era um novo jogo, um substituto para o futebol, que, por sua vez, fora substituto de alguma outra coisa.

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Rebecca Post comprava e vendia obras de arte e tinha um grande apartamento na East Sixty-first Street, com vista para a ponte.

Rebecca  um ratinho to fcil de pegar!, pensou Will

Talvez fcil demais. Mas ele pensaria em alguma coisa para melhorar o jogo. Claro que sim.

Will usou a chave que ela lhe dera, para abrir a porta do luxuoso apartamento. No fora difcil conseguir aquela chave. Bastara pedir uma vez.

Quando se viu no interior escuro, comeou a andar na ponta dos ps. Sentia-se um intruso. Um relgio digital, na sala de estar, marcava a hora: uma e vinte da madrugada.

Um intruso. Uma sensao boa. Mas ele era mesmo um intruso, no era? Forara a entrada na vida de muitas mulheres, e elas todas pareceram haver gostado muito.

O lobisomem de Londres, Paris, Frankfurt, Roma, Rio e, agora, de Nova York.

Espiou para dentro do quarto principal e viu Rebecca. Ela dormia, nua, em uma pose descontrada e sensual, por cima das cobertas. Os longos cabelos castanhos espalhavam-se 
pelo travesseiro. Linda. Desejvel.

Will sabia exatamente o que desejava fazer: estupr-la, sem dizer uma nica palavra, e depois sair do apartamento.

Era isso o que Flecha Loira fazia, o que gostava de fazer.

Era sempre a mesma coisa. O amor no passava de um jogo, que tanto podia acabar em vitria como em derrota.

53

Will teve de ir a Los Angeles para uns testes cinematogrficos, no incio de janeiro. Descobri que sentia mais

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II

a falta dele do que pensara, ou do que desejara admitir. s vezes, achava que ele era um bruxo, um prestidigitador, um artista da seduo como no havia outro igual. 
Barry me aconselhou a ter cautela, dizendo que Will era exatamente aquilo.

- Comigo ele no  assim - assegurei. E no estava mentindo.

Will retornou em uma quinta-feira e levou-me para jantar em Bedford. Usei sapatos de salto alto e um vestido preto, bordado com miangas. Um pouco glamouroso demais 
para mim, mas compensou, porque fiquei contente quando Will notou.

- Adorei - ele disse.

Um elogio simples, mas que muito me agradou. Ele estava de bom humor, maravilhosamente expansivo, e gostei de v-lo assim.

- A boa notcia, Maggie,  que as cmeras me adoram. A m,  que no sei representar.

Foi um jeito engraado de falar, e ns dois rimos.

Ele falou em parar. Parecia genuinamente admirado com o modo como fora recebido em Hollywood. Fiquei feliz por ele.

Rimos muito durante o jantar. Eu j me sentia completamente  vontade com Will. As pessoas ficavam apontando para ns, mas foram bastante educadas para no se aproximar. 
Talvez pensassem que estvamos apaixonados.

Nevava, quando samos do restaurante. O vento aoitava as rvores, fazendo-as contorcer-se como danarinas exticas. Os flocos de neve batiam em nossos olhos, enquanto 
corramos para o carro. No caminho para casa, no parei de sentir o desejo de abraar Will.

Ele dirigiu com cuidado e, quando chegamos, acom

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panhou-me at a porta. Eu ainda queria abra-lo. Ele usava uma colnia discreta, muito agradvel. Vestia um casaco esportivo e estava maravilhoso, com as faces 
rosadas e aquele sorriso lindo.

- Boa noite, Maggie. Obrigado por ir jantar comigo e por me ouvir falar tanto sobre a minha nova carreira.

Eu no queria que ele fosse embora. Bruxo.

- No v, Will. O tempo est horrvel. No quero que voc dirija nessa nevasca.

J houvera tragdias demais em minha vida. Vi uma luz suave e estranha em seus olhos. Ele sorriu com suavidade.

- So s mais alguns quilmetros, Maggie. Acho que no terei problemas.

- Por favor - pedi. - Entre, fique um pouco.

Ele concordou e me seguiu para dentro, mas parecia relutante.

Disse que precisava dar um telefonema rpido, porque prometera tomar um drinque com os Lawrence e devia avis-los de que no iria.

Quando saiu do escritrio, nos acomodamos no sof da sala. Eu fora ver Jennie e Allie, e os dois estavam dormindo profundamente. A menos que disparassem um canho 
no quarto deles, meus filhos estariam mortos para o mundo at a manh seguinte. E, de fato, s vezes eu achava que precisava de um canho para tirar Jennie da cama 
e obrig-la a arrumar-se para ir  escola.

Sou uma mulher livre, de trinta e oito anos de idade, pensei. Sou capaz de controlar a situao e no estou fazendo nada de errado. Gosto do homem que est comigo. 
Gosto muito.  bvio que ele me lanou um feitio!

- Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer

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- comentei, enquanto olhvamos a queda dos flocos brancos. - Voc e eu, aqui, vendo a neve cair.

- Para ser franco, nem eu. Achava que voc no me daria a chance de provar que criei juzo, que fiquei adulto e que posso mudar para melhor. Como estou me saindo? 
V algum progresso?

- Est indo bem, mas no force a barra - respondi, e ns dois rimos.

Encostei a cabea no ombro dele, apreciando o momento. Meu desejo era apalpar sensualmente os msculos de suas costas. Nunca me imaginara daquele jeito com Will, 
mas estava me sentindo muito  vontade. At me permiti admitir que o achava incrivelmente atraente, que adorava seu cheiro limpo e fresco, seus lindos cabelos espessos. 
Tentei adivinhar o que era que ele apreciava em mim.

Will virou a cabea e me beijou.

- No adulto demais - murmurou. O beijo deixou-me um pouco tonta.

Foi deciso minha, escolha minha. Tomei Will pela mo e levei-o ao quarto de hspedes perto da piscina. Tinha aguda conscincia dos dedos dele apertando os meus.

Eu arrumara o quarto naquela manh, pusera roupa limpa na cama, arejara o ambiente. S por precauo.

Acho que fazia tempo que queria que aquilo acontecesse. No. Eu sei que queria. naquela noite, mais do que nunca.

Um trem atravessando uma montanha, correndo por um tnel pitoresco.

Outra vez, outra vez, outra vez.

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Lembranas especiais, que agora me deixam confusa.

148 Como fotografias que no querem revelar toda a verdade, como fotos que sabem mentir.

O Land Rover listrado de branco e azul voava pela encosta rochosa, na famosa estncia de turismo, em Ls Veides, onde Will e eu tivemos trs dias inacreditveis, 
s para ns dois.

Nosso motorista mexicano fez uma curva em velocidade to alta que o Rover quase saiu da estrada estreita. E uma queda nos levaria  baa de Acapulco, trezentos metros 
abaixo.

Eu me agarrava com fora a Will, querendo ficar perto dele o mais que pudesse. Percebia os menores detalhes, o modo como eu me encaixava nos contornos de seu corpo, 
cada pequena cicatriz, imaginando o que a causara, e como a barba loira crescia depressa. Queria saber toda a verdade a respeito da vida de Will, no as histrias 
exageradas publicadas pela imprensa.

- O que acha de irmos nadar, Maggie? - ele perguntou, quando j estvamos em nosso chal. Havia um pouco de timidez em sua voz, algo que achei adorvel. - Vamos 
explorar o profundo mar azul.

Abraados, nos balanvamos devagarinho, para a frente e para trs, sob o ventilador de teto.

- Mais tarde - murmurei. - Estamos sozinhos, e quero aproveitar o momento. No podemos... simplesmente... no fazer nada?

Ele riu.

- Tudo bem. Nada de profundo mar azul. O que acha de nadarmos nus, na piscina privativa que o hotel, to gentilmente, nos oferece?

- Essa idia  melhor. Gostei bastante.

Ficamos nos beijando suavemente por um longo tempo, algo que fazamos sempre.

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Ento, tive um pensamento: estou me perdendo, ou encontrando uma coisa que havia perdido ao longo do caminho?

Will fez correr a porta de vidro, que se abria para um terrao espetacular. Tiramos as roupas e ficamos nus, diante da pequena piscina que cintilava, coberta por 
centenas de estrelas e diamantes feitos de sol. Pintassilgos e papagaios coloridos tagarelavam nas rvores de paubrasil que cresciam por toda a parte. Era o paraso. 
Ou parecia ser naquele momento.

Atravs de uma cortina de palmeiras-reais e primaveras, eu via os telhados vermelhos dos outros chals, mas nenhuma outra piscina privativa. Aquilo me sossegou. 
Ningum nos poderia ver tambm.

Com um pulinho, ca na gua, puxando Will. No estvamos sendo tolos, apenas brincvamos como duas crianas.

Ele me agarrou pelo brao e puxou-me para si. J estava com uma ereo. Deslizei as mos por seu corpo esguio e musculoso, afaguei-lhe as coxas. Ele era sempre carinhoso 
e gentil, diferente do que eu o julgara.

Tornamos a nos beijar.

Will ergueu-me nos braos e me guiou at a parede da piscina, de modo que eu pudesse me agarrar  borda. Ento, lentamente, lentamente, me penetrou. Fechei os olhos, 
captando novas sensaes, deliciando-me com o calor do sol em meu rosto e com o calor ainda maior que se espalhava dentro de mim.

Eu nunca estivera com ningum igual a Will. Ele me fazia sentir to especial! Tenho de dizer isso porque  verdade.

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H uma imagem muito forte, que no vejo como se

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encaixa em tudo o que aconteceu, que ser sempre um enigma, um lindo, triste e perturbador mistrio.

Depois que Will e eu retornamos de nossa rpida viagem ao Mxico, passamos um fim de semana prolongado fazendo tudo o que as crianas queriam. Bem, fazendo algumas 
das coisas que Jennie e Allie queriam fazer. Os dois estavam mais do que entusiasmados, e Will foi maravilhoso com eles.

Ficamos um dia em Nova York e brincamos de turistas. Fomos ao World Trade Center,  esttua da Liberdade, a museus e at ao Hard Rock Caf. Depois, passamos um dia 
ainda mais gostoso, em casa, como uma famlia, vendo se era aquilo que todos ns queramos.

Observei como Jennie e Allie se comportavam com Will, e pude dizer que os dois o adoravam. E estava quase certa de que ele gostava de brincar com as crianas, que 
tinha capacidade para cri-las do modo certo, como precisava ser, e no do jeito como ele fora criado.

Lembro-me de um momento em que o vi com Allie, na tarde daquele dia. A imagem extraordinria no me abandona, ficar para sempre gravada em minha mente.

Era um dia lindo, ensolarado, excepcionalmente quente, pois ainda estvamos no incio do inverno. Will e Allie montavam um de nossos animais mais mansos, uma gua 
a quem Jennie dera o nome de Fleas. Cavalgavam atravs de um campo largo, coberto por capim alto, que parecia verde-mar  luz do sol.

Os dois, loirssimos, usavam as jaquetas abertas, em uma atitude muito mscula. Riam s gargalhadas, porque Fleas andava preguiosamente, parecendo mover-se em cmera 
lenta.

Will segurava Allie com firmeza, mantendo-o entre os braos, e seu sorriso era radiante. Eu sabia que sua fe

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licidade era genuna e adorei o que vi. Amei o que vi no rosto dos dois. Jennie aproximou-se de mim.

- No so lindos? Parecem pai e filho - comentou. - Oh, mame, estou me sentindo to bem por dentro, to contente!

- Eu tambm - afirmei, abraando-a.

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Will me contava tudo, e eu contava tudo a ele, at que cheguei a acreditar que no havia nenhum segredo entre ns. Uma noite, ele me contou uma histria horrvel. 
O pai espancou a me, ento ela se virou para Will e disse: "S a mame ama voc. S a mame".

Eu nunca me sentira to prxima dele quanto naquele momento, ouvindo-o falar daquelas coisas. Talvez nunca tenha me sentido to prxima de ningum. Tinha certeza 
de que jamais algum me revelara tanta dor.

- Mas ela me abandonou - disse Will, uma expresso distante no olhar. - Ento, no me amava de verdade, no , Maggie?

Era muito meigo, s vezes, e nessas ocasies eu imaginava como ele fora na infncia. Via-o como um menino muito bonito, de grandes olhos verdes.

- Voc acha que foi culpa sua, ela ter ido embora? - perguntei.

- Acho. Mas estou me livrando disso. No conseguiria sem voc, Maggie. Ficar com voc, Jennie e Allie me ajudou muito.

Peguei a mo dele. Julguei ver com clareza sua dor e seu amor por mim. Era algo muito comovente. Eu me identificava com a triste histria de sua famlia, e talvez,

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por intermdio de Will, estivesse tentando modificar meu prprio pai violento.

- No vou abandonar voc - prometi em um murmrio. - Nunca.

- Quer se casar comigo, Maggie? Prometa que no vai me deixar.

Pela manh, eu disse a Will que me casaria com ele para provar que no o deixaria.

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Gato e rato, o glorioso jogo do amor.

A aspirante a modelo, Cam Matthias, tomou o membro de Will na boca e enrolou a lngua a sua volta. Will gemeu e enterrou mais profundamente os dedos nos flutuantes 
cabelos ruivos.

Ele  um animal fabuloso e indomado, pensou Cam. Deve ser o homem mais excitante do mundo. Algum tem de ser, no tem?

- Oh... Cam... que delcia - ele disse em um gemido. - Como voc faz gostoso!

Estavam naquilo havia horas. Ele era insacivel e a fazia sentir-se igual. Quando ela percebeu, ou pensou que ele iria gozar, soltou-o e deitou-se de costas, pondo 
seu pnis entre os seios, pressionando-o at que achou que ele no iria mais agentar. Mas ele agentou e continuou, como em uma verso distorcida do coelho dos 
comerciais das pilhas Energizer.

A idia a fez gargalhar, e ele riu com ela.

Em seguida, Cam ajoelhou-se de frente para a parede e, pondo as mos para trs, abriu as ndegas da bunda perfeita.

- No se apresse, querido. Bem, eu nem precisava pedir.

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Isso foi na vspera do casamento de Will Shepherd.

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A uma da tarde, trs horas antes do "casamento da dcada", vinte e quatro policiais, usando seus uniformes de gala azuis-marinhos e luvas brancas, postaram-se na 
entrada principal e na de servio de minha casa, assim como ao longo da Greenbriar. Sua primeira tarefa: tirar da estrada as pessoas de Nova York, Yonkers, at do 
Tennessee e do Texas, que haviam ido l na esperana de ver Will e a mim, no dia do nosso casamento.

Todas elas ficariam desapontadas. Nenhum de ns dois estava interessado em qualquer tipo de publicidade, no maior dia de nossas vidas. Tampouco depois, na verdade.

Por volta de trs horas, a Greenbriar j fora fechada ao pblico pela polcia de Bedford. Ningum passava por l, a no ser os que apresentavam um carto da Cartier, 
com uma nica palavra gravada em prata: "Convidado".

Eu escolhera um dos cinco quartos voltados para os fundos da propriedade para servir de vestirio, e que tambm me abrigaria por alguns momentos tranqilos, antes 
que a loucura comeasse.

Jennie, que considerava o dia do meu casamento o mais importante da vida dela, o estilista Oscar Echavarria e dois de seus jovens assistentes estavam todos agitando-se 
em volta de mim. Allie contentara-se em ficar perto de nossa bab-empregada, a sra. Leigh, e apenas observava o movimento.

Eu usava um lindo vestido de cetim cor de creme. Tanto o vu como a cauda eram feitos de renda belga.

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Um simples fio de prolas envolvia-me o pescoo. Eu no poderia experimentar felicidade maior. Sentia-me linda, por fora e por dentro. No apenas Will alcanara 
a cura, como eu tambm.

- Elegante, adorvel, o retrato da perfeio - Echavarria expressou sua aprovao, olhando-me como se ele fosse Leonardo da Vinci, e eu, Mona Lisa.

Achei difcil no rir de seu perdovel orgulho.

- Voc est legal, mame - foi o comentrio de Jennie.

- Deixem-me a ss por alguns minutos - pedi. - Preciso de um pouco de tempo para assimilar tudo isso.

- Claro - respondeu Jennie, compenetrada.

- C'est ca, todo mundo para fora - ordenou Echavarria, batendo palmas como um professor de bal.

Saram todos, mas eu segurei Jennie, retendo-a por um momento.

- Obrigada por me agentar nessas ltimas semanas - agradeci. - Agora, v ficar bonita. Mas no mais bonita do que a noiva, certo?

- No se preocupe. Isso no seria possvel, mesmo que eu quisesse. E no quero.

- Amo voc - murmurei.

- E eu amo voc ainda mais, mame.

- No poderia.

- Mas amo, entendeu? Amo!

A lista de convidados parecia um "quem  quem". O empresrio e amigo de Will, Winnie Lawrence, fora includo, naturalmente. Assim como Nathan Bailford, Barry, meus 
amigos de Bedford, minhas irms com seus maridos e filhos, msicos, cantores e gente do mundo do futebol. Reprteres e fotgrafos, emissoras de televiso, pessoal 
da People, da Time... Juro que parecia haver mais estranhos do que conhecidos amigos. 155

Um dos ltimos carros a chegar, eu soube depois, foi um cintilante Maserati cor de vinho, dirigido por Peter O'MaIley.

De alguma maneira, o filho de Patrick conseguira um convite.

A porta do quarto onde eu me encontrava abriu-se de repente, e Will entrou.

- Voc no devia... - comecei.

- Casar to jovem? - ele completou, sorrindo. Estava lindo, usando um smoking Brioni, preto, e tambm muito refinado. - Isso  verdade, mas eu no pude resistir 
a uma mulher bonita como voc. Consegue imaginar como senti a sua falta ontem? Acho que posso mostrar.

Deu um passo em minha direo.

- No se atreva, Will! Fora! - Comecei a rir. Ele sempre me fazia rir. - Fora, j disse.

Ele no se abalou. Tomou-me nos braos e afagou um dos meus seios, gentilmente. Nada muito provocante e, por isso mesmo, excitante.

- Voc  de encher os olhos - ele murmurou. - E as mos tambm.

- Will!

- Sei que tambm sou.

- Eu te amo. Mas agora, saia.

- Chega, chega! Respeito o seu desejo. Deste momento em diante, eu a honrarei e lhe obedecerei.

Saiu do quarto cantarolando Always.

Sorri, pensando que aquele era o preldio perfeito.

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Um jovem pianista  Juilliard tocou as primeiras 00

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tas da Marcha Nupcial, em um crescendo que se espalhou pelo gramado. A msica e todo o resto provocaram-me um arrepio na espinha. Eu estava adorando o dia do meu 
casamento mais do que imaginara.

Convidados atrasados eram levados s pressas para seus lugares. Helicpteros de emissoras de rdio e televiso giravam no cu azul, enquanto as cmeras de filmagem 
trabalhavam sem descanso. Uma multido de fotgrafos batia fotos dos convidados e do noivo.

Por fim, apareci.

O buqu de lrios brancos tremia em minhas mos.

Eu estava acostumada a enfrentar multides, mesmo assim me sentia nervosa. Vi os poucos parentes que me restavam e esbocei um sorriso. Jennie, minha dama-dehonra, 
esperava com ar solene perto do altar. A sra. Leigh ocupava um lugar na primeira fila, segurando Allie, que tentava escapar de seus braos. Eleanor e Vannie, as 
tias de Will, tambm estavam l. Uma delas parecia uma matrona, e a outra era muito bonita.

Will encontrava-se junto das duas, em vez de perto do altar. No, no era Will, mas Palmer, uma cpia borrada, feita em papel-carbono.

Barry levou-me pelo caminho de grama, coberto de ptalas de flores. Seu smoking parecia um pouco amassado, e a flor presa na lapela j pendia, ameaando cair.

- Voc est linda. Emana brilho, realmente - cochichou, quando soltou meu brao e virou-se para procurar seu lugar na primeira fila.

Ergui os olhos para o altar branco, decorado com rosas brancas e cor-de-rosa. Um pouco exagerado, mas bonito. Will estava ao lado do padrinho, Winnie Lawrence, e 
sorria para mim.

Nem por um segundo pensei em voltar atrs.

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- E agora, declaro-os marido e mulher - o ministro recitou.

Will ergueu meu vu e me beijou delicadamente. Senti-lhe o corpo por baixo do smoking. Eu sempre achava isso muito bom. Os convidados aplaudiram. Flashes espoucaram 
por todo o gramado, parecendo luminosas margaridas amarelas. Helicpteros sobrevoavam a casa. Que cena inesquecvel!

Empertigados, comicamente corretos, os garons do Day Dean emergiram dos fundos da casa com bandejas de prata cheias de taas de champanhe. Outros circulavam, oferecendo 
mariscos e caviar, canaps de carne de caranguejo, sanduches minsculos, queijos, frutas, pats. Uma grande orquestra, regida por Harry Connick Jr., comeou a tocar 
em um palco armado na entrada de uma gigantesca tenda listrada de amarelo e branco, onde mais tarde seria o baile.

Talvez o casamento no fosse o acontecimento da dcada, mas a festa era. Sorri, inundada de carinho e alegria, pronta para participar.

A enorme tenda listrada sombreava uma extensa parte da propriedade, indo da casa at o lago. L dentro, bandos de crianas corriam entre as mesas de jantar, cobertas 
por toalhas amarelas de linho com arranjos centrais formados por cestinhos de vime cheios de flores em tons de amarelo.

A orquestra tocava valsas de Strauss e msicas variadas, que iam de Carly Simon a Patsy Cline.

O jantar foi servido  francesa, com todos os convidados sentados, e, um pouco antes da sobremesa, Barry levantou-se e cantou Luz de Minha Vida, de sua autoria. 
Foi aplaudido de p por todos, at por mim e Will.

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Ento, meu amigo Harry Connick pediu a palavra, sua voz alteando-se acima do contnuo murmrio da multido.

- A noiva, agora, vai cortar o bolo. Maggie, levante o bumbum da cadeira. Venha c, menina tmida.  hora de tornar-se o centro das atenes novamente.

Garons entraram, carregando trs bolos imensos. No topo de cada um deles, havia um boneco e uma boneca de marzip, ele com uniforme de futebol, ela reclinada em 
um piano.

Will e eu colocamos pedaos de bolo na boca um do outro. Flashes explodiram. Provavelmente, a cena faria a capa da People, da Paris Match e de outras revistas ridculas.

Aps o jantar, as mesas foram removidas rapidamente. A orquestra voltou a tocar. Will e eu danamos a primeira valsa, um arranjo de Brilho das Estrelas, uma de minhas 
msicas. A seguir, os convidados juntaram-se a ns.

Eu estava danando com Barry, quando Peter O'Malley me tirou dele, levando-me para um lado.

- Est contente, agora? - perguntou Peter, com a voz arrastada de quem j bebera muito.

Seu rosto estava acinzentado, como o do pai na hora da morte. Fisicamente, era uma caricatura de Patrick. Tinha feies parecidas, mas olhos midos, e era cerca 
de vinte quilos mais gordo.

- Solte-me - pedi. - Por favor, Peter.

Ele segurava meu brao com tanta fora, que eu sentia suas unhas enterrando-se em minha carne. Parecia louco.

- Sua puta barata! Pense em quanto me magoou. Voc teve meu pai, depois ficou com a casa dele, o dinheiro dele e a morte dele em suas mos. E agora arrumou um novo 
marido, um bonito.

Tentei livrar-me, mas no consegui. Peter no me soltava.

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- A morte dele em minhas mos? - repeti o mais baixo que pude. - O que quer dizer com isso?

- Voc sabe muito bem o que quero dizer com isso, porra! - ele gritou no meu rosto.

- Acha que matei seu pai?

- Acho que a morte dele foi muito conveniente para voc. Vamos deixar que as pessoas tirem suas prprias concluses. Eu tirei a minha, que  igual  de muita gente.

- Ele teve um infarto, Peter. Por favor, v embora. Voc est bbado.

- Um infarto, mas induzido por quem? O que fez com meu pai, Maggie? Obrigou-o a foder com voc at o corao dele arrebentar?

Arranquei meu brao da mo dele e esbofeteei-o com toda a fora. Um tapa de mo aberta. Um grito de alerta.

Os olhos escuros de Peter brilharam selvagemente em suas frestas estreitas.

- Cadela! - ele me xingou. - Voc no passa de uma puta! Talvez, ento, esteja acostumada a levar isto na cara!

Ergueu o copo de cristal que segurava, e o vinho tinto atingiu meu rosto, cegando-me momentaneamente.

- E Shepherd no passa de um garanho safado. Todo mundo sabe disso.

Ouvi o urro de raiva de Will, mas no vi quando ele se atirou sobre Peter, jogando-o no cho, caindo por cima dele e socando-o sem parar.

Winnie Lawrence conseguiu pux-lo para cima, separando os dois corpos entrelaados no cho, como um juiz de boxe.

- Maggie! Oh, meu Deus! - Will gritou. - Voc est bem?

Peter levantou-se com dificuldade. Seu rosto estava coberto de sangue, e um olho inchara, fechando-se parcialmente.

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- Voc ficou com o dinheiro de meu pai! Com os hotis! Com tudo! Ele era meu pai, e voc o matou! - acusou aos gritos.

Os seguranas levaram-no para fora da tenda, e ele foi sem protestar, fraco demais para reagir.

Eu j imaginava as manchetes dos jornais do dia seguinte. Droga!

Will abraou-me e delicadamente limpou meu rosto com seu leno.

- Oh, Maggie, sinto muito! Mas esquea Peter CJMalley. Estamos comeando uma nova vida juntos. Eu te amo.

- Tambm te amo - murmurei. E realmente amava.

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- Will,  voc? O velho casado? O solteiro derrubado?

- Ele mesmo, Winnie. Quais so as boas notcias vindas da costa oeste? vou ser ator, ou no?

- Voc no vai acreditar, mas Michael Caputo disse que sim. Ele adora a sua bunda... e o seu crebro. Acha que voc  um ator nato.

"A Excitao" voltou para Will em uma corrida exultante. Ele saltou da poltrona com um grito de alegria, embora no houvesse ningum em casa para ouvi-lo.

- Conte tudo, cara - pediu.

- Bem, para comear, voc ter o papel principal em Primrose. Isso mesmo, o papel principal. O nome do personagem  North Downing, mas, a despeito disso, o roteiro 
 legal. Mais importante: o filme ser um grande sucesso de bilheteria.
Primrose era o best-seller nmero um em todo o pas e fazia mais de dois anos que ocupava o primeiro lugar

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da lista do Times. Era a histria de um amor apaixonado, que se desenrolava no incio do sculo. Michael Lenox Caputo era o diretor-produtor que comprara os direitos, 
pagando uma pequena fortuna. Imitando o que Selznick fizera com ... E o Vento Levou, ele institura um concurso nacional, em busca de um ator desconhecido para o 
principal papel masculino.

O sucesso de bilheteria j era algo garantido graas  fenomenal popularidade do romance e tambm  estrela Suzanne Purcell, uma atriz turbulenta, cujo fogo na tela, 
diziam, era igual ao que ela mostrava na vida real.

- Beleza, Winnie! Eu achava que no teramos chance. Talvez eu seja ator, afinal.

-  mesmo! E conseguiu tudo sozinho, Will. Sabe representar, e a sua aparncia  espetacular na tela. Caputo viu isso imediatamente. At o chato do autor do romance 
gostou de voc.

- Tudo bem, mas se voc no tivesse me incentivado, eu nunca teria tido coragem de fazer um teste com o grande Caputo. Quando comeam as filmagens? Onde? Estou pegando 
fogo de to entusiasmado.

- Na Austrlia, e vo comear logo.

- Na Austrlia? Por qu? A histria no se passa nos Estados Unidos?

- Quando aqui  vero, na Austrlia  inverno - respondeu Winnie, como se aquilo explicasse tudo.

- E da?

- Da... bem-vindo a Hollywood!

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Eram cinco e meia da manh nas suaves e ondulantes campinas de Perth. O elenco de Primrose j se encontrava

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reunido, com exceo de Suzanne Purcell, que no apareceria na primeira cena e faria sua entrada em seu prprio estilo, no momento escolhido por ela. Afinal, era 
a estrela.

Cena um, tomada um. Cameraman, Nestor Keresty. Diretor, Michael Lenox Caputo. Todos nutriam grandes esperanas em relao ao filme que, em um total mundial, deveria 
render quatrocentos milhes de dlares. O livro continuava em primeiro lugar.

Will, Caputo e diversos tcnicos estavam amontoados no trailer mal aquecido que era o alojamento de Will e tambm seu camarim. Esperavam que o gnio temperamental, 
Nestor Keresty, acertasse a iluminao, ajustando as luzes principais, fronteiras e traseiras, de modo a obter a claridade de um incio de manh em uma fazenda do 
Texas. Arte pura, de fato.

Na primeira cena do filme, North Downing ajudava uma eginha a nascer,  luz de lampies, em um celeiro meio arruinado. A cena encantara milhes de leitores do livro. 
North Downing era o "ltimo cowboy americano", marido e amante sensvel.

- Quero que voc me prometa uma coisa - disse Will, puxando Caputo para um lado. - Uma coisa muito sria, Michael, uma promessa que vou cobrar de voc.

O diretor franziu a testa. Muitos atores j o haviam forado a fazer promessas, algumas muito esquisitas, mas aquele garoto era apenas um novato. No entanto, um 
novato alto e forte, cujo temperamento explosivo era bastante comentado.

- Pode falar, seja l o que for, Will.

- Quero que voc arranque o mximo de mim, quando estivermos filmando. Quando eu carregar a potrinha, quero que seja algo dramtico, que eu aparente

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estar fazendo tanto esforo fsico quanto a gua fez, sofrendo tambm. Resumindo, quero que voc me transforme num ator.

Caputo sorriu, e ento, tentando no dar uma gargalhada, mordeu o lbio com fora. Nunca ningum lhe pedira tal coisa.

- No acha suficiente ser bonito?

- No, de jeito nenhum. Por Deus, torn Cruise tambm !

- E  s isso que os espectadores vem, Will. Acredite em mim. Hoje em dia, o que importa  a aparncia fsica.

- Estou pouco ligando para os espectadores - declarou Will. - Nunca liguei. No futebol, fui o melhor. Agora, quero ser o melhor no cinema. E serei. Pode contar com 
isso.

Michael Caputo encarou-o, atnito com aquele desejo absurdo e ingnuo.

Will Shepherd parece um garoto, no um adulto, pensou.

- Farei o que puder para ajud-lo - afirmou.

- E tudo o que peo. O resto, farei sozinho. E voc ter de engolir o sorriso condescendente que vi em seu rosto, um minuto atrs.

- Engolirei com prazer - Caputo assegurou, tornando a sorrir.

Na verdade, gostava de Will e queria que ele se sasse bem.

A primeira cena exigia que North Downing ajudasse a gua a parir e depois carregasse a cria atravs do ptio, levando-a para sua jovem esposa, Ellie. Naquela manh, 
filmariam apenas a seqncia do parto e da caminhada de North carregando a potrinha. Mais tarde, fariam a outra, em que o animal era apresentado a Ellie.

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Fizeram vinte e duas tomadas, antes que a primeira cena fosse considerada satisfatria. Will mostrou-se desajeitado, no comeo, apesar dos numerosos ensaios. Concentrava-se 
mais nas instrues de Caputo do que em aparentar a sutil emoo exigida pela cena, que tinha a possibilidade de tornar-se sentimental demais.

Caputo forava-o sem piedade, tentando extrair um sentimento real, e Will suava tanto que precisava de nova maquilagem aps cada tomada. Acertaram na vigsima primeira 
tentativa. A cena saiu perfeita.

- Mais uma vez - ordenou Caputo. - S para ter certeza.

Will abaixou-se junto da gua, puxou a cria para fora com um gemido de satisfao e, sorrindo, ergueu-a nos braos amorosamente. Cambaleante, saiu do celeiro, atravessou 
o ptio gelado e entrou por uma porta do cenrio que simulava a fachada da casa dos Downing.

Parou. Sorriu. Ento, comeou a rir. Aquilo era o mximo! Era a melhor coisa do mundo!

Havia uma mulher parada atrs da fachada, fora do alcance das cmeras. Quando Will entrou, carregando a potrinha, ela abriu a blusa bruscamente, mostrando os seios.

Ele quase deixou o animalzinho cair. Os olhos da mulher exibiam uma expresso de incrvel divertimento, um convite explcito.

Maggie nunca me perdoar, ele pensou. Se eu foder essa mulher, estarei fodendo a mim. Isso arruinar minha carreira.

Mas no podia parar de olhar para ela. Era linda. De tirar o flego. E ele j vira muitas beldades famosas para saber julgar.

- Seja bem-vindo a Primrose - disse Suzanne Purcell.

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S pude passar uma semana com Will, na Austrlia. Barry ficou implorando para que eu terminasse o novo disco, e, por fim, concordei em voltar e trabalhar.

Quando meu carro parou diante do nmero 311 da Broadway, lembrei-me da manh gelada de anos antes, quando fora ao escritrio de Barry pela primeira vez.

Veja como voc foi longe, disse a mim mesma, sorrindo. Uma cantora-compositora de sucesso, feliz no casamento, e que de vez em quando fica louca por sexo. Nada mau. 
No sou mais a Maggie assustada e insegura que veio pedir emprego a Barry.

Quando entrei, Barry saiu de sua sala para ir me cumprimentar. E me trouxe caf!

- Vamos ao estdio, no outro lado da rua. Fiz alguns arranjos para o disco Apenas Algumas Canes. Vai adorar.

- Barry, tenho duas msicas novas que fiz na Austrlia.

- Depois voc me mostra. Primeiro, os arranjos. Est em tima forma, Maggie. Ainda emana brilho. O casamento continua lhe fazendo bem, isso  bvio.

- Sou feliz, Barry. Realmente feliz - confidenciei. Claro, ele jamais admitiria que se enganara a respeito

de Will. Na verdade, nunca admitia um erro em nenhuma questo.

No estdio, ns dois s nos ocupamos com trabalho, como de costume. Nada mudara entre ns. Gostvamos de trabalhar e tambm da companhia um do outro. O desafio mais 
forte era fazer com que cada disco, isto , cada cano de cada disco, ficasse sempre diferente e melhor. Nem sempre conseguamos, mas tentvamos com toda a nossa 
energia.

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No trabalho desenvolveu-se extremamente bem naquele dia. Os arranjos de Barry me agradaram. Isso acontecia quase sempre, mas eu ficara muito mais crtica desde que 
nos vramos pela primeira vez. Ele amou uma de minhas novas canes e gostou da outra. O disco iria ser muito bom.

No meio da tarde demos o trabalho por terminado, e decidi fazer compras. Uma recompensa. Uma extravagncia. Depois, iria para casa. Naquela noite, quem faria o jantar 
seria eu. Ento, assistiramos a Forrest Gump1 em fita de vdeo. J vramos o filme seis vezes. Talvez eu preparasse camares  Bubba para o jantar, o que faria 
Jennie rir.

Encontrei um enfeite que eu queria, na Bergdorf Goodman, e sa da loja um pouco depois das trs e meia. A Fifth Avenue estava apinhada de txis, nibus e pedestres. 
No vi meu carro nem meu motorista imediatamente.

Ento, comeou a encrenca.

Uma cmera de televiso emergiu da multido como um periscpio de submarino. Dois jovens gorilas barbados, da Fox News, abriam caminho em minha direo. Feios. Verdadeiros 
homens de Neanderthal.

- Maggie! Maggie Bradford! - um deles gritou. Em uma reao instintiva, fugi, procurando meu carro

desesperadamente.

- Maggie! Aqui!  verdade que voc e Will tiveram problemas na Austrlia? Foi por isso que voc voltou?

Ouvi o rudo da cmera em funcionamento. Pedestres pararam para nos observar.

No Brasil, o filme recebeu o titulo de Forrest Gump - O Contador de Historias (N do E)

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Oh, maldito pessoal da televiso!, pensei. Por que vocs no vivem sua vida e me deixam viver a minha?

- No - respondi secamente.

- Parece que ele ficou muito ntimo de Suzanne Purcell. Pelo menos,  o que esto dizendo. Percebeu alguma coisa?

Meu estmago contraiu-se.

- No.

Will e eu sabamos que haveria falatrios sobre ele e Suzanne. E que, se isso no acontecesse, o estdio se encarregaria de provoc-los.

- Ento, no viu a foto?

- No. Mais nada a comentar. At logo. Desejo a vocs dois uma boa troca de fofocas.

Eu no conseguia abrir caminho no meio da multido e me afastar deles. Onde estava o carro, pelo amor de Deus?

- A fotografia, Maggie. - Um homenzinho calvo, do Channel Five, estava enfiando um microfone em minha cara. - Apareceu em todos os jornais. Will e Suzanne juntinhos. 
Voc no viu?

Empurrei-o para o lado, jogando-o em cima do cameraman. Vi meu carro, finalmente, corri, entrei e bati a porta.

Foi s quando rodvamos entre os bosques verdes perto de minha casa, que comecei a relaxar. A audcia daqueles miserveis insensveis! No era a primeira vez que 
eu entrava em atrito com reprteres. J acontecera em Roma e em Los Angeles.

O que aconteceu com o direito  privacidade?, perguntei a mim mesma. Quem esses sujeitos pensam que so?

Desejei que Will estivesse comigo, ali no carro.

Oh, Will, esquea isso de ser um astro de cinema. Vamos desaparecer e ser dois annimos pelo resto de nossas vidas.

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Will e Suzanne. A foto. Seria verdade? No, eu no acreditava. E no iria acreditar. Conhecia Will. Tinha certeza disso. A foto no passava de um golpe sensacionalista 
de algum paparazzo. No seria o primeiro, nem o ltimo.

Afastei esses pensamentos de minha mente. Mas eles voltaram quando me deitei naquela noite. Fiquei acordada at duas ou trs horas da madrugada.

Will e Suzanne Purcell.

No!

Que os paparazzi se danassem!

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No havia nenhum paparazzo para testemunhar aquele momento.

CENA: Banheiro de Ellie. Linda claridade da manh em toda parte. Ellie est em uma banheira de lato, coberta por flocos de espuma. De vez em quando afasta-os, a 
fim de olhar para a barriga. North entra, parecendo preocupado.

CORTE PARA: Reao de Ellie. Ela olha para o marido, acanhada. North ajoelha-se ao lado da banheira. No  como a maioria dos homens. Compreende o modo de pensar 
de sua esposa.

North: Por que est me evitando, Ellie? Desde que o beb nasceu, voc nem me deixa chegar perto. No foi isso que planejamos.

Em italiano fotorreporter esoeiahte (N do E.)

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Ellie: Porque no estou bonita. (Comea a chorar.) Nunca mais vou ser bonita. O beb estragou o meu corpo. Me transformou numa velha.

North: Uma mulher de dezenove anos no  velha. E voc est bonita como sempre foi. Continua sendo minha linda esposa. (Comea a afastar os flocos de espuma.) Voc 
 Ellie, e isso nunca mudar.

Ellie: No! Por favor... oh, North, por favor!

North: Fique quietinha. (Afasta os flocos, revelando os seios dela.) Viu como  bonita? E to linda que quase no agento olhar para voc.

Ellie: Estou inchada, parecendo uma leitoa. Tudo me di, e me sinto velha, mesmo no sendo.

North: (Pegando uma luva de banho e ternamente acariciando-a com ela, a mo escondida pela espuma, quando sobe em direo aos seios.) No est velha aqui, nem aqui, 
muito menos aqui.

CORTE PARA: Reao de Ellie. Ela fica obviamente excitada. Sorri, e seu sorriso  lindo. Ellie  to bonita quanto North afirma.

North: (Continuando com suas carcias.) Minha linda. Minha Ellie.

Ellie: (Respirando de modo ofegante.) Ainda sou?

North: Claro que . Sempre ser. Eu j disse, e isso nunca mudar. Nem quando voc ficar velha.

CLOSE up: Ellie e North beijam-se, cada vez com mais paixo. De repente, o banheiro fica cheio de vapor espesso.

CMERA: Vira-se para baixo, para focalizar a gua

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da banheira, movimentada pela mo de North, cada vez mais agitada

- Corte1 - A voz de Michael Caputo rasgou o silncio da cena. - Grande tomada! Podem parar. Preciso ir me masturbar!

Entretanto, Will e Suzanne no pararam. Os tcnicos deixaram as cmeras funcionando, e logo teriam um filme que poderiam vender a algum show sensacionalista de televiso.

Will e Suzanne pareciam no notar nada do que acontecia a sua volta. Ela sara da banheira, nua, sem nenhuma vergonha, e estava rindo, puxando o cinto dele. Will 
levantou-a nos braos e, com a boca sobre a dela, em um beijo que ningum veria em Pnmrose, levou-a para o seu trailer. Entraram, e ele fechou a porta com o p.

O lobisomem de Perth.

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- O que vai acontecer agora? - perguntou Will. As filmagens de Pnmrose haviam terminado, s faltando editar e copiar o filme.

Ele estava andando com Suzanne pela campina empoeirada. No pretendera envolver-se com ela, mas, como dizem, "acidentes acontecem". Suzanne era, de fato, uma das 
mulheres mais bonitas do mundo, e Will sempre gostara de ter o melhor.

- Eu volto para a Califrnia, e voc volta a ser o sr. Maggie Bradford - ela respondeu.

Will pestanejou, aborrecido. As palavras o haviam machucado.

- E sobre o que aconteceu aqui, entre ns?

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- Ns nos divertimos bastante, no ? Voc  bom, Will. Um dos melhores.

- Um dos? - Ele soltou uma risada escarnecedora. - Alm de linda, voc  muito engraada.

Suzanne tambm riu.

- Sou. Tenho miolos, Will. Oh, meu querido! J tive os melhores: atores, atletas, campees de esqui. Mas voc  muito bom. No precisa se preocupar.

Ele pressentiu a chegada de antigos demnios. Arrancados de seu sono, eles comearam a subir da boca de seu estmago para o crebro, cravando-lhe as garras. Como 
ele odiava perder! No suportava o fracasso!

- O filme vai me transformar num astro - ele disse, lutando para manter a voz calma. - Ento, no serei mais o "sr. Maggie Bradford".

- Fui eu quem o transformou num astro - Suzanne Purcell declarou. - No esquea isso. Mas no deve deixar esse negcio louco afetar voc. Pode afetar, sabia?

Acabe com ela. Mas no agora. V com calma, Will. V devagar. Aprendeu uma grande lio no Rio.

Ele ficou em silncio. Pouco depois, voltaram para o hotel.

- Uma ltima vez? - Will props. Suzanne riu, estendendo-lhe a mo.

- Ah, agora voc entendeu o esprito da coisa. No seu quarto ou no meu?

- No seu. Vamos brincar com os seus brinquedos.

Suzanne Purcell no tinha idia de como afundara naquele horror. Sentia-se como se estivesse tendo uma experincia extracorporal.

No momento em que entrara no quarto, Will a golpeara por trs. No que ela pudesse dizer o que acontecera

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primeiro. Sentira uma pancada forte entre as omoplatas. Ento, o felpudo carpete azul parecera subir de encontro a seu rosto. Ela batera no cho e desmaiara.

E acordara daquele jeito!

Ele a amarrara com as cordas de pular, que ela usava para fazer exerccios. Amordaara-a com o suti que ela estivera usando e mais uma corda.

E a colocara na banheira.

Foi ento que as coisas comearam a ficar ruins. Inacreditavelmente ruins. Ele cortou os dois pulsos dela e ficou observando o sangue escorrer pela banheira e descer 
pelo ralo.

Ficou sentado, vendo-a sangrar!

Suzanne debatia-se, tentando livrar-se das cordas, e soltava sons estranhos, abafados. Tentava gritar, mas a mordaa era apertada demais. Por fim, decidiu implorar, 
usando os olhos.

- Ora, vejam - ele finalmente disse. - Voc quer falar. Talvez queira retirar os comentrios desagradveis que fez l fora. Estou certo, Suzy? Como v, tambm tenho 
miolos.

Ela concordou, movendo a cabea o melhor que podia. Estava perdendo muito sangue, comeando a ficar tonta, como se fosse desmaiar.

- Sei que no  um suicdio autntico, mas parece. E, de qualquer maneira, ver uma pessoa morrer  fascinante. Voc nem imagina. Estou assombrado, observando os 
seus olhos neste momento. Mil pensamentos passam pela sua mente, certo? Voc no consegue acreditar que a grande Suzanne Purcell est morrendo.  algo louco demais, 
certo? Sua vida no pode acabar assim, certo? Tudo isso aparece nos seus olhos, Suzanne.  fantstico!

De repente, Will parou de falar.

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Ficou apenas olhando-a, vendo-a esvair-se em sangue. Parecia mesmo um suicdio. Como o do pai.

Quando Michael Caputo foi ao hotel de Suzanne, na manh seguinte, tinha a inteno de despedir-se dela e desejar-lhe uma boa viagem de volta para casa. E a esperana 
de que, talvez, tivesse sorte.

Suzanne no atendeu o telefone. E no respondeu, quando ele bateu na porta.

Por fim, ele decidiu chamar o gerente.

Drogas, pensou. Que inferno! Por que quase todas as mulheres bonitas tinham de ser malucas?

Encontrou Suzanne nua e com os pulsos cortados, inconsciente, mas ainda viva. Estava algemada na cama. Levaria seis meses, para que ela pudesse trabalhar em outro 
filme. E os dose-ups nunca mais seriam os mesmos.

Suzanne jurou a Caputo, e depois  polcia, que no fora Will que fizera aquilo com ela. Recusou-se a dizer qualquer outra coisa. Recusou-se a denunciar o agressor.

No disse mais nada a ningum.

Will a deixara completamente apavorada. E ela sabia que ele era capaz de matar, de fazer qualquer coisa.

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LIVRO QUATRO

O LADO ESCURO DA LUA

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No sou assassina.

Nunca matei ningum.

Pelo menos, fora isso que eu comeara a repetir para mim mesma sem parar.

Quando chegamos  porta do tribunal, todos os olhares estavam voltados para mim, e fiquei sem poder respirar. Achei que estava enlouquecendo. Talvez esteja.

Policiais da priso, assim como minha fiel equipe de advogados, me rodearam, aprisionando-me em um cerco que provocava claustrofobia. Lembrei-me de como me sentira 
no espao exguo sob o alpendre da casa em West Point. Todas as histrias de horror pareciam estar se reunindo em minha mente.

Chovia a cntaros, e centenas de pessoas, a maioria carregando guarda-chuvas pretos, embora houvesse alguns azuis e vermelhos, tinham se aglomerado diante do prdio 
para ver, nem que fosse de relance, a assassina famosa.

O que acabava comigo era saber que meus filhos tambm me veriam daquele jeito, algemada, exibindo meu A escarlate.

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Entramos e subimos a escada para chegar  sala onde o juiz Andr w Sussman nos esperava. Era um homem alto, com mais ou menos um metro e noventa e cinco de altura, 
barba grisalha e espessa, que ele deixara crescer desordenadamente. Devia ter seus quarenta e cinco anos e lembrava um rabino. Bom sinal. Devia ser justo.

E tudo o que eu queria era que me julgassem com justia. Ao estilo americano, certo?

O juiz Sussman segurava a pasta preta, de aparncia solene, que continha a acusao de assassinato contra mim. Meus advogados tinham me dito o que esperar, mas eu 
nunca me acostumaria com aquelas coisas.

O que estou fazendo aqui, em nome de Deus? Como isso pode estar acontecendo comigo?

Eu no era a vil, mas a vtima. Como podia estar sendo julgada por homicdio?

Os representantes da imprensa que cobririam o julgamento j se encontravam na sala. Vrios desenhistas, no apenas um, estavam a postos, prontos para desenhar verses 
da minha aparncia naquele dia. Que coisa mais artstica!

Fiquei de p, diante do banco, ao lado de Nathan Bailford, chefe da minha equipe de advogados. Aquilo no podia estar acontecendo. Nada parecia real.

- Bom dia - o juiz cumprimentou em tom educado, como se eu estivesse ali para pagar uma multa por ter estacionado em local proibido.

Ou violado a lei municipal de Bedford, que obrigava os moradores a manter a grama das caladas aparada, ao longo do meio-fio.

- Bom dia, meritssimo.

Fiquei surpresa por ser capaz de falar com firmeza, de pronunciar as palavras, de ser educada tambm.

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O juiz ergueu a pasta preta para que eu pudesse v-la.

- Sra. Bradford, tenho aqui a acusao enviada pelo grande jri. J a leu? - perguntou.

Falava com simplicidade, como se eu fosse uma criana acusada de ter cometido um erro grave.

- J li, sim, meritssimo.

- Teve tempo de discuti-la com o dr. Bailford e os outros advogados?

- Sim, ns a discutimos.

- Compreende a acusao que  feita contra a senhora? Compreende que est sendo acusada de ter assassinado seu marido, Will Shepherd?

- Li o documento. Compreendo que sou acusada de homicdio.

Ele aprovou com um gesto de cabea, como se eu fosse uma boa aluna, ou, no caso, uma boa r.

- Confessa-se culpada, ou alega inocncia? Olhei-o nos olhos. Sabia que isso no fazia diferena,

mas tive necessidade de agir assim. No sou culpada declarei. Sou 66 inocente.
Nova York. Central Park. Fazia quase um ano que eu me casara com Will.

- Maggie, voc consegue ver alguma coisa? Eu no vejo nada. rvores demais neste parque desgraado - ele reclamou.

Estvamos, com Jennie, acomodados na penumbra da limusine. Will acendeu um cigarro nervosamente, e a luz do fsforo, azul e dourada, iluminou-lhe o rosto. Ento, 
passou a mo nervosamente pelos cabelos loiros e cacheados.

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Como ele est plido, pensei. Cansado. Amedrontado. Revive novamente a Copa do Mundo. Precisa provar alguma coisa, esta noite. Bem, acho que posso compreender isso.

- O que esto fazendo l na frente, no comeo desta maldita fila interminvel? - perguntou.

- No consigo ver - respondi. - Suponho que estejam tirando pedestres do caminho.

- Viu? O seu filme j est fazendo sucesso - Jennie comentou, querendo anim-lo.

A limusine estava parada, o motor desligado, no Columbus Circle, uma das entradas do parque. Era o quinto veculo na fila de Rolls-Royce e Lincoln que levavam autoridades, 
o produtor/diretor do filme e os atores.

Por fim, os carros comearam a mover-se, descendo para o lado sul do parque. Logo, passvamos pela Seventh Avenue e atravessvamos a Fifty-fourth Street, em direo 
ao cinema Ziegfeld, onde aconteceria a estria mundial de Primrose.

O nervosismo de Will aumentava a cada minuto. Notei que sua mo estava suada, quando a segurei em um gesto de conforto. Assim que acabou de fumar, acendeu outro 
cigarro. No fumava muito, mas naquela noite parecia no poder parar. Estava descontrolado.

- Vai dar tudo certo - afirmei.

- Tudo certo?! Dentro de quinze minutos, os crticos vo me ver na tela, com nove metros de altura, em total evidncia, dizendo: Amanhecer  um lindo nome para a 
sua eginha, Ellie. Cuide dela, garota, como cuidaria de um filho.  s uma histria, Will. E  o que as pessoas querem, para escapar da vida real por algum tempo.

- Os crticos de Nova York, no. Eles vo perceber

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que o filme  uma merda, que eu sou um canastro, e a... puf! L se foi minha curta carreira de ator.

- De jeito nenhum! - protestou Jennie.

- De todos os jeitos - Will replicou, finalmente brincando.

A limusine parou. Dedos gordos e peludos comearam a bater na janela. Reconheci o rosto gordo e peludo colado no vidro e soltei a trava da porta.

- Parece que no  s voc que est nervoso - cochichei.

- Caputo! - Will exclamou, sorrindo, quando o diretor entrou e apertou o corpo volumoso no assento.

- Vo nos apedrejar - Caputo declarou em tom lamentoso. - Eu sei que vo. O meu instinto nunca falha. Sou do Brooklyn, e quem vem de l tem o instinto aguado.

Ele estava to comicamente infeliz, que tive de rir.

- O pblico espera muito desse filme - observou Caputo. - E  s o que pode fazer, sabendo que custou cinqenta milhes. Mas Will e eu sabemos que vo ver merda. 
Merda australiana, ainda por cima.

Will riu do humor sombrio do diretor, embora o seu no estivesse melhor.

- Onde est sua esposa? - perguntei. - Parece que ela teve tanto sucesso quanto eu, tentando acalmar o marido.

- Eleanor est no carro a da frente, com minha santa me. Nenhuma das duas consegue me agentar, quando fico assim. Chutaram-me para fora do meu prprio carro! 
Por isso eu vim para o seu. Algum tem que me levar at o cinema!

Abri a porta da limusine e desci, puxando Jennie.

- Aonde voc vai? - perguntou Will.

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- Para o carro de Michael, ficar com a me dele e Eleanor. Vocs, artistas, merecem ficar sozinhos.

67

Eu e Jennie voltamos para junto de Will quando chegamos ao cinema. Passamos sob os fachos dos holofotes, pela multido que gritava, pelos reprteres, pelos executivos 
do estdio e, finalmente, nos sentamos nos lugares de honra.

Jennie e eu nunca havamos comparecido a uma estria mundial. Era realmente algo divertido. Todo mundo parecia vestido de modo inadequado, suntuoso demais. Os homens 
usavam smokings ou ternos escuros, e as mulheres, vestidos de noite... para assistir a um filme!

Aps mais ou menos quinze minutos de espera, o filme comeou, os letreiros rodando na tela. WILL SHEPHERD. L estava o nome dele, to grande quanto o de Suzanne 
Purcell. Mesmo antes de aparecer o ttulo, a platia aplaudiu, e ouvi Will gemer, mas no poderia dizer se fora de prazer ou de medo.

Logo no incio, fui envolvida pelo encanto das imagens. Nestor Keresty descobrira beleza em uma paisagem do "oeste americano" onde eu no vira nada, e sua arte estava 
viva na tela.

Will, ou melhor, North, pegou a eginha recm-nascida e levou-a para sua jovem esposa. Notei, com satisfao, que Suzanne Purcell parecia mais perto dos trinta do 
que dos dezenove. Will, ento, recitou sua fala, aquela que lhe causara tanta apreenso.

A platia ficou em silncio. No se ouviu nenhum riso, nem mesmo abafado.

Will, ento, relaxou, ajeitando-se na poltrona a meu lado. Jennie olhou para ele, erguendo os polegares.

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- Viu? - cochichou. - Eu no disse?  O filme tinha pouco mais de duas horas de durao.

Era gil, bonito, sentimental e romntico. Eu estava gostando, at que North aproximou-se de Ellie, na banheira, e comeou a lav-la.

Will olhava para Suzanne do mesmo modo que olhava para mim, quando fazamos amor. No parecia que os dois estavam apenas representando. Havia desejo nos olhos de 
Will, luxria. A mo dele ficou escondida sob os flocos de espuma, mas percebi o que ele estava realmente fazendo, s pelo jeito como movia o brao.

Senti um aperto no corao. Falta de ar. Precisei ficar muito ereta em minha poltrona.

Eles dormiram juntos, pensei.

Uma dor surda espalhou-se por todo meu corpo. Lembrei-me dos rumores publicados pela imprensa e de como Will negara tudo.

Foram amantes tambm na vida real. Oh, por favor, que isso seja mentira!

Forcei-me a olhar para Will. Ele mantinha os olhos fixos na tela, a boca entreaberta, revivendo a situao!

Quando a cena de amor, que me pareceu interminvel, acabou, Will inclinou-se para mim e beijou-me no rosto.

- Eu estava representando, Maggie - afirmou baixinho. - Sei o que est pensando, mas no  nada disso. Talvez eu seja mesmo ator.

Suspirei, respirei fundo, comeando a me sentir um pouco melhor. Sim, talvez Will fosse um bom ator, afinal.

68

A festa para comemorar a estria de Primrose foi no andar de cima do Russian Tea Room, na Fifty-seventh

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Avenue. Mais de cem pessoas apertaram a mo de Will e disseram-lhe que ele era um ator magnfico. Ele no conhecia nenhuma delas e recebia seus elogios com um gesto 
distrado de cabea.

No estava ali, mas em outro lugar, procurando o pai e a me. Seus fantasmas, ele sabia, no perderiam um acontecimento to grandioso quanto aquele.

Era o Rio de Janeiro outra vez. Ele estava perdendo em grande estilo, novamente. Reconhecera todos os sinais do desastre. E percebera que ainda no aprendera a aceitar 
a derrota.

Um dos relaes-pblicas de Caputo entrou correndo no salo, por volta de onze e meia, chamando a ateno dos presentes. Aquele era o momento que todos esperavam.

- Um sucesso! - o homem gritou, abanando uma cpia do New York Times. - Um delrio! Bem, quase.

Entregou o jornal, j aberto na seo de entretenimento, a Caputo. Ento, ficou no meio da multido que cercara o produtor-diretor para ouvi-lo ler a crtica.

- "Michael Lenox Caputo, o mestre das bombas arrasa-quarteiro, o nico entre nossos atuais diretores que ainda pode produzir um filme absorvente, at mesmo arrebatador, 
superou-se com Primrose, que, sem dvida, ser um dos maiores sucessos de bilheteria desta temporada."

Os ouvintes irromperam em aplausos, principalmente os executivos do estdio, e a banda que fora contratada para animar a festa tocou Viva o Chefe. Caputo continuou 
a ler em silncio, ignorando o barulho, e ento, quando o silncio se fez novamente, jogou o jornal para um lado.

- A modstia me impede de ler o resto - declarou. - Vocs todos tero seus exemplares pela manh. Agora, vamos comemorar bebendo. Ns merecemos!

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Os garons comearam a servir champanhe caro.

O jornal, que aterrissara em uma das mesas perto da entrada, foi esquecido por todos, menos por Will, que o apanhou com fingida displicncia, comeando a ler o artigo. 
Imaginava por que motivo Caputo no o lera em voz alta at o fim.

Localizou o prprio nome quase que imediatamente.

Caputo foi maravilhosamente recompensado pela atriz principal, Suzanne Purce, que irradia inocncia e ao mesmo tempo sensualidade, e que, nas cenas de amor, consegue 
ser tanto uma mulher amadurecida, que se sente bem com seu apetite sexual, quanto uma jovenzinha de dezenove anos, o que no , na vida real. O ator principal, porm, 
o ex-esportista Will Shepherd, fica muito melhor em um campo de futebol do que nas plancies do Texas, to lindamente fotografadas. Ele trata a mulher como se ela 
fosse uma comida gostosa, no mais importante do que uma fatia de bolo. Os dois ficam maravilhosos, despidos da cintura para cima, mas quando o sr. Shepherd precisa 
mesmo representar, qualquer emoo gerada pelo desejo sexual desintegra-se em um trejeito da boca, em um sorriso forado, em lgrimas de glicerina aplicadas por 
um maquilador, no naquelas verdadeiras, produzidas pelo corao, algo que ele parece no ter. O sr. Shepherd no devia ter abandonado a carreira de atleta to precipitadamente.

Will parou de ler, virando-se para olhar os convidados. Sentia-se frentico,  beira da loucura. Correu os olhos pelo salo, procurando Maggie com desespero. Viu-a 
ao lado de Caputo, rindo de alguma coisa que ele dissera.

Que ela se foda.

Era para ser a minha salvao, minha alma gmea. Suas canes me prometeram isso.

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Mas ela disse que eu estava maravilhoso no filme.

Mentiu.

Amaldioada.

Vaca!

Jogou o jornal no cho e saiu do salo. Desapareceu na noite. Receava estar enlouquecendo, ou j ter ficado louco. Precisava ouvir os aplausos da multido, sentir 
seu amor absoluto, mas no havia nada disso para ele naquele lugar.

Entrou na Seventh Avenue e comeou a correr. Logo, corria a toda velocidade. No entanto, ainda no ouvia aplausos, no via amor em parte alguma.

O lobisomem de Nova York.

69

Will continuava desaparecido depois de dois dias, e eu tinha a impresso de que meu corao explodiria a qualquer momento. As crianas tambm estavam em pnico.

Winnie Lawrence saiu comigo  procura dele, e fomos a todos os hospitais de Nova York e regio. Telefonamos para as pessoas com quem ele pudesse ter sado da festa, 
mas ningum tinha a mnima idia de onde Will estaria.

Recordei tudo o que ele me contara sobre a final da Copa do Mundo, no Rio, e sua confisso de como ficara desapontado. Alguma coisa acontecera l que o modificara.

Eu lera a crtica do New York Times, naturalmente, assim que percebera que Will deixara a festa. Cheia de raiva, imaginara o mal que o artigo fizera a ele, como 
o magoara. J passara por aquilo. Sofrer por causa de crticas maldosas, algumas merecidas, outras no.

Mais um grande fracasso de Will. Fracassos demais a

seu ver.

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Eu tambm sabia o que era sentir-se assim e queria estar com ele para dar-lhe apoio. Mas como podia ajud-lo, se no o encontrava? Para onde teria ido?

No terceiro dia, liguei para Barry e pedi-lhe que fosse a minha casa.

- Estou um pouco descontrolada - confessei, quando ele chegou. - Acho que deveria fazer mais do que estou fazendo. Mas o qu?

- Will vai voltar - Barry afirmou. - Deixou algo muito bom aqui. No se esquea disso.

- Voc sempre me superestima e subestima Will. Ele pode ter se matado, Barry. O pai dele suicidou-se.

- Pessoas como Will no se matam - declarou Barry.

- Ele sabe o que est fazendo.

- Como pode dizer isso? Voc no o conhece! No sabe como algumas coisas o afetam.

Barry deu de ombros. No acreditava que Will pudesse cometer suicdio. E, de certo modo, nem eu. Will voltaria. Ele me amava. Amava meus filhos. Tinha de voltar.

- Imagino-me encontrando-o numa vala qualquer

- confidenciei. - No  porque a polcia no o encontrou que...

- A polcia no o encontrou porque ele no quer ser encontrado - Barry me interrompeu. - Entendo que  uma situao difcil, Maggie, mas voc est exagerando. Ele 
deve ter se metido numa farra muito boa e voltar quando acabar.

Will seria capaz de fazer isso? De repente, senti medo, achando que podia no saber tudo a respeito dele, como julgava. Eu no estivera com ele, no Rio. No sabia 
que demnios o haviam possudo. Que demnios o estariam possuindo agora?

Como ele podia simplesmente desaparecer?

185

Uma imagem cruzou minha mente, e vi Will e Allie cavalgando Fleas no terreno aos fundos da minha casa. Will tinha de voltar. Era inconcebvel que no voltasse.

70

E ele voltou.

Acordei com o toque familiar de seus dedos afagando meu rosto, depois meus cabelos. Will estava no quarto! Eu conhecia muito bem aquele modo de ele me tocar. Meu 
corao saltou no peito, e abri os olhos, assustada.

- Will... - consegui murmurar, sentindo a boca seca.

Empurrei a mo dele e sa da cama. Encarei-o, dominada pela fria que fora se acumulando durante o tempo em que ele estivera fora.

- Onde esteve? Por que no telefonou? Oh, Deus, Will! Acha que pode desaparecer e depois simplesmente voltar, como se nada tivesse acontecido?

Havia algo diferente nos olhos dele, naquela noite. Algo muito estranho. Apesar de sutil, a diferena no me escapou. Will parecia outra pessoa.

Usava cala esporte e camiseta preta. Os cabelos estavam revoltos, como que soprados pelo vento. Nas faces e no queixo havia a sombra da barba de um, dois dias.

Ele sorriu para mim do jeito que, tenho certeza, sorria para todas as mulheres a quem deixava com raiva e de cujo perdo precisava. Senti vontade de gritar, de esmurr-lo.

- Estive em Londres. Fui visitar minha tia Vannie, que foi uma segunda me para mim. Mas no a encontrei. Ela viajou com tia Eleanor. Ento,, voltei.

Claro. Voltou para outra me. Para mim!

- Desculpe, Maggie. Eu no devia ter feito isso. Devia

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ter telefonado, pelo menos. Mas voc no faz idia de como aquela maldita estria me deixou arrasado. No pode imaginar o que passa pela minha cabea.

No, eu no podia. No podia e no queria. Mas tentei ser paciente e compreensiva. Talvez, minha tentativa tenha sido exagerada.

71

Will comeara a usar culos escuros de duzentos dlares, quase que o tempo todo, mesmo  noite e dentro de casa. Chamava essa mania de "fase de estrela de cinema".

Usava qualquer tipo de desculpa para sair. Na verdade, tinha medo de ficar perto de Maggie e das crianas. Talvez no os amasse mais, no sentisse mais o que desejava 
sentir, mas tambm no queria fazer-lhes mal.

Ele no queria fazer-lhes mal.

Em uma tarde ensolarada, foi a Nova York em seu Mercedes conversvel. Sentia-se vazio, como se no houvesse nada, absolutamente nada, dentro dele. Falara com o irmo, 
pela manh, mas, claro, Palmer no lhe dera nenhuma ajuda, porque no queria mais saber dele.

Will queria acabar com aquilo tudo, talvez num espetacular acidente de automvel. Dirigia o Mercedes a mais de cento e cinqenta por hora, na estreita e sinuosa 
Saw Mill. Mas era um motorista hbil demais para causar uma coliso. Tinha reflexos perfeitos. Ou, talvez, ele no quisesse de fato morrer. No, ainda.

Por que haveria de querer?

Primrose estava estourando como sucesso de bilheteria. Era um absurdo, mas o filme alcanara o primeiro lugar na lista dos mais vistos e ficara l durante semanas. 
Mais

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absurdo ainda: Will estava sendo apontado como o prximo Clint Eastwood, ou Harrison Ford. Que idiotice! Hollywood dava-lhe enjos com aquela previso amadorstica 
da preferncia popular.

Em uma nica semana, ele recebera mais de cem roteiros repugnantes para ler. Por fim, selecionara outro best-seller, um texto de terror psicolgico chamado Sinos 
de Vento. E negociara um contrato de quatro milhes de dlares, adiantados.

O incio das filmagens estava marcado para aquele dia, e o diretor era um ingls, o famoso Tony Scott. O filme iria ser outro sucesso, ningum duvidava. Tinha todos 
os "ingredientes".

Will tinha certeza de que seria outro lixo comercial. Sabia o que era bom e o que no era. Sabia que estava enganando o mundo e que isso seria descoberto, mais cedo 
ou mais tarde.

O que ele no podia tolerar, porm, eram as crticas. Porque diziam a verdade, porque os crticos tinham razo. Ele era um ator de merda.

No, no podia mais suportar essa situao.

No podia mais suportar quem era, Will Shepherd, uma agonizante lenda viva, ex-artilheiro miraculoso, o "incrvel bonito", "o sr. Maggie Bradford".

Assim que chegou a Nova York e viu as placas indicando a Broadway e a rua 242, Will pisou fundo no acelerador e tornou a passar de cento e cinqenta.

O trnsito estava ruim, e ele danava na pista, passando de uma faixa para outra, provocando buzinadas furiosas.

No quero mais ser Will Shepherd, pensou, manobrando o volante com apenas uma das mos. Com um dedo s. Olhe, mame, sem as mos!

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No quero mais viver assim. No posso.

Era isso o que meu pai estava pensando, quando afundou na piscina a primeira vez?

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Ele estava afundando. Indo para baixo, para baixo, para baixo, na gua fria e escura. No era to ruim morrer afogado.

Foi como Will Shepherd, que ele comeou a noite no Red Lion Inn, em Greenwich Village. Como Will Shepherd, consumiu sete usques. Grande! Como Will Shepherd, estava 
contando para uma platia inebriada, seu maior triunfo no futebol, quando ainda usava o uniforme do Manchester United.

Como estava pagando bebidas para todo mundo, a platia o ouvia com ateno, absorvendo cada uma de suas palavras.

- Will! Will! Will! - um dos homens entoou. Um ingls, provavelmente um verdadeiro f.

- O Flecha Loira! - Will gritou de volta, a voz carregada de uma ironia que nenhum deles pareceu captar.

- O Bunda Loira! - algum berrou, atrs do ajuntamento. Will parou no meio de sua histria. Viu que era um

punk, usando jeans e colete de couro pretos, bancando o macho. Fulminou o idiota com um olhar.

Lixo europeu, pensou. Vamos ver no que d.

O punk abriu caminho, seguido por dois amigos. Will viu tatuagens nos braos deles: falces e guias.

- O Bunda Fedida - o que o insultara antes rosnou, parando diante dele, enquanto os espectadores recuavam.

Seu sotaque parecia alemo.

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- Fresco - um dos amigos acrescentou. - Bicha inglesa.

Alemo, sem dvida.

A raiva, que vinha tentando escapar de dentro de Will havia dois dias, explodiu em um rugido. Ele soltou uma torrente de palavres.

O "lixo europeu" deu um passo  frente, provocador, chamando Will com um gesto.

- Venha me pegar, bundo. Venha, senhor. J Era. De onde o punk tirara a corrente que segurava, Will

no podia imaginar. Mas isso no tinha importncia. Atirou-se sobre o alemo.

O Flecha Loira lanou-se com fria cega. Queria briga. Qualquer uma servia.

Will saiu do Red Lion com alguns cortes e hematomas. Nada grave. Nada fatal.

Lembrou-se de que o esperavam em um estdio de cinema.

Que se fodam. Esse terror psicolgico foi muito melhor.

Ento, houve uma srie de exploses luminosas junto de um armazm abandonado, perto da Hudson Street. Uma gangue comeou a espanc-lo, mas ele no sabia por qu.

Foi alguma coisa que eu disse, caras?

Will s tinha conscincia da intensa dor que os pontaps deles lhe causavam na cabea, no estmago, nas virilhas, nas costelas, da agonia que cada golpe provocava 
em seu crebro.

Castigo, pensou, caindo no cho.

Estou sendo castigado pelos meus crimes, pelos pecados, pela minha vida inteira.

Prenderam-no pelos braos e pernas. Ele no podia

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mover um msculo. Seu rosto foi esmagado contra o concreto spero da calada. Sangue escorreu-lhe do nariz. Ento, ele foi erguido pelas pernas, como se fosse carne 
em um gancho de aougue.

E, de fato, foi martelado como um bife. Socado, chutado, golpeado com coronhadas. Achou que nem um nico osso ficara inteiro em todo seu corpo. De modo estranho, 
porm, a dor era bem-vinda. Dava-lhe a certeza de que estava vivo.

O mundo, de repente, comeou a girar loucamente, descontrolado, todo lquido e vermelho. Will sentiu que estava caindo em um buraco negro.

Fora largado em uma rua de Nova York. Para morrer.

No era to terrvel assim.

Ele s seguia as pegadas do pai. Sempre soubera que teria um fim violento.

Will Shepherd encontrou a morte nas ruas de Nova York.

Estranho, esquisito, mas sua ltima viso foi a do cachorro que ele matara, tantos anos atrs. Ele amara aquele co.

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Tinha de ser um pesadelo. No podia ser outra coisa. Eu no estava acordada, estava?

A polcia de Manhattan foi a minha casa por volta de meia-noite. Um policial deu a notcia educadamente, mas seu tato e suas boas maneiras no puderam aliviar minha 
dor. Precisei me sentar, antes que casse. Achei que iria desmaiar, ou vomitar. Estava em estado de choque.

Por fim, consegui telefonar para Winnie Lawrence. Ele morava perto, e logo samos para ir ao hospital St. Vincent, em Nova York.

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Deixaram-me ver Will s por alguns instantes. Ele estava dormindo, sedado, o rosto envolto por uma grossa camada de gaze. Horrvel.

Eu me sentia como se estivesse sonhando. Fosse o que fosse que estivesse vendo, no podia ser real. O que acontecera com o homem com quem eu me casara, a quem amava? 
Aquela pessoa cruelmente espancada no podia ser Will!

Na sala de espera, Winnie e eu fomos abordados pelo detetive Nicolo, o policial que fora a Bedford levar a notcia. Mas eu no queria falar com ningum, no queria 
ver ningum.

- O sr. Shepherd est bastante machucado, mas a situao parece pior do que realmente  - Nicolo observou. - Os mdicos disseram que ele ficar no hospital por duas 
semanas. Sinto muito, sra. Bradford. No sabemos como aconteceu, nem quem so os culpados. Nenhuma testemunha se apresentou.

- Ele ia comear um filme ontem - Winnie Lawrence informou.

- Se o filme for Rocky 5, ele est com sorte. - O detetive sorriu. - Vai estar perfeito para o papel.

- Meu Deus! - Winnie gemeu, caminhando para um telefone pblico.

Nicolo virou-se para mim. Era parecido com Al Pacino, mas tinha um nariz curvado e maior. Usava os cabelos brancos e lisos penteados para trs.

- Pode pensar num motivo para a agresso, sra. Bradford? Sabe com quem ele esteve ontem  noite?

- Lamento, detetive, mas no sei. Estou fora de mim. Desculpe - murmurei, contendo as lgrimas.

Nicolo estalou a lngua, olhando-me com compaixo.

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- Quer dizer que ontem  noite ele no estava em casa com a senhora?

- Ele saiu  tarde, mas iria voltar. No voltou.

O que o detetive est insinuando? Por que estou protegendo Will?, perguntei-me Porque ele  meu marido e eu o amo.

- Vai ser difcil descobrir quem o espancou - Nicolo comentou, guardando um caderninho preto que tirara do bolso quando comeara a conversar comigo. - Se o sr. Shepherd 
no souber descrev-los, no poderemos fazer nada. Voltarei assim que ele for capaz de falar e ficarei em contato com a senhora.

Apertou minha mo e afastou-se, pedindo-me para telefonar, caso eu tivesse alguma informao.

Winnie voltou para junto de mim, muito agitado.

- Vo substituir Will - informou. - Disseram que no ser possvel esperar at que se recupere. Que diabo aconteceu com ele?

Dei de ombros, sentindo-me entorpecida e gelada. Para mim, a notcia dada por Winnie no fora boa, nem m. Havia algo assustador em minha mente. Eu no sabia quem 
meu marido era.

- Ele vai ficar arrasado por causa do filme - Winnie comentou.

- No sei. - Uma onda de tristeza me invadiu, aumentando meu cansao. - Talvez fique aliviado. ,

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Voltei para Bedford com Winnie Lawrence. Como sempre, a sra. Leigh, minha empregada, estava em casa com as crianas. Felizmente, todos ainda dormiam quando cheguei.

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Eu no queria contar-lhes o que acontecera com Will. No saberia explicar. Eu mesma no compreendia.

Amava Will, mas talvez ele me enganasse. Talvez fosse um bom ator quando queria. Eu pensara que poderia ajud-lo, que estava ajudando. Minha me cometera o mesmo 
erro com relao a meu pai. Oh, Deus, eu no sabia o que pensar. Queria subir ao sto e, outra vez, apenas escrever canes.

Fiquei sentada no escritrio, olhando para fora. O sol surgira e pssaros pipilavam em toda parte. Mas, dentro de minha cabea, apenas imagens desagradveis flutuavam. 
Imagens ruins. Lembrei-me de um filme com Julia Roberts, Dormindo com o Inimigo. Eu me sentia como se estivesse nele, ou quem sabe fosse outro, ou, ainda, eu podia 
estar sonhando.

Por favor, que isso seja um sonho. No conheo meu marido. Como isso  possvel? O que Will est fazendo a si mesmo? O que est fazendo a todos ns?

Allie entrou no escritrio, procurando-me. Fiz o melhor que pude para fingir que nada de errado estava acontecendo.

- Fiquei esperando, esperando, esperando, que voc se levantasse e viesse me ver - eu disse, batendo no colo, convidando-o a sentar-se ali.

Ele correu para mim, atirando-se em meus braos. Abracei-o e beijei-o. Ele fez a mesma coisa comigo. Nem imaginava como aquilo era importante para mim, no momento.

Eu me sentia como se fosse comear a gaguejar de novo, meu peito parecia que iria cair, de to pesado. Mas, mesmo assim, adorei manter Allie abraado a mim. Fazamos 
aquilo todas as manhs, desde que ele nascera. No acredito que tenhamos falhado um nico dia.

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De repente, meu menininho virou-se para me olhar bem dentro dos olhos.

- O que , mame? - perguntou. - O que aconteceu?

Mais tarde, naquela manh, voltei ao lgubre hospital, no centro de Nova York. Deixaram-me ver Will. Ele estava sentado na cama, ainda tonto, tomando suco atravs 
de um canudinho.

A parte do rosto no tapada por bandagens estava roxa, os olhos no passavam de horrveis aberturas estreitas, os lbios inchados pareciam ter sido mordidos por 
um enxame inteiro de abelhas. Tinha a aparncia de um daqueles pobres homens que dormiam nas caladas, por toda a cidade. Meu marido parecia um deles.

Will estendeu a mo em minha direo, quando entrei. Meu corao enterneceu-se. No pude evitar.

- Maggie...

No peguei a mo dele. Odiei negar-lhe aquele gesto de carinho, mas tinha de fazer isso. Fiquei em p ao lado da cama, olhando-o.

- Maggie... me perdoe. Por favor, me perdoe.

- Como posso perdo-lo, Will?

Ele comeou a chorar como um garotinho. Enrolou-se feito uma bola, em posio fetal, sempre chorando. Estava to pattico, parecia to horrivelmente sozinho, que 
fiquei imaginando o que estaria acontecendo com ele.

Meu corao quase se partiu, mas no estendi a mo para confort-lo.

Daquela vez, no pude.

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Apenas maus pensamentos passavam pela mente de

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Will, desde que ele voltara para casa. Mas no hospital acontecera a mesma coisa.

Irritava-o o fato de Maggie ainda ser uma grande estrela, e ele, uma nulidade. Mas, o que mais o enfurecia era notar que ela estava feliz. Maggie, Jennie e Allie 
formavam uma unidade que se bastava a si mesma. No precisavam dele. Seguiam adiante sozinhos, maravilhosamente bem.

Maus pensamentos. Constantemente. De manh, ao meio-dia,  tarde, mas especialmente  noite.

Como o desejo de que Allie sofresse um acidente, quando os trs sassem para cavalgar.

Ou pensamentos a respeito da bonita Jennie. Ali, havia muito o que fantasiar. Bem, Jennie tratava-o com carinho. Porm, era igual aos outros, no era? Todos o queriam, 
mas s at descobrirem quem era ele realmente.

Palmer era to mau quanto os outros, talvez pior. Seu prprio irmo, e estava extorquindo dinheiro dele, chantageando-o com alguns segredos inofensivos. Mas Palmer 
sempre fora um desgraado, um imprestvel.

Maggie era o problema maior, e Will no sabia o que fazer com ela.

Mas no deixava de ter um bocado de pensamentos maus a seu respeito.

Havia numerosas possibilidades. Nenhuma delas muito agradvel.

Quais, por exemplo?

se eu me matasse, como meu pai?

E se eu fosse um pouco mais longe?

E se... e se... e se...

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Observem bem agora, por favor. E tentem ouvir cada palavra, cada detalhe.

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Foi aqui que a viagem comeou a ficar perigosa de verdade, onde comecei a questionar seriamente minha sanidade. S de pensar nisso, fico tensa, insegura e com o 
estmago enjoado.

Sou culpada? A assassina, como dizem? Ou a vtima?

- Preciso ir para San Francisco, Will - avisei, algumas semanas aps o "incidente" em Nova York.

Ele ainda agia de modo estranho, mas se comportava bem com Jennie e Allie, de modo que eu no tinha muito do que me queixar.

- O qu? - ele perguntou, mal desviando os olhos da televiso.

Nos ltimos tempos, sempre parecia mergulhar profundamente em tudo o que fazia. s vezes, quando eu falava com ele, Will dava a impresso de estar a milhares de 
quilmetros de distncia, fora do mundo.

Eu no entendia o que se passava. Como poderia? Era como se houvesse uma parede invisvel entre ns.

- Convidaram-me para fazer um show beneficente no Candlestick Park, e aceitei - expliquei. - Preciso voltar a cantar, Will. Estou afastada h muito tempo.

Ele desligou a televiso e virou-se para me encarar. Estivera assistindo a um jogo, usando, como sempre, camiseta e short, o que me fazia pensar que ele imaginava 
estar no banco de reservas, esperando ser chamado para jogar a qualquer momento. Continuava em tima forma fsica, como se ainda jogasse.

- No vai perguntar se quero ir junto, Maggie?

- Acho melhor ir sozinha. Barry tambm ir e...

- Aquele asno.

- E vamos lanar o disco o mais cedo possvel, depois que eu fizer o show - conclu.

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No tinha a menor inteno de me estender em explicaes sobre meus planos, nem de dizer o que realmente desejava, que era: "Pelo menos eu aviso, quando viajo".

- Ento, decidiu ir  Califrnia e me diz isso assim, como se no fosse nada demais.

O rosto dele estava ficando vermelho, os olhos arregalados tinham uma expresso de loucura. Qualquer dia desses ele vai explodir, pensei.

- O que voc pensa que eu sou? - ele perguntou em tom furioso. - Um miservel empregado domstico?  isso, Maggie?

- No sei de onde tirou essa idia. O que est acontecendo com voc? Pode, por favor, me explicar?

- Sou eu que digo aonde voc vai e aonde no vai! Entendeu?

De repente, foi como se eu ouvisse Phillip falando. O tom de voz era quase o mesmo. Mas consegui permanecer calma, pelo menos aparentemente.

- No, no  - repliquei. - Voc pode tomar decises a respeito da sua vida, no da minha.

Will levantou-se da poltrona e veio na minha direo. No me movi. Ele parou bem perto e ficou me olhando com raiva e suspeita.

No gostei do olhar, da ameaadora linguagem corporal. Nunca o vira daquele jeito. Fiquei com medo.

Ele ergueu amo para mim. Com um rugido, deu-me um tapa em um lado do rosto. Com as costas da mo, bateu na outra face, com tanta fora que cambaleei para trs. 
Foi como se duas exploses abalassem meu crebro.

Eu no podia acreditar naquilo! Will nunca me batera, nunca sequer erguera a mo contra mim, nunca me ameaara.

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- Voc no vai para San Francisco! - Ele berrou - No vai me abandonar, sua vagabunda!

Ergueu o brao para me agredir novamente, mas no desferiu o golpe. Deixou o brao pender ao longo do corpo, como se houvesse se arrependido, ou recobrado a razo, 
quase se tornando outra pessoa.

- Tudo bem - disse. - V para San Francisco, Maggie. No me importo com o que voc faa ou deixe de fazer.

Comecei a tremer dos ps  cabea. Mas no me permitiria chorar. O tremor aumentou, sacudindo-me toda. Meus braos e pernas estavam inteis, sem fora.

- vou levar Allie e Jennie - informei, mal podendo pronunciar as palavras e sem conseguir encar-lo. - No poder nos impedir de ir, por isso, nem tente.

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Agresses.

Ele me batia.

Esta no pode ser eu.

A letra de minha prpria cano soava em minha mente, enquanto eu olhava pela janela oval do jato. Meus olhos subiam pela encosta de uma montanha de nuvens brancas 
como a neve. Junto de mim, Allie dormia, a cabea loira apoiada em meu colo. Em sua poltrona, no outro lado do corredor, Jenme ouvia alguma coisa pelos fones de 
ouvido.

Os dois no sabiam de meus problemas com Will e estavam muito contentes por viajar comigo. Principalmente Allie, que sempre queria estar perto de mim. ramos to 
apegados, ns trs, que havamos criado uma

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sigla: JAM. Jennie, Allie e Maggie. Nunca a modificamos para incluir a inicial do nome de Will.

Quando desembarcamos, notei os olhares e os cumprimentos de pessoas completamente estranhas. Algumas aproximaram-se para pedir autgrafos, quase nos atropelando 
em sua nsia, e vrias me tocaram, como se esse contato tivesse o poder de transform-las em celebridades.

Celebridade!

Elas no sabiam o que realmente significa ser famoso, estar sempre na mira de curiosos!

Havia um fax de Will esperando por mim no Hotel] Four Seasons:

BOA SORTE, MEU PSSARO MELODIOSO. PERDOE AS TRANSGRESSES DE SEU WILL. POR FAVOR, ME PERDOE. VOLTE DEPRESSA COM AS CRIANAS. EU TE AMO. SEMPRE AMEI, SEMPRE vou AMAR.

Amassei o papel. Sempre, Will? De fato.

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Barry, Jennie, Allie e eu vovamos em um grande helicptero Bell, vermelho e prateado. Abaixo de ns, brilhavam as luzes do Candlestick Park e estendiam-se as guas 
escuras da baa.

Eu usava meu traje habitual, blusa solta, em estilo camponesa, saia comprida, sapatos sem salto, para no ficar nem um centmetro mais alta do que j era.

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Estava pronta para a apresentao? No sabia, mas tinha de tentar. Queria tentar.

Em menos de uma hora, eu estaria fazendo um show realmente importante, o primeiro depois de quase trs anos de afastamento. As redes de televiso haviam mandado 
suas equipes, pois aquilo era notcia, certo? Notcia importante.

Naquela noite seria gravado um disco ao vivo. Mais de quinhentas mil pessoas haviam procurado ingressos, mas o lugar oferecia menos de oitenta mil lugares.

Porm, no momento, continuvamos no helicptero, fechados, uma famlia em sua privacidade: eu, meus filhos, meu melhor amigo. Era melhor do que estar l embaixo, 
pensei.

- Por favor, no vamos aterrissar - pedi.

Barry ergueu uma sobrancelha, espantado, ento fez uma careta. Ps a mo em concha sobre a boca, como se estivesse falando em um microfone.

- Derrubem Maggie Bradford! - ordenou. - Derrubem Peter Pan!

- Estou falando srio. No podemos ficar aqui at amanh? Estou ficando um pouco tonta.

- E o combustvel? - Jennie argumentou.

- Podemos pedir que reabasteam o helicptero no ar. Como fazem com os bombardeiros. No vai ser legal?

- Vamos ficar com fome - observou Allie, sempre pensando em comida.

- Quando trouxerem o combustvel, podero trazer sanduches tambm. No h problema.

Jennie riu. Ela gostava quando eu comeava a dizer bobagens.

- Estou com fome agora - Allie, o membro mais prtico da JAM, informou. <;

201

- J vamos pousar - Barry disse a ele. - No ligue para o que sua me diz. L no parque, podemos comprar salsichas, daquelas boas, de pura carne. Hummmm... que gostoso!

De repente, fui envolvida por uma onda de tristeza e medo.

- No sei se vou conseguir - disse. - Verdade, Barry. No estou brincando.

Ele pegou minha mo.

- Medo da platia. V l com esse medo. Use-o a seu favor.

- E mais do que isso. Estou me sentindo to bem aqui, to segura! L embaixo  perigoso. Primeiro os fs, depois...

- Depois Will - ele completou.

Eu no contara a Barry que brigara com Will e que ele me batera, mas o meu amigo me conhecia bem, adivinhara que havia algo errado.

-  a vida - murmurei.

Ok, eu vendera quase vinte milhes de discos e ganhara onze prmios Grammy.

Mas ainda podia ter medo, no podia?

Meu estilo de cantar era de confisso, de pessoa para pessoa, certo? Ento, eu podia me confessar agora. S precisava aparecer diante de toda aquela gente e ser 
eu mesma. Ser, antes de tudo, eu mesma.

O problema era que eu estava comeando a me sentir a antiga Maggie. A que existira em West Point. A garota que rompia em lgrimas porque no conseguia parar de gaguejar, 
quando tinha de responder a alguma pergunta na escola.

Sabia exatamente o que a platia esperava: que eu fosse

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contundente, mas tambm sincera. Que minhas canes fossem sucintas e cativantes, influenciadas por todos os gneros: rock, Broadway, clssico, artstico francs. 
Isso, na superfcie. Por baixo, precisavam ser complexas e psicologicamente verdadeiras.

Eu sabia disso tudo, quando entrei no imenso palco, em San Francisco, quando olhei para todos aqueles rostos expectantes.

Ento, por que estava com tanto medo de no conseguir cantar? No, no era medo, mas um pavor que ameaava me deixar paralisada.

Sentei-me ao piano e,  brisa fria que vinha da baa, comecei a cantar.

Quase consegui terminar a primeira cano.

Ento, desabei.

Com toda aquela gente me observando. Com meus filhos me olhando dos bastidores.

Agresses.

Ele me batia.

Esta no pode ser eu.

Comecei a gaguejar. Gaguejar! Algo que no fazia havia muitos anos, que lutara tanto para superar.

No pude mais cantar.

Por fim, virei-me para falar com a multido.

- No estou me sentindo bem. Desculpem. Comecei a ter taquicardia e a ficar tonta. Achei que

iria cair do banco do piano.

Ento, Jennie, Barry, Allie e dois msicos correram para mim. Ajudaram-me a deixar o palco. Eu mal podia andar.

- Coitadinha da mame - Allie no parava de repetir. - Coitadinha, est doente.

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Will sempre fora uma criatura noturna. E agora, mais do que nunca, precisava sair  noite e ficar vagueando.

O lobisomem de Bedford.

Ele forou o BMW preto ao mximo, durante aproximadamente quinhentos metros, correndo pela Greenbriar. Sara da alameda de trs pistas de sua casa, seguindo para 
a entrada seguinte, a do Lake Club, marcada por dois pilares de pedra de trs metros de altura. Um pouco  frente, um muro baixo, feito da mesma pedra, cercava toda 
a propriedade.

Will passou entre os pilares e estacionou em uma vaga perto de um porto no muro. Desceu e abriu o porto. Percorreu uma trilha que levava aos fundos do clube, at 
uma porta de servio praticamente invisvel para quem no a estivesse procurando.

Dentro do prdio, o silncio era quase tangvel, e a atmosfera sugeria dignidade e privilgio. Will pensou no silncio das catedrais e dos bancos europeus. Passou 
por mesas de bilhar, pelo escuro salo de fumar, ento parou diante de uma porta e bateu. Esperou um pouco, tornou a bater.

Abriram. Will piscou, ofuscado, quando a luz lhe agrediu os olhos. Ento, viu os painis de mogno, o longo balco de carvalho do bar, os abajures Tiffany, os quadros 
renascentistas pendurados nas paredes.

Os homens agrupados no bar observaram-no entrar. Ento, quando viram que era Will, cumprimentaram-no.

Peter O'Malley encontrava-se entre eles. Fizera amizade com Will, ali no Lake. E por que, no? Afinal, os dois tinham algo em comum: Maggie. Ela os aproximara.

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E tornara-se freqente assunto de conversa entre eles. Peter sonhava em derrub-la.

Naquela noite, ambos participariam de uma reunio muito especial.

Uma vez por ms, s vezes duas, depois que o clube fechava, vrios scios iam ali para entregar-se a um tipo diferente de diverso. Reunir-se para uma atividade 
socialmente inaceitvel e, com toda a certeza, politicamente incorreta. Era o jeito que os todo-poderosos tinham de soltar a presso acumulada. Eles no podiam conseguir 
aquilo em casa com "as esposas".

O salo estava iluminado pela luz dourada e vermelha do fogo na grande lareira de pedra. Will chamava-o de "fogo do inferno", dizendo que era o que a maioria deles 
devia esperar, quando morresse.

Em p, diante da lareira, seis moas enfileiravam-se de forma mais ou menos ordenada. Jovens e lindas. A pele nua e os longos cabelos brilhavam  claridade das chamas.

A mais velha aparentava vinte anos no mximo, e a mais jovem, dezesseis. Todas tinham os olhos vendados por mscaras pretas, dessas que as pessoas usam para dormir, 
porque no podiam, de modo algum, ver os scios, nem conhecer a localizao do clube.

O exclusivo Lake Club de Bedford, pensou Will. Pura fachada, como tudo o mais.

Mais tarde, quando chegou a hora, ele escolheu uma das moas. Alta, loira, lembrava Jennie.

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Acho que, no fundo do corao, eu j sabia que meu casamento com Will terminara. E que o rompimento

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definitivo era apenas uma questo de tempo. O que seria muito bom, primeiro para as crianas, depois para mim e, finalmente, para Will. Eu no queria mago-lo. Apenas 
deix-lo.

Ele estava em casa para nos receber, quando chegamos. E parecia ter voltado a ser o Will que eu conhecera. Ficou radiante com nossa volta, louco de alegria. Mostrou-se 
sinceramente preocupado com o que acontecera comigo em San Francisco, e expliquei que tivera um pequeno colapso nervoso. Ele afirmou que conhecia muito bem o pavor 
de enfrentar uma platia. Acreditei.

Prometeu que no haveria mais ataques de raiva, brigas, nem desaparecimentos. O medo de ser abandonado levara-o ao desespero. Will entrara novamente em contato com 
os seus sentimentos.

Ouvi tudo o que ele tinha para dizer. Mas ouvi apenas as palavras. J tomara minha deciso. Will me mostrara, embora rapidamente, uma faceta de sua personalidade 
com a qual eu no saberia lidar, nem conviver.

Uma calma inquieta caiu sobre a casa de Bedford.

s vezes, tambm com Phillip as coisas ficavam calmas.

Eu colocara tudo em ordem, o melhor que pudera, aconselhando-me com Nathan Bailford e cuidando dos aspectos legais da separao. S precisava de mais um dia ou dois, 
antes de conversar com Will.

Ao mesmo tempo em que fizera tudo aquilo, comeara a ir a um bom psiquiatra, na vizinha Tarrytown. Fiquei, como os jornais diriam mais tarde, "sob cuidados mdicos", 
seja l o que isso signifique.

Ento, algo inesperado aconteceu. Recebi um telefo

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nema da escola de Jennie. Pediam que eu fosse l imediatamente, porque se tratava de assunto importante.

O departamento administrativo da Bedford Hills Academy funcionava em um prdio pequeno, em estilo vitoriano, que mais parecia uma hospedaria campestre. Quando entrei, 
apressada, alunos e funcionrios me reconheceram, mas tentaram no ficar me olhando. Acenei para as crianas que conhecia e at para algumas que nunca vira.

Subi a escada correndo, parando em um dos banheiros s o tempo suficiente para pentear os cabelos, passar batom e fazer uma pausa, para ter certeza de que estava 
com aparncia normal.

Iria falar com o dr. Henry Follett, diretor da escola, e no queria parecer diferente das outras mes de alunos. Por alguma razo, meu nervosismo era grande, embora 
eu no acreditasse que algo de grave pudesse estar acontecendo com Jennie.

O gabinete do dr. Follett era pequeno, mas agradvel, com uma grande janela com vista para o campus. Por todos os lados havia flmulas da escola, bandeiras, trofus 
de campeonatos, fotos de Follett com alunos ou autoridades locais.

Ele era um homem amvel, de seus cinqenta anos, compacto e elegante. Imaginei que tivesse senso de humor, embora naquele momento seu sorriso fosse apenas educado. 
Mas ele tinha um aperto de mo firme, e seus olhos eram gentis.

Eu no sabia por que fora chamada. Estava ocupada, cuidando de meu problema com Will, quando recebera o telefonema, e largara tudo para ir  escola. A tenso, de 
to forte, deixara minhas costas, estmago e pescoo endurecidos.

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-  sobre Jennie - ele preludiou, assim que me sentei diante de sua grande e atravancada escrivaninha.

- Imaginei isso. Ela se envolveu em algum tipo de encrenca? - perguntei, tentando no demonstrar como me sentia por dentro.

Tinha de ser forte por Jennie. E iria ser.

- No tenho certeza. Percebeu alguma coisa diferente em sua filha?

Eu no notara nada de muito estranho no comportamento de Jennie, embora ela estivesse na adolescncia, uma idade difcil.

- Ela parece estar bem - respondi. - Um pouco rebelde, s vezes, polemista, e imita Butthead e Beavis pela casa, para me irritar.

- Age de modo normal, ento? No ficou doente ou deprimida, ultimamente? No se mostrou infeliz?

Abanei a cabea, confusa e preocupada. Aonde ele queria chegar? Eu via Jennie todos os dias, embora ela tivesse sua vida, seus amigos. Em minha opinio, a melhor 
coisa que uma me podia fazer pela filha adolescente era darlhe um espao razovel, onde ela pudesse crescer. Espao

e amor.

- No, ela no ficou doente. O que est acontecendo, dr. Follett? Por favor, diga por que me chamou aqui.

Ele tamborilou os dedos no tampo da mesa.

- Neste semestre, ela faltou  escola dezessete dias. A notcia teve o efeito de uma bomba. De repente,

fiquei toda gelada.

- Faltou? Dezessete dias? - repeti.

- Exatamente. No apareceu.

- Meu Deus! Eu no sabia! Acredito no que est me dizendo, mas isso no  prprio de Jennie.

- Realmente, no  - ele concordou. Pegou alguns

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papis, que me entregou. Boletins e diversos bilhetes de justificao de faltas. - A assinatura  sua?

Examinei os boletins e os bilhetes, segurando-os com mos trmulas.

-  meu nome, mas no a minha assinatura. Outra bomba.

- A caligrafia  de Jennie?

- No posso afirmar. Pode ser.

Minha cabea girava. Aquilo fora algo totalmente inesperado. Jennie nunca me dera motivo algum de preocupao.

- Achamos que ela tentou falsificar sua assinatura - o dr. Follett disse, tirando-me de minhas reflexes.

- Jennie no faria uma coisa dessas. Mas era bvio que fizera.

- Tem certeza? Quem foi, ento?

Meu crebro parecia rodar vertiginosamente.

- No tenho a mnima idia - murmurei.

De sbito, fiquei com raiva de Jennie. Ns duas sempre havamos confiado uma na outra. Eu sempre achara tempo para ela, por mais ocupada que estivesse.

- O sr. Shepherd, talvez? - o diretor sugeriu.

- No. Como  padrasto de Jennie, poderia simplesmente assinar. No precisaria falsificar minha assinatura. Alm disso, esta no  a letra dele.

- Olhe o ltimo boletim. A senhora viu as notas? Olhei e fiquei com vontade de chorar. Muitos "sete" e

"seis", e Jennie sempre tirara dez em todas as matrias. Ser que, por ela ser to boa estudante, eu deixara de prestar ateno em suas notas?

- Sra. Bradford, Jennie  uma das melhores alunas da Bedford Hills Academy. Ento, de repente, comea a faltar e a ter notas baixas. Baixas para ela, pelo menos.

209

Isso, s vezes, acontece no ltimo ano do colegial, quando o jovem j foi aceito por uma universidade e acha que merece um descanso. Mas Jennie est no segundo, 
justamente quando suas notas deveriam ser as melhores possveis.

- Eu sei, e Jennie tambm sabe - afirmei.

No imaginava o que podia ter acontecido. Fora apanhada totalmente desprevenida. Achava que Jennie no sabia da situao entre mim e Will, mas talvez soubesse. As 
crianas tm muita intuio para certas coisas.

O dr. Follett levantou-se e me estendeu a mo.

- Todos ns, aqui da escola, amamos Jennie. Se descobrir alguma coisa, sra. Bradford, me telefone, por favor. No  a primeira vez que isso acontece com um aluno, 
e ns sabemos consertar as coisas.

Apertei-lhe a mo e sa. Iria procurar Jennie, porque ela faltara s aulas naquele dia tambm.

No estacionamento da escola, entrei no carro e fiquei imvel, esperando que meu corpo parasse de tremer.

Meu mundo, mais uma vez, parecia estar desmoronando.

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Jennie chegou em casa s trs e meia, carregando a mochila cheia de livros, com ar inocente. Convidei-a para sair de carro comigo.

Fomos  reserva Pound Ridge, onde a natureza era preservada, bem no centro de Westchester. Por volta das quatro, estvamos subindo em direo a uma antiga torre 
de vigia contra incndios, no alto de uma colina. Do topo, podia-se ver o brao de mar de Long Island e at mesmo o distante perfil de Nova York, ao sul.

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Jennie, naturalmente, quis saber por que estvamos fazendo aquilo. Pedi-lhe para esperar.

Tudo a seu tempo, minha queridinha, pensei.

Andvamos em silncio, pois eu no sabia por onde comear. Estvamos ofegantes, quando alcanamos o topo, e eu me sentia otimista e toda maternal, mas tambm zangada 
e magoada. Como as canes que escrevia. Canes verdadeiras, tiradas da vida, certo?

- Fui falar com o diretor Follett - comecei por fim. Pronto, fora dada a partida.

Jennie estivera olhando para mim, mas quando ouviu essas palavras, virou o rosto, permanecendo calada.

- Ele disse que as suas notas esto baixando - prossegui. - E que voc tem faltado  escola.

- Odeio ir  escola - ela declarou em tom irritado e desafiador. -  muito chato.

Estava muito diferente, mostrando seu lado pior, algo que eu raramente via.

- Voc no pensava assim - observei.

- Mas agora penso. No ensinam nada que valha a pena aprender. Os professores de l no so muito inteligentes.

- Ento, parou de freqentar as aulas - comentei. - Muito interessante, Jennie. Uma revelao e tanto. Posso saber o que faz, quando falta  escola?

- Nada. Mas "nada"  melhor do que aquelas aulas.

- Aonde vai? Em casa  que voc no fica.

- Como pode saber? Fica trancada naquele seu escritrio quase o dia todo!

Ela estava sendo completamente injusta, mas eu mantive a calma.

- Eu saberia, se voc estivesse em casa - ponderei. - Eu te amo, Jennie. Se estiver com algum problema, pode...
- Ningum se importa com ningum - ela me interrompeu. - No finja que se importa comigo. E no me venha com condescendncia.

Mesmo sem toc-la, eu podia captar a tenso que a dominava. E percebia o enorme esforo que fazia para falar. Quando aquilo tudo comeara a acontecer? Como? Por 
qu?

- Eu te amo - repeti com voz no muito firme. - Voc  a coisa mais preciosa da minha vida. Sempre foi.

Ela, ento, perdeu a compostura.

- No diga isso! - gritou. - No diga que me ama, mame! Eu no mereo!

Eu mal podia falar, tentando no chorar, reprimindo os soluos que me comprimiam o peito.

- Por qu? Amo voc de verdade, Jennie. Por que no devo dizer?

- Voc no pode me amar! Nem me conhece! Precisou de uma coisa dessas para prestar ateno em mim. Notas baixas! Quem se importa?

Por fim, curvei a cabea e comecei a chorar. Julgara poder lidar com qualquer situao que surgisse entre ns, mas no estava preparada para aquilo.

De repente, Jennie jogou-se em cima de mim, me abraando e escondendo o rosto em meu pescoo. Senti suas lgrimas quentes, seu corpo trmulo.

- No posso dizer o que est acontecendo - soluou. - Acho que no sei. Tenho quinze anos, e tudo parece um pouco maluco. Alguma novidade nisso? - Sufocou uma risada. 
- Meu Deus, mame, seu corpo todo est tremendo!

Sentamo-nos no cho e ficamos abraadas por muito, muito tempo. Uma brisa fria comeou a soprar, e coloquei meu suter nos ombros de Jennie.

212

Meu beb, pensei. Minha amiga de tantos anos! Minha doce filhinha.

No entanto, eu no sabia como confort-la, como tornar as coisas mais leves para ns duas. Estava me culpando, naturalmente. Tentara desesperadamente ser uma superme, 
mas no fora o bastante.

Nunca .

82

Fazia um calor extemporneo na manh seguinte, e passei uma hora abenoada, trabalhando no jardim atrs da piscina. Momentos de solido, o sol em minhas costas, 
trabalho fsico. Tudo exatamente como o mdico recomendara. Comecei a melhorar e tentei ordenar os pensamentos em uma linha reta. A situao com Will piorava cada 
vez mais. Jennie apresentara problemas na escola. Eu tivera uma pssima experincia em San Francisco. Era muita coisa ao mesmo tempo, e eu achava que no estava 
me saindo muito bem.

De repente, houve uma exploso no bosque logo abaixo da minha propriedade.

Parei de cavar, de pensar, de respirar, totalmente atenta ao que se passava em volta. E apavorada.

Uma segunda exploso veio de trs da espessa cercaviva que limitava meu terreno, mas eu no conseguia ver nada.

Tiros de revlver? Oh, meu Deus!

Levantei-me rapidamente e corri a toda velocidade em direo ao grupo de rvores, com um grito entalado na garganta.

Oh, Deus amado, o que aconteceu? <

Entrei no bosque, indo para o ponto de onde os tiros

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haviam partido. Meu corao martelava loucamente, e  uma dor aguda correu por meu peito.

Era o instinto que me impulsionava. Eu nem pensara em gritar por ajuda. De qualquer modo, a quem chamaria?

Tiros? Perto da nossa casa? Por qu?

Pedras e ervas espinhentas feriam meus tornozelos, enquanto eu continuava a correr. No houve mais tiros. Apenas um silncio desolado e assustador. Por fim, cheguei 
a uma clareira.

Parei quando vi Will segurando uma espingarda.

Ele se virou e me olhou como se minha presena ali fosse algo absurdo.

- O que est fazendo? - consegui perguntar.

- Praticando tiro ao alvo - ele respondeu, fazendo um gesto para indicar algumas latas de cerveja e refrigerante enfileiradas em cima de uma tora. - Quer tentar, 
Maggie?

Endereou-me seu melhor sorriso de North Downing, o personagem de Prirnrose.

- Estou ficando muito bom nisso. Habilidade nata, parece. Grande pontaria.

Phillip tambm tinha armas, e eu usara uma delas para mat-lo. Lembrei-me do sangue escuro que lhe escorrera da boca, de sua expresso horrorizada, tornei a ouvir 
seu grunhido de surpresa, quando a bala fatal cravou-se em seu corpo.

- Jogue essa espingarda fora! - gritei. - No quero armas na minha casa, nem mesmo perto. Livre-se disso!

Will olhou-me friamente, mas depois sorriu.

- Nossa casa - corrigiu. - Mas voc  quem manda, Maggie. Se a espingarda a deixa perturbada, me desfarei dela. No confia em voc mesma no que diz respeito a armas, 
no ? Eu compreendo.

214

83

Aquele seria o dia. O dia que eu no poderia ter adivinhado que aconteceria, que nunca esperara.

Depois de uma noite de insnia, sa de casa ao alvorecer, usando um roupo atoalhado e minhas alpargatas mais velhas. Meus longos cabelos estavam embaraados, cheios 
de ns. Rezei para que ningum me visse daquele jeito, que no houvesse nenhum reprter espiando pelas frestas da cerca.

Imaginei que o ar fresco poderia me fazer bem, dar-me uma nova energia, e fui at o muro de pedra, baixo e meio escalavrado, que separava minha propriedade do terreno 
do Lake Club. As alpargatas esmagavam com fora desafiadora as folhas cadas e plantas rasteiras. Gaios-azuis e tordos faziam algazarra, voando entre as copas das 
rvores altas.

- Calem o bico! - ralhei.

Nesse momento, fiquei atnita ao ouvir outra voz humana.

- Quem est a? - gritei. - Ol! Quem ?

J. C. Frazier, o jardineiro-chefe do Lake, apareceu saindo de uma campina que pertencia ao clube. Ele sempre andava pelo extenso terreno, de modo que de vez em quando 
nos topvamos. Eu sabia que estava se encontrando com a sra. Leigh, minha empregada, que o achava um bom homem. "Sim, e homens bons esto cada vez mais raros", eu 
ficava tentada a dizer a ela.

- Bom dia, sra. Bradford. Foi a senhora que encomendou um dia to lindo? - ele brincou.

Parecia no ter uma nica preocupao na vida. E por

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que teria? Seu trabalho era cuidar do extenso terreno do clube, e tudo estava na mais perfeita ordem.

- Pensei que fosse voc que estivesse controlando o tempo hoje, J. C. - respondi.

- No. S cuido do cho. Acredito que a senhora  encarregada de coisas mais altas. E que belo trabalho fez hoje! Cu azul at onde a vista pode alcanar.

Ali ficamos, conversando por cima do muro coberto de musgo. J. C. provavelmente sabia mais segredos sobre os moradores de Bedford do que qualquer outra pessoa, mas 
sua discrio era to responsvel por sua permanncia no emprego quanto sua eficincia como jardineiro. Assim, falamos de flores e do vero que se aproximava. Bate-papo 
inofensivo, que me fez esquecer meus problemas, pelo menos por alguns momentos.

Lembrei-me de algo que estivera querendo comentar com algum do clube. Algo que acabara por esquecer, talvez com medo de abordar o assunto.

- s vezes, tarde da noite, vejo luzes acesas no clube - comecei. - Uma, duas horas da madrugada.

J. C. pensou por um instante, ento abanou a cabea.

- Desculpe, sra. Bradford, mas isso no  possvel.

- Eu vejo! - insisti. - Tenho certeza.

- No, no pode ser, senhora. Acho que est enganada. O clube fecha s onze. Sempre. Essa  uma regra de ouro.

Pensei em continuar argumentando, mas desisti. Se J. C., mesmo sabendo de alguma coisa, no queria falar, no falaria.

Em um gesto corts de despedida, ele tocou no bon azul, onde estava escrito "New York Giants".

- Preciso voltar ao trabalho. Tenho muita coisa para fazer. Que seu dia seja muito agradvel, sra. Bradford.

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Observei-o caminhar para o prdio principal do clube.

Estranho, pensei. Como  possvel ele no saber das luzes acesas de madrugada? E por que mentiria para mim?

Por fim, voltei para casa, decidida a falar com Will sobre a separao. Isso tinha de ser feito, por mais doloroso que fosse para ns dois. E por que protelar? O 
dia era aquele.

Jennie e Allie estavam na cozinha, tostando po, os dois j vestidos. Jennie parecia disposta a ir  escola, o que me agradou.

- Will j levantou? - perguntei, tentando dar um tom normal  voz, como se nada de anormal estivesse acontecendo.

- Acabou de sair, mame - Jennie informou. - Disse que precisava ir  cidade tratar de negcios e que voltaria l pelas quatro horas.

Gemi, desconsolada. Will quase nunca saa de casa to cedo. A sorte no estava me ajudando. O dia era para ser aquele.

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Will no voltou s quatro horas, como prometera.

E ainda no chegara quando nos sentamos para jantar, s sete e meia. Nem s dez, quando subimos para dormir. Tambm no telefonou para avisar que chegaria tarde 
ou que no voltaria para casa.

Fiquei deitada, com as luzes apagadas, mas no consegui fechar os olhos. Estava me culpando, mesmo sabendo que no havia motivo para isso. Era verdade que Will fora 
incrivelmente romntico e sensvel no incio de nosso relacionamento, mas depois desligara-se de mim por completo.

217

Eu imaginava que ele podia estar tendo um caso com outra mulher, ou talvez mais de uma. Suponho que essa idia no deveria me incomodar, mas incomodava.

No sei a que horas adormeci.

- Merda! Que inferno!

Os improprios de Will me acordaram. Ele estava em casa. No quarto.

Vi-o parado perto da porta, examinando o dedo do p. Dera uma topada, andando no escuro.

Bem feito!

A luz do corredor entrava pela porta entreaberta, iluminando-lhe o corpo, mas seu rosto estava na sombra.

Ele se virou a fim de olhar para mim, e eu fingi que dormia. Prendi a respirao, tomada de ansiedade. Depois de alguns instantes, ele saiu do quarto na ponta dos 
ps, puxando a porta atrs de si desajeitadamente. A porta bateu com fora. O que significava aquilo? Mais uma de suas brincadeiras estpidas? Que fosse para o inferno!

Olhei para o mostrador luminoso do relgio na mesinha-de-cabeceira: 12:45.

Onde Will ficara at aquela hora? Talvez eu devesse me levantar e falar com ele, aproveitando o fato de as crianas estarem dormindo.

Sa da cama, andei at a janela e olhei para fora. Ento, vi Will. Aonde iria? O que pretendia fazer?

Vesti o roupo e sa do quarto. O corredor estava s escuras. Antes de descer, Will apagara a lmpada fraca que eu deixava acesa por causa de Allie.

Desci a escada correndo.

As luzes da sala de estar e do escritrio estavam apagadas. No ouvi nenhum barulho, no vi nenhum mo

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vimento. Mas senti que havia alguma coisa errada. Por que Will apagara todas as luzes?

S escurido e silncio em todos os outros cmodos do andar de baixo. E a sra. Leigh no se encontrava em seu quarto! Ento, lembrei que era sua noite de folga.

Voltei para o p da escada e olhei para cima. Nada. Aparentemente, Will no voltara para dentro de casa.

Comecei a subir os degraus. Estava na metade da escada, quando vi algo encostado na parede. Meu corao quase parou, minhas pernas amoleceram.

A espingarda! Will a deixara no meio da escada!

Comecei a ouvir um barulho estranho dentro da cabea, e minha mente tornou-se um caos. Nada daquilo fazia sentido para mim.

O que estava acontecendo? Will voltara para o andar de cima? O que planejava fazer com a espingarda? Onde escondera a arma, at aquele momento?

Comecei a correr escada acima. Cheguei ao ltimo degrau e parei. No fim do corredor, uma rstia de luz escapava por baixo de uma porta.

A porta do quarto de Jennie! Eu no vira a luz quando descera pouco antes.

De repente, fiquei aterrorizada com a idia de que Will pudesse estar l dentro.

Ele vai seqestrar as crianas!, pensei.

Corri de volta e peguei a espingarda. Tornei a subir. Pelo menos, quem estava com a arma, agora, era eu, no Will.

Ele estar planejando matar todos ns?, conjeturei. Pessoas com a mente perturbada fazem coisas assim. No seria o primeiro caso.

Tive uma viso do passado. Phillip!

A espingarda devia estar armada, pronta para disparar.

219 Eu no tinha certeza, porque no entendia muito de armas. Na verdade, no entendia quase nada. Corri pelo corredor e abri a porta de Jennie com violncia. Fiquei 
fora de mim com o que vi.

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Hoje  o dia! Oh, Jesus Cristo,

No atire nele, Maggie! No faa isso! No!, uma voz gritava em minha cabea, ensurdecedora.

Jennie, em seu pijama branco, curtinho, estava na cama, as longas pernas completamente expostas. De olhos fechados, respirava normalmente. Havia um copo de leite 
pela metade em cima da mesinha-de-cabeceira.

Captei todos os detalhes, embora ainda no compreendendo a situao.

Horrvel. Horrvel demais.

Will, parado aos ps da cama, usava cala caqui e camisa esporte. Como ele se vestira para ir  reunio de negcios em Nova York? No podia ter ido com aquelas roupas.

O que estava fazendo no quarto de Jennie?

- Maggie! - ele me chamou em tom calmo, assumindo sua personalidade de ator. - Pensei que estivesse dormindo. Estava fingindo?

Meu corao batia com tanta fora e to depressa, que eu no conseguia respirar direito.

- O que veio fazer no quarto de Jennie? - perguntei, arquejando. - O que est acontecendo aqui?

Jennie, de repente, sentou-se na cama, esfregando os olhos, assustada.

- Mame? Will? O que foi? Aconteceu alguma coisa? E essa arma? Mame!

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Will sorriu, observando a cena. Sua expresso era a mais maldosa e assustadora que eu j vira. Ele se transformara em uma pessoa que eu no conhecia.

O que estava fazendo no quarto de Jennie? Eu sabia o qu.

- Jennie e eu amos nos divertir um pouco - ele disse. - Quer juntar-se a ns? Num mnage  trois?

Mnage  trois? Fiquei to horrorizada e atnita, que perdi a capacidade de falar. Paralisada, sentia a pulsao disparada, a mente implodindo.

Will e Jennie? Oh, Deus! No!

Ergui a arma, apontando-a para ele, sem me importar com as conseqncias.

Mas no pude puxar o gatilho. No pude. No pude!

- Saia desta casa e no volte nunca mais - ordenei em tom firme.

Will passou por mim e saiu do quarto correndo. Pelo som de seus passos na escada, deduzi que descia os degraus de dois em dois. Ria estrondosamente, como um personagem 
de filme de terror.

Fui atrs dele levando a arma, que atrapalhava meus movimentos. No pretendia atirar. S queria ter certeza de que Will iria embora. Que desapareceria de nossas 
vidas. Para sempre.

Ele saiu pela porta da frente, e eu o persegui. No comeo enxerguei mal, distinguindo apenas o contorno escuro das rvores, mas ouvia os passos de Will, percebendo 
que ele se dirigia para os fundos da casa.

Corri, tombei para a frente e bati um joelho no cho. Aparei a queda com uma das mos.

No estava mais ouvindo os passos de Will!

Levantei-me e fiquei ouvindo, alerta como nunca estivera, tentando captar o menor som. Totalmente

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apavorada. Talvez estivesse entrando em estado de choque, porque sentia o corpo todo gelado. No podia esquecer que vira Will no quarto de Jennie. No podia esquecer 
a expresso que vira nos olhos de minha filha.

Tudo permaneceu em silncio. Eu no ouvia mais os movimentos de Will. Onde ele estaria? Fazendo o qu?

A lua desapareceu atrs de uma cortina de nuvens, aumentando a escurido.

Refleti que no devia ficar l fora, que precisava voltar para dentro de casa. Will podia ter me enganado e voltado para o quarto de Jennie.

Eu no sabia o que fazer. Permaneci imvel, indecisa, olhando em volta, tentando ver alguma coisa nas trevas que me cercavam.

Lembrei-me de quando me escondera sob o alpendre da casa de West Point. Meu pesadelo fechara-se em um crculo completo.

Silncio.

Escurido.

Frio.

Eu estava tremendo incontrolavelmente.

- Sua puta mentirosa e intrometida! Voc me enganou!

Com um rugido, Will atacou-me por trs. As mos fortes tentavam agarrar meu pescoo. Reagi, livrando-me. Ele me bateu no rosto com tanta fora, que ca de joelhos. 
Tentei me levantar. No consegui.

Will ergueu a perna e girou-a. Atingiu-me no lado do peito com um pontap vigoroso, e senti minhas costelas partirem-se. A dor foi aguda e intensa, e no posso descrever 
o terror que experimentei.

Tombei no cho duro e frio.

A espingarda disparou, e o barulho foi mais alto que meus gritos, mais alto do que o estrondo de um trovo.

222

Rolei, ficando de bruos, ento tudo desapareceu, quando perdi a conscincia sobre as folhas frias e midas.

86

Eu no sei.

Eu no sei!

Honestamente, no sei o que aconteceu naquela noite sinistra de dezessete de dezembro. Atirei em Will? Atrao para fora de casa e matei-o? Dizem que foi o que fiz. 
Sou culpada de homicdio? De dois assassinatos? E, se matei duas vezes, por que no mataria trs?

As pessoas esto certas quando me chamam de assassina? De viva-negra de Bedford?

Talvez eu tenha enlouquecido. Tudo leva a crer que sim. Mas isso me parece to pavoroso, to injusto!

A vida, porm, nem sempre  justa.

Acordei em minha cama, com o rosto enterrado no travesseiro, uma dor torturante perfurando meu lado esquerdo. Tinha a sensao de que haviam me batido com uma p 
de ferro. Tudo, dentro de minha cabea, parecia estar se estilhaando ruidosamente.

No podia fugir das imagens de violncia e horror que me assaltavam.

Quem disparara a espingarda?

Jennie!, pensei de repente. Preciso ir  procura de Jennie. E de llie.

Ouvia um rumor de vozes, que em princpio julguei estar em minha cabea. Mas, ento, percebi que vinha de fora.

Por que havia gente falando alto no jardim de minha casa? O que, em nome de Deus, estava acontecendo?

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Minhas plpebras pesavam de um modo que no era natural. E os olhos doam, como que cortados por uma navalha. Minhas costelas estavam sendo dilaceradas por outro 
tipo de dor, pontadas agudas e contnuas.

Forcei-me a abrir os olhos, ento fechei-os depressa. A luz era brilhante demais. Quem acendera a luz?

Ouvi passos na escada. Will!

Tentei me sentar, mas no pude.

Um lampejo amarelo e flamejante cruzou meus olhos fechados como um relmpago, como um ousado grfico da MTV.

Abri os olhos novamente.

Vi, mas de modo confuso, um negro forte, de terno escuro, camisa branca e gravata. Ele estava de p ao lado da cama, olhando para mim. Parecia ter dois metros e 
dez de altura. Os culos de armao de osso eram pequenos demais para seu rosto enorme.

Ele me encarava com uma expresso estranha. O que fazia no meu quarto? Ou eu estava em um hospital? De fato, o quarto parecia mais o de um hospital do que o meu.

-  Maggie Bradford? - ele perguntou.

Tentei mover a cabea numa afirmativa, tentei entender o que estava acontecendo, tentei descobrir onde me encontrava. Talvez tudo no passasse de uma lembrana qualquer.

- Encontramos a senhora l fora e a trouxemos para c - o homem explicou, passando uma espcie de distintivo diante dos meus olhos.

Uma insgnia dourada e azul.

- Sou Emmett Harmon, chefe de polcia de Bedford - ele se apresentou.

A voz solene ribombou dentro de minha cabea. Chefe de polcia de Bedford?

224

Oh, meu Deus! O que aconteceu? Onde esto Jennie e Allie?

- O que est fazendo aqui? - murmurei, sentindo a garganta seca e dolorida. - Por favor, onde esto meus filhos?

- Maggie Bradford, a senhora est presa pelo assassinato de seu marido, Will Shepherd. A senhora tem o direito de ficar em silncio.

225

LIVRO CINCO

TENTATIVA & ERRO

Norma Breen?

- Eu mesma. Com quem estou falando?

- Meu nome  Barry Kahn. !

- No diga! Nossa! O cantor Barry Kahn?

- O prprio.  "

- Acho o senhor o mximo! Adoro as suas msicas! Posso ajud-lo em alguma coisa?

- Precisamos da sua ajuda, sim.- "Precisamos?" ''

- Nathan Bailford e eu.

- Nathan? Faz tempo que no o vejo. Como ele est?

- De trabalho at as orelhas, defendendo Maggie Bradford.

- , eu soube que ele pegou a causa. Tarefa dura.

- Gostaramos de contrat-la para a nossa equipe. Na-than diz que  a melhor detetive que ele conhece.

- Sou boa, de fato. Mas que diferena isso pode fazer? O caso no  daqueles de abrir, tornar a fechar, pronto, acabou? Pelo menos,  o que tenho ouvido.

- No pensamos assim. E Nathan acha que pode ser tudo, menos um caso de "abrir e tornar a fechar".

227

- Ouvindo-o, quase acredito. A mdia divulgou que ela acabou com o filho da puta, estourando-lhe os miolos.

- No  to simples assim, acredite. Como ? Est interessada em descobrir o que realmente aconteceu?

- Ele estava comendo outra mulher?

- Provavelmente. Nunca saberemos ao certo. Mas Maggie no o mataria por causa disso.

- Ele batia nela?

- Pelo que sei, bateu uma vez. No, desculpe. Duas vezes. Ela tambm no o mataria por isso. Maggie  uma boa pessoa. Como mostra nas suas canes.

- Ento, por que ela mataria o marido?

-  para descobrir essa resposta que queremos contrat-la. No temos certeza absoluta de que ela o matou.

- Precisam de algo para defend-la, ou querem os fatos?

- Precisamos de algo para defend-la.

- Ah, obrigada pela sinceridade. Gosto de ver isso num cantor famoso.

- Mas temos certeza de que os fatos providenciaro a defesa. Maggie no  uma assassina.

- S de maridos, parece. Ela no matou o primeiro?

- Nunca ficou provado. Maggie no foi julgada. No incio, foi acusada de assassinato em segundo grau, mas a acusao foi retirada.

- E o amante? Patrick O'Malley?

- Morreu de infarto.

- Pensei que ela tivesse confessado que o matou.

- A polcia alega que o que eles conseguiram eqivale a uma confisso. Mas Maggie estava totalmente desorientada quando a prenderam. Pode entender isso, no?

- A imprensa j a est julgando. E, nesse julgamen

228

to, ela vai perder. Matou o primeiro marido com uma pistola, o segundo com uma espingarda, e o amante num barco.

- Olhe, se no quer pegar o trabalho...

- Eu no disse isso.

- Aceita, ento?

- Por voc, Barry Kahn. Houve uma pausa.

- Deus a abenoe, srta. Breen - Barry murmurou por fim.

- Pode me chamar de Norma.

Ela pde ouvir o suspiro de alvio que Barry deixou escapar e imaginou a tenso que o dominava. Admirou sua lealdade  amiga, mesmo sendo ela chamada de "viva-negra 
de Bedford", e provavelmente culpada dos crimes que lhe imputavam.

88

A maioria das pessoas ainda no sabia o motivo do conflito entre srvios e croatas, mas o julgamento de Maggie Bradford seria assistido em todo o mundo. Reprteres 
e equipes de televiso acorreram, vindos de todos os lugares, no s dos Estados Unidos, como da Europa, da Amrica do Sul, da sia e, possivelmente, at da Lua. 
O ajuntamento de representantes da imprensa era to grande quanto Norma Breen antecipara, como se aquilo fosse a posse de um presidente. Com uma diferena: o desespero 
pela histria "de dentro" era muito mais frentico.

Jesus Cristo,  um julgamento por assassinato, ela pensou. Seja qual for o desfecho, no vai mudar o mundo.

229

E da, se Maggie Bradford matou um marido ou dois? A maioria deles merece mesmo morrer.

Ela entrou com seu empoeirado Camaro amarelo na rua Clarke, em Bedford, e passou lentamente pelo regurgitante tribunal, pela segunda vez naquela manh.

Uma procisso de guarda-chuvas pretos, capas de vinil, sacolas de comida da Boston Chicken e da Dunkin'Donuts alongava-se pela rua principal, indo alm da farmcia 
Hamilton, da banca de jornais Willie's e da nova biblioteca pblica. O lento desfile virava para a rua Charles e continuava por mais cinco quarteires.

Que baguna! Parecia uma rea de desastre! nibus de turistas enfileiravam-se, estacionados nas ruas Millar e Grant. Eram aqueles nibus escolares, amarelos, e as 
placas indicavam que vinham de lugares com nomes estranhos, como Pittsfield e Catawba. Era comeo de dezembro, e a neve j se anunciava no ar gelado.

"Maggie e Will: Uma Doce e Amarga Tragdia Amorosa." Aquela era a manchete do dia. Frases similares saam do rdio do carro de Norma, at mesmo uma assim: "Trs 
faltas. Ela est expulsa".

Engraadinha. Norma gostou dessa. Finalmente, algum mostrava um pouco de senso de humor a respeito daquele caso feio que, no momento, era seu emprego.

A detetive-chefe da defesa odiava publicidade, no queria ficar famosa e nem mesmo rica. E aquela multido de reprteres correndo atrs dela interferia em seu trabalho. 
No entanto, ela entrara naquilo sabendo o que a esperava. Maggie Bradford era uma estrela. Uma parte do pblico a condenara, julgando-a culpada, e a outra a declarara 
inocente como um cordeirinho.

E Norma?

Oh, diabo, ainda no sei o que pensar. Maggie no est

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mesmo em seu juzo perfeito. O que declarou  polcia chega muito perto de uma confisso. Uma prova que vai impressionar.

Seu passe amarelo, ostensivamente colado no pra-brisa, permitiu-lhe entrar com o carro no estacionamento coberto do tribunal. O local j estava cheio de veculos 
oficiais, viaturas da polcia e carros particulares, pertencentes aos advogados de ambas as partes e seus assistentes.

O Mercedes azul do juiz Andrew Sussman encontrava-se na vaga privativa, ao lado da porta dos fundos do tribunal, e o Porsche prateado de Nathan Bailford, parado 
um pouco alm, era o carro que qualquer universitrio adoraria dirigir para paquerar garotas em um fim de semana.

E foi Nathan quem caminhou ao encontro de Norma, enquanto ela arrastava o corpo ligeiramente obeso para fora do Carnaro.

Ele fez um gesto, indicando a multido aglomerada diante do estacionamento.

- E hoje s vo selecionar os jurados - comentou. - Imagine o que isso vai virar quando o julgamento comear de fato.

- Como est sua cliente? - perguntou Norma. Visitara a acusada vrias vezes, nas ltimas semanas,

e surpreendera-se com sua atitude realista, embora distante. Maggie no se negava a responder ao que lhe perguntavam, mas tambm no se esforava para ajudar.

Haviam dito a Norma que ela estava confusa. A opinio da detetive era outra: Maggie Bradford estava sofrendo de depresso.

- Continua na mesma - respondeu Nathan. - No mudou quase nada desde a noite do crime. No existem

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altos e baixos. S baixos. - Olhou para Norma, ansioso. - Alguma novidade do seu lado?

- Nada, ainda. Mas h muitas bolas soltas no ar. s vezes me sinto como o bobo da corte. Ha, ha.

Ela no contou ao advogado que havia aspectos do caso que a intrigavam demais. Nada especfico ainda, apenas fatos que no se encaixavam, ou que no resistiam a 
um exame minucioso.

O que parecia claro era que, se Maggie atirara no primeiro marido, fizera isso porque fora obrigada. E, se atirara em Will Shepherd, tambm chegara quele extremo 
porque fora forada. Mas pelo que, ou por quem, era um ponto que continuava obscuro.

Mas haviam sido dois homicdios, esse era o problema. Um poderia ser explicado por insanidade temporria, legtima defesa, revolta contra contnuas agresses. Mas 
dois?

Norma voltaria ao local do crime,  tarde, para procurar mais informaes, alguma pista que pudesse seguir.

Devia existir algo de fundamental importncia que ela ainda no encontrara. Tinha de existir!

Merda. H alguma coisa muito errada nisso tudo.

Em Palm Springs, o sol da Califrnia, sol meio enevoado de deserto, rosado como polpa de grapefruit, deslizava por cima dos topos rochosos das montanhas. Os raios 
oblquos lanavam seu brilho na piscina e no ptio de ladrilhos vermelhos que a cercava.

Peter O'Malley ps de lado o exemplar do dia anterior do New York Times. Tirou os culos ray-ban de lentes espelhadas, colocou-os numa mesinha de ferro e olhou para 
o cintilante lenol azul da gua da piscina.

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Sua mente tambm estava cintilando. Na superfcie da gua, sobrepondo-se ao reflexo da casa, ele quase podia ver o rosto de Maggie Bradford. Como vira pela televiso, 
na noite anterior. Rosto plido, olheiras fundas. Ela parecia um zumbi, e ele sentira o corao saltar de alegria ao v-la naquela situao.

Bem feito, maldita!

Tarde da noite, ouvira gravaes dela, pelo rdio do carro. Odiava aquela voz, que literalmente o destrura. As msicas de Maggie estavam tocando em todas as rdios, 
naturalmente, e um disc-jockey apelidara-a de "pssaro engaiolado".

Bem, aquela voz no seria ouvida por muito mais tempo. No pelo rdio. Quem ouviria as canes de uma assassina condenada? E, certamente, no na sala da diretoria 
da empresa de seu pai.

Ele tornou a pr os culos, pegou o bloco de papel e a caneta que levara para a piscina, e comeou a escrever uma carta que, acreditava, garantiria a condenao 
de Maggie Bradford.

O que se faz se recebe, minha querida. Agora, voc vai ter o que merece. Pode acreditar no que digo. Seu "caso" com os O'Malley ainda no acabou.

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Todos os que entravam em contato com Dan Nizhinski, promotor de justia da comarca de Westchester, tinham a mesma reao: achavam-no bom demais para ser verdadeiro, 
perfeito para o papel que desempenhava.

Primeiro, sua aparncia. Ele tinha um metro e oitenta e trs, cabelos loiros, raleando no topo, mas compridos nos lados. O rosto, um tanto castigado, fazia-o parecer

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ter mais do que seus trinta e seis anos, mas as linhas ao redor dos olhos azul-claros, muito brilhantes, davam-lhe um ar malicioso que, entre os jurados, cativava 
as mulheres e fazia os homens consider-lo um amigo.

Segundo, seu comportamento no tribunal. Sempre ereto como uma rgua, ganhava a confiana dos jurados, ao mesmo tempo em que os mantinha a uma certa distncia, para 
que o olhassem com reverncia. "Estou lhes dizendo a verdade", ele parecia afirmar. "Confiem em mim. Por mais espantosas que possam ser as revelaes, elas se baseiam 
em fatos."

Naquele momento, porm, estava  vontade, com os ps em cima da escrivaninha, falando com os assistentes sobre o julgamento.

- No h dvidas quanto aos fatos - declarou, pelo que devia ser a dcima vez. - Ela admitiu que atirou nele. Entregou a arma do crime  polcia, com quem colaborou 
mais do que com os prprios advogados, parece. Tal comportamento no  raro em casos de homicdio. Mas...

Fez uma pausa teatral.

- Mas essa mulher tem dinheiro suficiente para comprar a melhor assistncia legal e os melhores recursos de investigao - prosseguiu. - Nathan Bailford em pessoa 
far a inquirio. Tem mais experincia na rea criminalista, onde conseguiu sua grande reputao, do que na empresarial. E contrataram Norma Breen para as investigaes. 
Se existir alguma justificativa para o crime, ela a encontrar. S que no existe nenhuma, inferno! Nenhuma!

Fez outra pausa, essa para controlar a emoo.

- A nica alegao que podero usar ser a de legtima defesa. Diro que Maggie Bradford defendeu-se de

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um ataque de Will Shepherd e que, se ela no o matasse, ele a mataria. Bem, eu direi que isso  conversa mole, e quando terminarmos nosso trabalho, o jri tambm 
estar dizendo isso. A desculpa de legtima defesa me d enjo. Trata-se de Maggie Bradfordl Ela no podia ter procurado  polcia, denunciado o marido? Por que 
no o fez? Tinha medo dele? Essa explicao pode ter funcionado no caso do primeiro marido, mas quero que o diabo me carregue se funcionar agora. Ela  uma superestrela! 
Qualquer polcia, no mundo todo, teria lhe dado proteo, se ela houvesse pedido. Esposa espancada? Meu rabo!

Uma terceira pausa, um gole de caf.

Os outros trs homens em seu gabinete conheciam seu jeito e estavam acostumados com seus melodramas. Tambm sabiam como ele era bom na profisso e o que o julgamento 
de Maggie Bradford significava para a sua carreira.

- Dois maridos, dois assassinatos - Dan Nizhinski continuou. - Isso  causar distenso muscular no longo brao da coincidncia, como S. J. Perelman disse uma vez. 
Se no bastasse, h um terceiro homem morto na vida de Maggie Bradford. Aquele a quem ela, supostamente, mais amou. Patrick O'Malley, o amante com quem estava morando, 
morreu de infarto num barco. Foi mesmo infarto? A autpsia confirmou que sim. Mas no sabemos o que o provocou. Maggie Bradford  uma assassina desnaturada, fria, 
que, at essa ltima vez, agiu com uma esperteza igual ao do prprio diabo.

Mais uma pausa.

- Agora a pegamos. Ela  culpada? Nunca tive tanta certeza de uma coisa como tenho disso em toda a minha vida. - Nizhinski finalizou, olhando para os assistentes.

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- Alguma pergunta, filhotes, ou ficaram mudos de deslumbramento? Conseguem nos imaginar perdendo a causa? Eu no consigo.

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No sou uma conhecedora de prises e no quero ser, mas se a casa de deteno de mulheres de Bedford Hills for "uma das mais luxuosas", fico com muita pena das coitadas 
encarceradas em outra qualquer.  horrvel, principalmente quando se  inocente, mas, mesmo no sendo, esse no pode ser o jeito certo de reabilitar algum. Tenho 
plena certeza de que no .

Fico sozinha em uma cela porque sou uma "estrela". Sozinha, fao exerccios e como a pssima comida. Mas fiz amizade com uma mulher, tambm acusada de ter matado 
o marido. A triste ironia  que, no caso de ns duas, no se trata de falsa acusao.

Estou rodeada por dependentes de drogas, ladras, membros de gangues, incendirias e algumas assassinas. Jennie me visita algumas vezes por semana, e sempre fico 
ansiosa por v-la. Disseram a Allie que eu viajei, recomendando-lhe que obedecesse  sra. Leigh. Sinto tanto a falta deles, que nem consigo escrever sobre isso.

Quando penso na minha meiga menina, em meu querido menino, sinto o corao rasgar-se. A dor  tanta, que me dobro, tentando alivi-la. No  que eu sinta pena de 
mim mesma. O fato  que simplesmente no posso viver sem meus filhos.

No posso cair aos pedaos por amor a eles.

Terminei essa anotao um pouco antes de as luzes se apagarem, ontem  noite. Parece que estou me lamen

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tando, mas no estou. No sou do tipo que fica choramingando. Nem mesmo aqui, trancada nesta priso.

Faltam seis horas para o incio do julgamento. O que acontecer? Qual ser o veredicto? No fao idia. Nada, zero, nenhuma pista.

Depois da apresentao das provas, estarei mais perto da verdade? vou, por fim, saber o que realmente aconteceu? Quem me dir o que est to escondido no meu corao, 
que nem eu mesma posso ver?

Vocs estaro mais perto da verdade? Contei-lhes tudo at agora. O que acham? Tm certeza? Estou dizendo a verdade, ou sou apenas outra celebridade mentirosa?

Vocs tm certeza do que pensam sobre mim?

Quando os problemas aparecem, eu simplesmente os resolvo a tiros? Matar  minha nica arma? Tenho a tendncia a me envolver com monstros?

Sou um monstro?

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L vamos ns!

- Est pronta, sra. Bradford? Tudo vai acabar bem, ver. Vamos, agora. Queremos lev-la para dentro do tribunal o mais rapidamente possvel. Para isso, precisamos 
da sua ajuda. Mantenha a cabea baixa e no pare de andar.

- Farei o melhor que puder, Bill.

- Eu sei.

Mais precaues. De Nova York, haviam mandado um guarda especialmente treinado para cuidar de situaes iguais quela. Um profissional. Sua funo ser a de supervisionar 
o trabalho dos outros guardas que me protegero das investidas da imprensa.

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Ele me guiar para dentro do prdio, ficar sentado perto de mim, depois me conduzir de volta  priso, o mais rpido e do modo mais fcil que puder. Chama-se Bill 
Seibert. Um homem afvel de verdade. Tem boas maneiras e gnio calmo.

Senti-o me empurrar gentilmente por trs e tropecei de leve, ao sair da viatura. Um timo comeo, no? Eu at j podia ver as manchetes dos jornais: "Maggie tropea 
logo no primeiro dia".

Entrei em uma confuso de corpos humanos pressionados uns contra os outros, luz cegante de refletores de televiso e uma avalanche de perguntas. Voc o matou? Como 
se sente? Escreveu alguma msica na priso? Como so as suas companheiras? Voc canta para elas?

Deixem-me em paz!

O nvel de estupidez e vulgaridade era muito mais alto do que eu poderia ter imaginado. Tive a impresso de que iria vomitar. Minhas pernas no tinham firmeza, enquanto 
eu tentava andar. As algemas em meus pulsos me faziam sentir culpada.

-  Apenas me acompanhe - Bill Seibert instruiu. - No pare, por motivo algum. No fale com ningum, sra. Bradford.

Fiz o que ele mandara. Confiava em sua eficincia.

Patrulheiros estaduais, com seus chapus de cowboy, mal conseguiam conter a multido. Ouvi algumas vaias, mas tambm aplausos. A cena toda deixou-me completamente 
tonta. A ltima vez em que me vira no meio de tanta confuso fora em San Francisco, algo que no era exatamente o que eu queria lembrar, no momento.

Mos estendiam-se atravs da barreira policial, tentando me agarrar.

No me toquem. Deixe-me paz! No sou nada de vocs.

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A idia da mo de um estranho me tocando deu-me vontade de gritar. Mas contive o impulso. Guardei tudo dentro de mim.

Felizmente, a maior parte da multido barulhenta e desordenada ficou para fora, quando a grande porta de carvalho se fechou.

De repente, vi-me no vestbulo de teto muito alto do tribunal. Funcionrios, policiais, na maioria idosos, e autoridades municipais ficaram me olhando como se eu 
fosse uma aliengena acabada de chegar do espao. Nas paredes brancas que ladeavam a escadaria de mrmore, vi as infalveis fotos em preto e branco. Bandeiras, a 
americana, a estadual e a da cidade, pendiam de seus suportes dourados. Era tudo incrivelmente estranho.

Barry e Nathan correram para mim. Nathan apertou minha mo, e Barry beijou-me no rosto. Acompanharam-me  sala de julgamento, que se encontrava lotada. Tudo era 
irreal. Barry e Nathan eram irreais tambm.

Comecei a me sentir fisicamente doente, achando que iria vomitar. Parecia que o alvoroo assustador que havia l fora penetrara na sala como um gs letal. Todos 
os presentes viraram-se para mim, como que obedecendo a um nico comando. Pessoas comuns. Escritores famosos olhavam-me da galeria.

Que coisa horrvel!

Lutei para manter a cabea erguida, aparentando inocncia. Sentei-me  mesa da equipe de defesa, ao lado de Nathan. Barry acomodou-se entre os espectadores, no lugar 
reservado para ele na primeira fila.

Segurei-me na mesa com as duas mos, procurando apoio. Estava tremendo, gelada, sentindo-me muito solitria.

Olhei em volta, procurando meus filhos. Mas, naturalmente

239 apenas Jennie estava l. Eu sabia que no levariam Allie. Acenamos uma para a outra, e ela comeou a chorar.

Tudo to estranho e louco. Tudo to errado.

- Silncio! Todas as pessoas neste tribunal, ligadas ao caso quarenta e quatro, ouviro e sero ouvidas. Presidindo, o meritssimo juiz Andrew Sussman - entoou o 
oficial de justia.

Era seu grande momento no palco. Todos os olhares fixaram-se nele. ,

timo. Pararam de olhar para mim.

O julgamento estava comeando.

Meu julgamento. Por assassinato.

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To esquisito quanto um carro de cinco rodas!, Norma Breen disse a si mesma. Essa gente tem um parafuso frouxo na cabea! So todos loucos! As coisas no batem. 
Nisso tudo falta uma pea, que est perdida em algum lugar.

Como podia ser que, um nico tiro, disparado quando Maggie Bradford estava caindo, fora suficiente para matar aquele desgraado do marido dela? Mas fora, no? No 
havia muita dvida quanto a isso.

Ela olhava pela centsima, ou, talvez, milionsima vez, as fotos do local do crime, tiradas pela polcia, logo depois que o corpo de Will Shepherd fora encontrado.

O cadver estava de bruos.

Que azar, Will! Ou voc planejou esse azar? Atirou em si mesmo, seu filho da puta infeliz? Foi esse o seu jogo?

Ele tentara fugir, isso ficara bvio pelas pegadas. Mag

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gie perseguira-o, e os dois haviam lutado. A bala entrara na cabea de Will, que tombara para a frente.

Fim da histria, fim de Will Shepherd.

Comeo do mistrio que Norma tentava desvendar.

Ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Havia alguma coisa que no encaixava. Algum detalhe que lhe escapava. Mas, diabo, o que era?

Qual era a pea que estava faltando naquele maldito quebra-cabea?

Ela teria de tentar outras coisas. Pedir alguns favores. Manter todas aquelas bolas no ar. Mas encontraria algo que devolveria a liberdade a Maggie Bradford.

Para qu? Para ela voltar a matar?

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Ironia das ironias, pensei. O promotor pblico adora minhas msicas. Pelo menos, adorava.

Eu conhecera Dan Nizhinski em uma festa, na casa de Nathan Bailford. Ele estava l com a esposa, uma mulher de aparncia comum, que usava enormes culos de aros 
ovais e nada de maquilagem. Lembro-me de ter imaginado como um homem to atraente casara-se com uma mulher to sem graa, mas gostei muito dela, quando tivemos chance 
de conversar. Os dois afirmaram que eram grandes fs meus. Hurra!

Bem, eu no estava mais gostando de Dan Nizhinski. Ele era alto e muito assustador. Dirigia-se aos jurados como um professor querido falando diante de uma turma 
de bons alunos.

- Ele  bom nisso - cochichei para Nathan.

- Ns tambm somos - ele respondeu, mas sua confiana no transbordou para me atingir.

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O jri era constitudo de uma secretria de empresa de pouco mais de vinte anos, uma diretora de escola, duas donas de casa, duas aposentadas, um coronel reformado 
do Exrcito, um escritor freelance, dois comerciantes, um balconista de uma concessionria Ford e um ator, "atualmente desempregado".

Seis homens, seis mulheres. De meios diferentes. Atravs do poder de Deus, eles me dariam a liberdade. Pelo menos eu tinha essa esperana.

Meu grande f, Dan Nizhinski, estava de novo falando de mim. Mas no exatamente fazendo-me elogios.

- Os senhores tero provas de que a r, Maggie Bradford, planejou o assassinato de seu marido, Will Shepherd, por um perodo de vrias semanas.

Pausa.

- Vero que esse assassinato premeditado foi cometido de um modo particularmente frio, quando Will corria para salvar a vida, quando tentava escapar!

Mais uma pausa.

- Descobriro que Will Shepherd no era um marido perfeito, mas seus defeitos, fossem quais fossem, no justificam o crime. Provas esmagadoras, em grande nmero, 
lhes sero apresentadas, e no haver nenhuma dvida, na mente dos senhores, como no h na minha, de que Maggie Bradford  culpada de homicdio de primeiro grau 
e deve ser punida com todo o rigor da lei.

Dan Nizhinski caminhou para o seu lugar,  mesa da promotoria, ento parou e retornou para junto dos jurados, como se houvesse acabado de lembrar-se de alguma coisa 
que devia dizer a eles. Eu. porm, poderia jurar que ele ensaiara muitas vezes aquele movimento e o discurso.

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- Mais uma coisa. Esqueci de dizer que essa assassina com quem estamos lidando no  uma mulher comum.

- Protesto, meritssimo! - Nathan Bailford gritou, levantando-se. - O promotor rotulou minha cliente! Ela no  "assassina".

- Negado.

- O nome dessa mulher  Maggie Bradford - prosseguiu Dan Nizhinski. - Um nome conhecido em todo o pas. Ela no  a pessoa que os senhores vem pela televiso. A 
televiso mostra imagens, no a verdade. Maggie no  to doce quanto sua voz, to sedutora quanto suas msicas, to sensvel e bondosa quanto sugerem as letras 
que escreve.

Pausa.

- Os senhores devem separar a imagem de Maggie Bradford como cantora, compositora, estrela, da verdadeira Maggie Bradford, a mulher sentada diante de ns, acusada 
de um crime hediondo. No se deixem enganar por imagens, no fiquem fascinados pela fama da r, no se iludam s porque essa mulher escreve sobre coisas boas de 
modo to convincente. A Maggie Bradford real teve acesso a uma arma. A Maggie Bradford real soube como puxar um gatilho. A Maggie Bradford real no pensou muito, 
antes de tirar a vida de outra pessoa. Por qu? Porque achou que podia fazer tudo o que quisesse. Afinal,  uma estrela.

Nova pausa.

- Bem, quando uma estrela cai, explode ao atingir a atmosfera. Ento, se apaga. Para Maggie Bradford, os senhores, membros do jri, so a atmosfera. E, como defendem 
a justia, representam a justia, ela nunca mais voltar a brilhar. No pode voltar a brilhar!

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Nathan Bailford levantou-se e, com uma paixo que no ficava nada a dever  do promotor, fez um esboo da defesa. Durante os discursos dos dois homens, senti-me 
como se eles estivessem falando de outra pessoa. O desligamento que eu experimentara por muito tempo, depois que fora acusada de ter matado Will, retornara.

- O promotor pblico pintou um quadro que mostra uma assassina fria - Nathan disse em um murmrio spero. - Um quadro assustador e, talvez, acurado, se estivesse 
falando de uma verdadeira assassina. Mas no  verdadeiro, porque se referia a Maggie Bradford. Os senhores constataro isso quando ouvirem os depoimentos dos amigos 
e colegas dela, quando ouvirem o que ela prpria tem a dizer.

Endireitei-me na cadeira e, rapidamente, escrevi um bilhete para Barry: "Decidimos que eu no iria depor, e no vou!".

Ele respondeu: "timo. Ento, diga-nos por que matou Will".

Eu: "No. Tambm no posso fazer isso".

Dissera vezes sem conta que no queria depor. Que no podia! Tinha minhas razes para permanecer calada e no falaria, nem que por isso passasse o resto da vida 
na cadeia.

95 Sr. Shepherd?

Ele mesmo.

Meu nome  Norma Breen, sr. Shepherd, e estou

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telefonando de Nova York. O senhor provavelmente no sabe quem sou...

- Oh, sei, sim. Est investigando o assassinato de meu irmo. As notcias sensacionalistas do manchetes aqui tambm. Posso ajud-la em alguma coisa?

- Entre os pertences de seu irmo, encontrei um bilhete que o senhor lhe mandou. Um bilhete muito simples, por isso achei estranho que ele o tenha guardado. Diz: 
"Foda-se, Will". Pode me dizer a que se referia? E por que seu irmo optou por guard-lo?

Houve um breve silncio.

- Acho que posso. Ele queria que eu fosse seu scio num empreendimento. Eu estava nos Estados Unidos, na ocasio, e ele me convidou para ir a sua casa. Eu disse 
"no" com aquele bilhete.

- E era essa a linguagem que usava com seu irmo?

- Era a nica linguagem que ele entendia. No ramos muito apegados. Meu irmo era um canalha, um louco. No era minha pessoa favorita, devo acrescentar.

Norma sabia que os dois irmos no se davam bem. Mesmo assim...

- Compreendo que isso deva ser difcil para o senhor, mas poderia me dizer por que no gostava dele?

Palmer Shepherd riu.

- Tem bastante tempo? E uma histria muito comprida.

- Terei bastante tempo, se o senhor achar que a sua histria pode ajudar.

- No vejo de que modo o que tenho para dizer pode se relacionar com o julgamento. A esta altura, j deve saber que tipo de homem ele era, srta. Breen. Mas eu poderia 
pegar um avio e ir at a para conversarmos. Na verdade, sinto muita compaixo por Maggie Bradford. No pode imaginar quanta.

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-  muita bondade sua. Com certeza o chamarei, se achar que  necessrio.

- timo. Meu oferecimento  sincero. Maggie at pode ter acabado com ele, mas o que me surpreende  que ningum tenha feito isso antes.

-  capaz de imaginar que motivo ela poderia ter para mat-lo?

- No sei coisa alguma sobre o casamento deles, porque me mantive distanciado de propsito. Mas Will era o prprio demnio, srta. Breen. Will era mau. Com toda a 
franqueza, acho que quem o matou prestou um grande favor ao mundo. Acredito nisso de corao.

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O julgamento prosseguiu muito lentamente. Um dia exaustivo aps o outro, semana aps semana.

No exaustivo vigsimo dia, depois dos depoimentos de vrias testemunhas, fui levada de volta  priso. Barry e Na-than, ento, foram me visitar. Quase me recusei 
a receb-los.

Sabia que eles iriam voltar a me pressionar para que desse uma explicao, ou fornecesse um libi, coisas que eu no podia fazer. Sabia tambm que os dois se preocupavam 
com o fato de o julgamento no estar se desenrolando de modo favorvel para ns.

- Diga o que sabe sobre Palmer - Barry pediu, quando ns trs nos encontrvamos na pequena sala usada apenas para reunies daquele tipo.

Fiquei um pouco confusa, achando estranho aquele seu jeito de iniciar nossa conversa. Palmer Shepherd? Por qu?

- O que tem ele? Claro,  irmo de Will, mas s o

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vi duas vezes. Os dois no eram unidos. No meu casamento, Palmer me deu os psames

- Voc sabe se Palmer era apegado s tias?

- No tanto quanto Will. >. Minhas palavras saram apressadas, talvez em um tom

que dizia algo mais. Barry me olhou atentamente, ento seus olhos tornaram-se tristes e distantes.

- Maggie, voc sabia do que houve entre Vannie e Will? - perguntou. - Por que no nos disse? Por que tivemos de saber pelo irmo dele?

A raiva, longamente reprimida, subiu  tona. Eu precisava deixar um pouco dela escapar.

- Eu no sabia de nada! Apenas devo ter suspeitado de alguma coisa. Barry, o que est tentando fazer comigo?

Ele me olhou de modo firme.

- Diga a verdade, Maggie. Vannie esteve na sua casa alguma vez?

- S para assistir ao casamento. Voc a viu l, Barry - respondi, lembrando-me claramente da mulher. - A irm mais nova da me de Will... muito atraente. Acho que 
Will nunca se conformou com o abandono da me.

- Suponho que no - concordou Nathan. - Will levou alguma mulher estranha  casa de vocs?

- Nunca. Acha que eu permitiria? Essas perguntas no fazem sentido, Nathan.

- Mais uma coisa. Will nunca tentou nada audacioso em casa? Precisa confiar em ns, Maggie. No pode guardar segredos. No a esta altura do julgamento.

Hesitei, mas s por um instante. No estava gostando do rumo que a conversa tomara.

- No tenho nada para contar - respondi. - Por que esconderia alguma coisa de vocs?

Barry irritou-se.

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- Est mentindo - acusou. - Que inferno, Maggie! Voc quer acabar comigo?

Eu estava mesmo mentindo. No tenho esse costume, mas no havia outra sada.

- Eu juro... - murmurei.

- O que Will fez, Maggie? - Barry perguntou, quase gritando.

Veias pulsavam em seu rosto e no pescoo. Eu nunca o vira to furioso.

Por favor, Barry, no faa isso comigo!

Ele empalideceu subitamente. Fechou os olhos. Ento, depois de alguns instantes, tornou a abri-los, e vi que estavam cheios de lgrimas.

- Claro - murmurou.

Fitou-me com tanta ternura e compaixo, que senti um aperto doloroso no peito.

- Oh, meu Deus, claro que foi isso! - ele exclamou. - Will estava dando em cima de Jennie, no ?

Levantei-me e chamei a carcereira.

- Leve-me de volta para a minha cela. Quero sair daqui imediatamente!

Ela veio me buscar, e eu a acompanhei.

Eu no diria mais uma nica palavra a Barry, nem ao meu advogado. No queria, no podia arrastar Jennie para aquela sujeira.

97

- A promotoria chama Peter O'Malley.

Senti o sangue fugir de meu rosto quando ouvi aquelas palavras. Mas j estava me acostumando  sensao constante de ansiedade e medo. J estvamos no vigsimo

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nono dia, e os depoimentos das testemunhas continuavam, a maioria contra mim.

Apesar das centenas de vigorosas objees da defesa, o juiz Andrew Sussman permitira que Nizhinski apresentasse provas a respeito da morte de Phillip. Agora, o promotor 
pretendia cavar o maior nmero de informaes que pudesse sobre a morte de Patrick O'Malley.

No conseguiria grande coisa. O mximo que ele podia fazer era insinuar que eu fora responsvel. Mas eu sabia que era isso o que Peter queria.

Tomando uma deciso muito estranha, o juiz mandou que os espectadores sassem, impedindo-os de assistir quele depoimento. O fato era que Peter concordara em depor 
s depois que seu advogado convencera o juiz a conceder-lhe privacidade.

Eu no entendia aquilo. De que Peter desejava proteger-se?

Mas, muito depressa, eu compreenderia.

Seu depoimento durou uma eternidade, interrompido a todo instante por objees dos meus advogados, de modo que  difcil lembrar de tudo. Mas, em resumo, foi mais 
ou menos como vou contar.  scio de um clube de campo chamado Lake, sr. O'Malley?

- Sou.

- O clube fica em Bedford Hills? Na estrada Greenbriar?

- Fica.

- Quantos scios tem?

- Cerca de quinhentos.

- As atividades so aquelas da maioria dos clubes de campo: golfe, tnis, natao, jantares e bailes?

249

- Exatamente.

- No entanto, o Clube Lake oferece algo mais, no  verdade?

- Oferece, apenas para algumas pessoas.

- Algo reservado para um pequeno nmero de scios?

- Correto.

- O senhor  um desses scios?

- Fui um deles.

- Quem mais pertence ao grupo?

- Homens importantes, na maioria.

- O que  que o clube oferece a essas pessoas?

- Um lugar para reunirem-se. Nas reunies, os scios discutem finanas, poltica, coisas assim.

- E depois, quando as discusses terminam, o que esses homens fazem?

- Divertem-se. Nem sempre, porm. S de vez em quando.

- Entendo. Pode dizer que tipo de diverso  oferecido?

- Sexo, quase sempre.

- Pode ser mais especfico?

- Mocinhas e, s vezes, tambm rapazes so levados ao clube.

- Moas e rapazes prostitutos?

- Eu no os chamaria assim.

- Eles vo l para divertir os scios. So pagos para isso? >

- So.

- Uma rosa chamada por outro nome... O senhor reside em Bedford Hills, sr. O'Malley? No. Moro em Manhattan, ou na costa oesfc.

- No entanto,  scio do Lake.

- Sou.

l

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- Participou de alguma dessas festas dadas tarde da noite, no clube?

- Participei.

- Como conseguiu entrar no grupo restrito, sr. O'Malley?

- Meu pai, Patrick O'Malley, era importante no clube. Fui aceito como scio quando ele morreu, e como participante desse grupo.

- Ele tambm participava dessa atividade exclusiva?

- Participava.

- Quer dizer, dormia com mocinhas.

- Dormia.

- Patrick O'Malley teve um relacionamento com Maggie Bradford?

- Durante muito tempo. Dois anos, talvez.

- E o senhor tem um meio-irmo, filho de seu pai com Maggie Bradford?

- Tenho. Todos eles moravam juntos.

- Diria que Patrick O'Malley e Maggie Bradford estavam apaixonados um pelo outro?

- Pelo menos, era o que meu pai dizia.

- Ele no deixou de ser scio do Lake nesse perodo?

- No.

- Continuou a dormir com mocinhas?

- Isso eu no sei.

- A sra. Bradford sabia dessas "diverses" e que seu pai participara delas?

- Sabia. \

- Como sabe disso? >

- A sra. Bradford tinha fotos de meu pai com garotas.

- Tinha fotos?

- Encontrei-as no quarto dela, isto , no quarto dos

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dois, depois que meu pai morreu. Ajudei a reunir os documentos dele.

- Eram fotos pornogrficas?

- Muito. Meu pai com duas garotas...

- No precisa entrar em detalhes. No agora. As fotografias estavam em poder da sra. Bradford?

- Estavam.

- O que ela pensava a respeito?

- No sei. Ela nunca me disse.

- O que o senhor pensa?

-  sempre um choque para um filho ver o pai daquele jeito.

- Naturalmente. Mas, surpreso, o senhor no ficou.

- No.

- Agora diga, sr. O'Malley, como foi que seu pai morreu.

- No sei.

- No sabe? Como  possvel?

- Morreu num barco. Supostamente, de infarto.

- Supostamente? Estava sozinho no barco?

- No. A sra. Bradford estava com ele.

- Mais ningum?

- No. Quando a guarda-costeira encontrou o barco, a sra. Bradford disse aos homens como foi que meu pai morreu.

Acreditaram nela?  evidente.

- O senhor conhecia Will Shepherd?

- Conhecia.

- Diria que eram amigos?

- Amigos, sim, mas apenas socialmente.!

- Mas o senhor tinha negcios com ele.

- Tinha.

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- Will Shepherd era scio do Clube Lake?

- Era.

- E do "clube dentro do clube"?

- Tambm.

- Participava das "diverses"?

- Sem dvida.

- Maggie Bradford sabia?

Peter CMalley hesitou, mexeu-se na cadeira, ento olhou diretamente para mim.

- Sim, ela sabia. Provavelmente, foi por isso que o matou.

Como eu disse, houve centenas de objees durante o depoimento de Peter, mas foi o que contei que ficou gravado em minha mente e, tenho certeza, na dos jurados tambm.

Eu estava perdendo.

Estava perdendo tudo o que amava, tudo o que tinha

importncia para mim.

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Naquela noite, logo depois do jantar, Norma Breen foi me visitar na priso. Tornara-se uma das pessoas com quem eu mais gostava de conversar. Tnhamos quase a mesma 
idade, ns duas vnhamos da classe trabalhadora, de modo que uma compreendia a outra muito bem.

 Maggie, detesto dizer isso, mas no gosto das suas msicas - foi seu preldio naquela visita.

Era seu jeito curioso de dizer "ol".

- Cachorra - resmunguei, sorrindo para ela.

S Norma conseguia me fazer rir. Era, de fato, minha amiga.

- No. Cachorra  voc, que no me ajuda a fazer o

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meu trabalho. Que, ironicamente,  tentar tirar voc deste zoolgico.

Eu ainda sorria. Ela tambm, embora o assunto fosse terrivelmente srio. Ningum agenta ficar terrivelmente srio por tanto tempo, tantas horas, tantos dias, meses 
a fio.

- Norma, detesto dizer isso, mas no gosto do jeito que est fazendo o seu trabalho - declarei, imitando-a.

- Duro demais, no ? Muito cheio de farpas. Estendi a mo sobre a mesa, pousando-a sobre a dela. Norma era solteira, disponvel, mas, provavelmente

por causa dos vinte quilos de excesso de peso, os homens a ignoravam. Cometiam um erro. Um grande erro.

- O que tem na cabea hoje, meu bem? - perguntei, sabendo que ela no parava de pensar, de tecer conjeturas.

- Gostaria de falar com voc a respeito dessa sua mania de mrtir. Por falar nisso, odeio aquela tal de madre Teresa de Calcut. Pare de bancar a mrtir, Maggie.

- Mas eu sou uma mrtir - afirmei. - Foi o que tive de me tornar, ainda pequena, para que a minha famlia me amasse. No posso evitar de ser assim.

Norma virou a mo e segurou a minha, apertando-a com fora.

- Eu amo voc, Maggie. Aprendi a amar num tempo muito curto. Muitas outras pessoas a amam. Voc  uma porra de uma mulher adorvel.

Dei uma gargalhada, meu humor mais negro emergindo.

- Todos me amam, menos meus maridos - observei.

- J pensou que pode ter escolhido dois canalhas s para poder continuar no seu papel de mrtir? Como voc mesma disse, no pode evitar. S que pode, Maggie! Pode 
evitar e ajudar a si mesma.

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Suspirei profundamente. Sabia aonde Norma queria chegar. Eu estava cansada de ouvir Barry e Nathan martelando naquela mesma tecla, mas, de repente, vindo de outra 
mulher, o som me pareceu um pouco diferente.

- No, no posso - disse por fim. - Boa tentativa, Norma, mas no me convenceu. No posso envolver Jennie.

- Pode, sim - ela insistiu, e, de repente, lgrimas comearam a tombar de seus olhos.

Nunca chorara na minha frente. Nunca perdera o controle, nunca baixara a guarda.

Ento, estvamos ambas soluando, as mos entrelaadas, chorando abertamente, como se tivssemos

nove anos.

- Falei com Jennie, Maggie. Ela mandou dizer que vocs duas precisam conversar e que a conversa ser uma continuao daquela em Pound Ridge. Disse que voc lhe deve 
isso.

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Norma Breen foi, pela ltima vez,  casa de Maggie, em Bedford Hills. Estava convencida de que perdera um detalhe importante. Que todos haviam perdido. O que poderia 
ser, em nome de Deus?

Mildred Leigh recebeu-a e ofereceu-lhe uma xcara de caf. Allie estava brincando na sala de estar, e Norma ficou satisfeita com a oportunidade de falar  vontade 
com a empregada. Ainda no entrevistara a sra. Leigh como deveria. Podia ser que, naquele dia, conseguisse obter alguma informao til.

- Sei que j deve ter contado muitas vezes a mesma coisa, sra. Leigh - Norma comeou -, mas poderia

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,_ me dizer tudo o que aconteceu no dia do crime? A senhora estava aqui?

- At as seis e meia. Depois sa, porque era minha noite de folga. - A empregada corou. - Fui me encontrar com o sr. Frazier e s voltei na manh seguinte. Cheguei 
aqui e encontrei a polcia e a imprensa. Ento fiquei sabendo que Maggie estava sendo acusada de uma coisa que jamais faria.

Ela parece orgulhosa de si mesma, Norma refletiu. D para entender. Est falando de seus quinze minutos de fama.

- Aconteceu algo fora do normal enquanto a senhora estava aqui? - perguntou. - Qualquer coisa de que se lembre pode ajudar Maggie. Diga tudo o que lhe passar pela 
cabea.

- Foi um dia igual aos outros. No, no aconteceu nada diferente. Nada de que me lembre. Foi isso tambm o que eu disse  polcia.

- Maggie e o sr. Shepherd no brigaram? No tiveram nenhum desentendimento?

- Eles mal se viram. O sr. Shepherd ficou em Nova York quase o dia todo. No, no ouvi nenhuma briga.

- Conte-me o que eles fizeram. Qualquer coisa que lhe venha  lembrana, sra. Leigh.

- Bem, Maggie ficou no escritrio, como sempre. Acho que escrevendo as suas canes. Saiu algumas vezes, para falar com as crianas. Ela e Allie adoram brincar juntos.

- E o sr. Shepherd?

- Ele voltou da cidade, mas no sei a que horas.  noite, vi-o saindo do clube. Ele estava voltando para casa.

Norma ficou momentaneamente confusa.

- A senhora estava no clube? O que foi fazer l?

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- J.C. Frazier mora l, no lado oposto do prdio principal, atravessando o ptio de estacionamento.

- Sabe por que o sr. Shepherd foi ao clube naquela noite?

- No, senhora. S o vi passando pela casa do sr. Frazier.

- Que horas eram?

- Cerca de dez, dez e meia.

- Viu-o apenas rapidamente?

- Isso mesmo. J.C. e eu tnhamos coisas melhores para fazer do que ficar olhando o sr. Will Shepherd.

- Com certeza.

O que Will estaria fazendo no clube, naquela noite?, Norma perguntou-se. No combinava com o que Maggie lhe contara.

- Acha que ele podia estar l por causa de uma daquelas festas que acontecem tarde da noite? - indagou.

A sra. Leigh olhou-a com ar conspirador.

- J.C. lhe contou? A senhora sabe daquelas farras?

- Claro que sei. Notou que roupas o sr. Shepherd usava?

- Estava escuro. A nica coisa que sei  que ele estava levando a espingarda.

Norma sentiu os plos finos dos braos eriarem-se.

- A espingarda? Tem certeza?

- Eles praticam tiro, no clube. Com alvo mvel, num terreno que fica depois do campo de golfe. O sr. Shepherd sempre ia l.

- Mas no foi no dia em que o mataram. A sra. Leigh suspirou.

- J lhe disse. Ele ficou em Nova York quase o dia todo. Saiu muito cedo, o que no era seu costume.

- Contou tudo isso  polcia? - perguntou Norma.

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A empregada assentiu com um gesto de cabea.

- Tudo o que estou lhe contando agora.

- Tambm contou que viu o sr. Shepherd deixar o clube, levando a espingarda?

-  claro.

Acabaram de tomar o caf.

- Obrigada, sra. Leigh. Ajudou bastante.

- Foi um prazer. Est vendo aquele menininho ali? - A sra. Leigh apontou para Allie. - Ele  um amor e adora a me. Todos ns queremos que Maggie volte para casa. 
Sentimos muito a sua falta.

- Eu tambm quero que ela volte. Posso usar o telefone? - Norma pediu.

- Naturalmente. No escritrio. Venha comigo.

- No se incomode. Sei onde  - afirmou Norma. Teve de controlar-se para no correr, enquanto se dirigia ao escritrio.

Barry, estou na casa de Maggie. Acho que encontrei uma pista. Pelo menos, espero ter encontrado. No. Acho que  algo concreto mesmo.

Norma fechara a porta atrs de si ao entrar no escritrio, mas, por cautela, cochichava, falando ao telefone.

- Estou ouvindo. Continue - disse Barry.

- Sabe aquela famosa espingarda? - Norma perguntou. - A sra. Leigh viu Will com ela na noite do crime. Ele estava saindo do Lake. Cada vez mais, o clube parece ter 
alguma coisa a ver com essa confuso dos infernos.

- Por que Will teria levado a espingarda ao clube?

- Foi a primeira pergunta que me fiz. - Em sua excitao, Norma ergueu a voz. - E a resposta : ele foi

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ao clube buscara espingarda. Quando Maggie mandou-o livrar-se da arma, ele deve t-la guardado l. Ela disse que a procurou por todos os cantos da casa e no encontrou. 
Por qu? Porque a espingarda estava no clube. Houve uma longa pausa.

- Tudo bem, mas por que Will faria isso? - Barry perguntou por fim. - Ele se suicidou? Fez do seu suicdio uma pea de teatro, Norma? E isso que voc est pensando? 
Que ele premeditou tudo para incriminar Maggie?

Norma foi invadida por uma onda de frustrao e aturdimento.

- Merda, ainda no sei! - exclamou. - As coisas no esto fazendo muito sentido.

Nova pausa.

- vou lhe dizer o que sei - ela voltou a falar. - A polcia de Bedford sabe que Will foi ao clube buscar a espingarda, mas sonegou essa informao. H algo podre 
no reino de Bedford, e eu vou descobrir o que, quem e por qu.

- Pega, Norma! 101

Olhei para Jennie, quando ela entrou no parlatrio, e tive vontade de chorar. Mas no iria me render a esse impulso. Precisava ser forte por ns duas. Precisava 
ouvir o que minha filha tinha a dizer.

No conseguia desviar os olhos do rosto dela. Sempre a amara muito mais do que amava a mim mesma. Todos diziam que ramos muito parecidas, s que eu no via em Jennie 
nenhum dos meus defeitos e fraquezas. Fisi

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camente, ramos de fato parecidas. Ela j estava bastante alta, com quase um metro e setenta e dois, e seus cabelos loiros eram to compridos quanto os meus. Tnhamos 
os mesmos olhos.

Amo voc, eu disse em pensamento, quando ela sentou a minha frente, no outro lado da mesa. Detestei aquela mesa que nos separava. Tinha necessidade de abraar minha 
filha e de que ela me abraasse. Eu nunca precisara tanto disso como naquele momento.

De repente, ela abriu um sorriso. Aquela era a minha Jennie.

- Tenho um recado de Norma - comeou. - Mandou dizer que madre Teresa  uma farsa, um show de Ls Vegas. Que tudo o que ela faz  por dinheiro.

A brincadeira me fez rir alto.

- Norma est tentando ajudar voc, mame - disse Jennie, inclinando-se sobre a mesa e falando em seu tom mais adulto.

- Eu sei disso, Jennie. Como voc est? Ela revirou os olhos, impaciente.

- Estou bem. D para acreditar? S no posso dizer que estou tima. - Soprou-me dois beijos. - Esses, foi Allie quem mandou. Na verdade, mandou mais de cem.

- Ele ainda se lembra de mim? Ela tornou a revirar os olhos.

- Ns o fazemos assistir s fitas de vdeo dos seus shows, para que no esquea. Lemos as suas cartas para ele e mostramos as suas fotos. Mas eu vim aqui para falar 
de outra coisa. E vamos falar, mame.

- Entendo - afirmei. - E respeito sua vontade, Jennie.

-  um bom comeo. Agora, acho que deve me fazer perguntas, porque est com certas idias na cabea que

eu no sei direito quais so. Por isso, vamos usar o mtodo socrtico. Sorri.

- No vou nem perguntar como esto as suas notas - declarei.

- Sou a primeira da classe. Vamos, continue assim. No me decepcione.

Aquela era, sem dvida, a pior situao, a mais difcil que eu j enfrentara. De fato, estava com certas idias na cabea. Mas no, no estava preparada para falar 
sobre elas. Talvez nunca estivesse.

- Acho que podemos comear pela noite do... pela noite da morte de Will - eu disse por fim.

- Um bom ponto para comear, o fim.

- Encontrei Will no seu quarto. O que ele estava fazendo l, Jennie?

- Foi me dizer "boa-noite".

Havia um tom de inocncia nas palavras de Jennie, que me fez ficar olhando para ela, espantada.

- S isso? Jennie, voc no pode mentir, nem mesmo para proteger Will, ou meus sentimentos. Estamos de acordo quanto a isso?

- Claro. Essa  a regra do jogo. Estamos de acordo. Agora, vamos comear a jogar.

- Voc me dir a verdade, e eu farei o mesmo. Direi qualquer coisa que queira saber a respeito da morte de Will.

Jennie fixou os olhos nos meus.

- Tenho algumas perguntas para lhe fazer.

- Primeiro eu, depois voc, ok?

Ela moveu a cabea em uma afirmativa.

- Tudo bem.

Eu no sabia exatamente por onde comear minhas perguntas. Ento, me decidi pelo ponto mais bvio.

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- Will ia com freqncia ao seu quarto, dizer "boa-noite"? As vezes. Tambm me levava leite morno. Dizia que a tia costumava levar-lhe ch, quando ele era pequeno 
e morava na Inglaterra.

Tive um sobressalto ao ouvir Jennie mencionar a tia de Will, mas  claro que ela no poderia adivinhar que isso me perturbaria.

Respirei fundo. No tinha certeza de poder continuar com o "jogo". A priso no era um lugar onde eu quisesse ter aquele tipo de conversa com Jennie.

Ela estendeu a mo e- pegou a minha.

- Posso tentar fazer com que isto fique mais fcil... para ns duas?

- Pode, se acha que vai conseguir - murmurei. Eu me sentia sem voz. Completamente oca. Fora da

realidade.

- Will era muito complicado. Voc sabe disso, mame. Acho que ele desejava realmente ser um bom pai. Ia ao meu quarto, s vezes, para conversar. S para isso. Penso 
que queria provar que podia estar l e s conversar. Ele me contava muitas coisas do tempo em que era criana e adolescente. Tambm sabia ouvir. s vezes, pelo menos.

- Isso  verdade - concordei.

- Eu tinha uma paixo pecaminosa por ele, mame. Achava-o lindo como um deus, como Ralph Fiennes ou Mel Gibson. Pensava nele o tempo todo.

- Mas nunca aconteceu nada?

- Aquela noite, no meu quarto, Will disse a voc que ele e eu amos nos "divertir". Mas mentiu, mame. Nunca houve nada entre ns. No precisa continuar

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querendo me proteger. Por favor, acredite em mim! No aconteceu nada.

Peguei o rosto de Jennie entre as mos. Queria estar ainda mais perto dela, mas aquele contato era tudo o que nos permitiam, naquele lugar horroroso.

- Deixe-me testemunhar a seu favor, mame. Por favor! Deixe-me fazer isso por voc! Preciso ajud-la, nem que seja s desta vez. Eu posso ajudar, mame. Nada jamais 
aconteceu entre mim e Will. No precisa me proteger.

102

Norma Breen estava resmungona e impaciente, quando chegou ao Lake Country Club.

Aquelas malditas peas que esto faltando no quebracabea tm de estar aqui, em algum lugar, pensava repetidamente, achando que isso se tornaria verdade, se ela 
fizesse a afirmao vezes suficientes.

Fora ao clube especificamente para falar com J.C. Frazier. O homem beirava os cinqenta anos, tinha o rosto bronzeado de quem vivia ao ar livre, corpo esbelto e 
musculoso.

Bem, j sei que J.C.  observador, Norma refletiu, sentando-se com ele na varanda do prdio principal do Lake. Resta torcer para que seja tambm falante.

Entrou no assunto, convencendo J.C. a conferir o que ela j sabia: que havia "festas" no clube, altas horas na noite, e que Will Shepherd participara de vrias delas 
como convidado.

- Existe alguma lista de nomes? - perguntou. - Quero dizer, nomes dos homens que freqentavam essas festas?

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O jardineiro-chefe ergueu e baixou os ombros largos.

- Se existe, nunca vi. Mas duvido que fizessem uma lista.

- Ento, diga-me alguns dos nomes. Que pessoas o senhor viu aqui, tarde da noite, quando o clube j estava fechado? Ora, J.C., diga, vamos.

Ele abanou a cabea, negando.

- No posso fazer isso. Se algum descobrir que falei, perderei o emprego. No era nem para eu saber, muito menos falar.

- Mas j me falou do sr. Shepherd.

- Estou tentando ajud-la, s que no posso ajudar tanto quanto a senhorita gostaria.

- Droga! Estou investigando um assassinato! O que o senhor sabe poderia salvar a vida de Maggie Bradford!

J.C. mexeu-se nervosamente na cadeira. Eu sei. E por isso que estou conversando com a senhorita. S no me pea para citar nomes. Isso eu no posso fazer!

Norma fuzilou-o com um olhar, o que no produziu efeito algum.

- Ento, pelo menos me mostre onde as festas aconteceram. Deixe-me dar uma olhada.

- Se eu fizer isso, srta. Breen...

- Se no fizer, terei de intim-lo a testemunhar no tribunal - ela ameaou.

tome isso! J.C. fez uma careta.

- S mostro a porta, ento. Se algum perguntar, diga que encontrou a sala sozinha.

- Negcio fechado. - Norma sorriu. - Leve-me at l.

264

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Os dois caminharam por uma trilha sinuosa que dava a volta no prdio, indo at os fundos, onde havia uma pesada porta de madeira que devia ser usada apenas pelo 
pessoal da manuteno. J.C. Frazier tinha a chave e abriu-a.

- Ento, a entrada  por aqui, hein? - comentou Norma.

Era frio e escuro naquele lado do prdio. Como os coraes pervertidos dos filhos da puta que vm aqui para se divertir, ela pensou.

O interior, porm, era comparvel ao que existia no resto do clube exclusivo. Ela e J.C. passaram por uma sala de bilhar deserta. Norma teve a impresso de que uma 
leve neblina flutuava no ar.

Entraram em um salo-bar extremamente elegante, com painis de mogno nas paredes. Norma adivinhou que o lugar era aquele. Um clube dentro do clube. O quarto de brinquedos 
dos meninos ricos.

- Era aqui que se reuniam, ento. Era aqui que faziam as suas orgias.

- Era, sim - J.C. resmungou, carrancudo. Norma quase podia ver os "meninos do clube", suas

roupas caras, o melhor usque, sua pose de homens todopoderosos, suas prostitutas. No sabia por que, mas sentia que aquela sala seria muito importante para a defesa 
de Maggie. Acreditava at na possibilidade de um dos scios do clube ter matado Will Shepherd.

Will teria comido a esposa errada? Teria fodido um daqueles poderosos em um negcio qualquer? Na opi

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nio de Norma, era bem possvel que ele houvesse sido assassinado por algo que fizera.

- Sirva-se de um drinque - ela disse ao jardineirochefe do clube Lake. - Depois sente essa bunda numa poltrona. Precisamos conversar. Ns vamos conversar.

- No posso.

Norma apontou um dedo para o homem, muito mais alto e forte do que ela.

- Escute, e escute bem. Maggie Bradford talvez at seja condenada, mas no vai ser porque voc escondeu a verdade. Ou me conta o que sabe, ou farei com que perca 
o emprego e muita coisa mais. Isto  uma ameaa que eu vou cumprir.

J.C. Frazier andou at o bar e serviu-se de uma dose de Maker's Mark.

- Escolheu bem - observou Norma. - Sirva uma dose para mim tambm. Depois, comece a contar quem fazia parte desse clube dentro do clube. Quero os nomes. Todos os 
que voc sabe.

O jardineiro-chefe entregou-lhe o drinque, ento sentaram-se ao balco do bar apainelado. Por fim, comeou a falar.

Quando acabou, Norma no podia acreditar no que ouvira. Simplesmente no podia acreditar. Cristo!

Tudo mudou, ela pensou. Meu Deus, o mundo todo ficou diferente. O inimigo dormiu. Peguei vocs, seus miserveis! Seus nojentos! Peguei vocs!

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Como ela cresceu, como sabe se comportar! J  quase uma mulher, pensei, vendo Jennie caminhar em direo ao banco de testemunhas para prestar seu depoimento.

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O rosto dela parecia brilhar. Os longos cabelos loiros cintilavam. Jennie se mostrava confiante e serena. Eu desejei poder dizer isso de mim mesma.

Nathan guiou-a com extremo cuidado, durante seu testemunho. Ela contou sobre Will ter ido a seu quarto, na noite fatdica. Explicou que ele estava parado aos ps 
da cama, olhando-a com cobia, quando eu entrei.

- "Jennie e eu amos nos divertir um pouco. Quer juntar-se a ns? Num mnage  trois?" Foi isso o que ele disse a minha me. No sei por que, mas disse - ela contou 
aos jurados, de um jeito que no havia como eles no acreditarem em sua sinceridade.

Ouvindo Jennie repetir as palavras de Will, fui dominada pela mesma raiva paralisante que me assaltara ento.

Estou contente por ele ter morrido, pensei. E horrvel, mas estou muito contente.

O depoimento de Jennie, pela defesa, no levou mais do que quarenta minutos. Aquele fora meu acordo com Na-than, e eu o fizera quase assinar com sangue o juramento 
de que no a foraria demais.

Assim que terminou de falar com ela, ele foi sentar-se perto de mim. Pegou minha mo, e apertei-lhe os dedos, cheia de gratido.

- Obrigada, Nathan, por ter pacincia comigo - murmurei.

- Obrigado por confiar em mim - ele murmurou de volta.

Os jurados continuaram impassveis; mesmo assim, pude notar que as mulheres pareciam ter ficado um tanto comovidas com o depoimento de Jennie.

Eu no matara em defesa prpria, mas para 267

defender minha filha. Agora eles sabiam. Jennie conseguira o que pretendera.

Infelizmente, ainda faltava a pior parte. Dan Nizhinski aproximou-se lentamente do banco de testemunhas.

Baleia assassina, pensei. Pronta para devorar um peixe indefeso. Nizhinski est fazendo isso para ficar famoso.  s o que o julgamento significa para ele: fama 
instantnea, celebridade.

- Srta. Bradford... Jennie - ele comeou suavemente, quase em tom de quem pedia desculpas.

- Por favor, no me chame pelo meu primeiro nome i

- Jennie pediu, sustentando o olhar dele sem vacilao.

- O senhor no me conhece, dr. Nizhinski.

O promotor suspirou. Um ponto para Jennie.

- Tem uma grande amiga chamada Millie Steele? - ele perguntou, depois da mais breve das pausas.

Era duro tirar Dan Nizhinski da jogada, pensei.

- Tenho - respondeu Jennie, parecendo surpresa com a pergunta.

-  sua melhor amiga, no ? - o promotor insistiu em tom gentil.

Achei que ele estava sendo delicado demais.

Jennie hesitou, ento moveu a cabea, concordando. Eu quase via sua mente funcionando, tentando descobrir aonde ele queria chegar com aquelas perguntas.

- Precisa responder verbalmente, srta. Bradford - o juiz Sussman informou. - Millie Steele  sua melhor amiga?

Nathan Bailford levantou-se lentamente de nossa mesa.

- Protesto, meritssimo. No vejo o que a amizade da srta. Bradford com a srta. Steele possa ter a ver com este caso. Devo lembrar a todos que Jennie Bradford s

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tem quinze anos. O depoimento que est prestando, sem falar no julgamento,  uma experincia tremendamente penosa para ela. No devemos prolong-lo inutilmente.

- Meritssimo, os jurados logo sabero a que levam minhas perguntas - Nathan explicou. - No so inteis. Trata-se de um ponto muito importante.

- Prossiga - concedeu Sussman. - Mas o ponto tem de ser realmente importante. Trate a testemunha com gentileza e seja rpido.

Nizhinski aproximou-se mais de Jennie, e eu me encolhi em minha cadeira. No gostei nem um pouco daquela atitude e pude ver que ela tambm no gostara.

- Conversa muito com Millie Steele? Na escola? s vezes, depois das aulas?

- Sim, senhor. E antes das aulas tambm - Jennie respondeu com um sorriso.

Os jurados sorriram. Mas era fcil, para mim, notar que ela estava intrigada. Para onde Nizhinski a estava guiando?

Cuidado, Jennie!, tive vontade de gritar.

- Mente para a sua amiga, srta. Bradford? Lembra-se de alguma vez ter mentido para ela?

- No. Millie e eu no mentimos uma para a outra.

- Ento, oua o que vou dizer, Jennie. No dia treze de outubro, sua melhor amiga, Millie Steele, fez uma declarao na delegacia de Bedford Hills.

Nizhinski fez uma pausa e abriu a pasta grossa que tinha nas mos. A pasta preta de couro era intimidadora pela espessura e aparncia severa.

- Oua o que Millie declarou - ele continuou. - "Jennie estava apaixonada pelo padrasto. Muitas vezes ela me disse que gostaria... que gostaria... bem, de ir para 
a cama com ele, e que faria de tudo para seduzi-lo."

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Fechou a pasta com suavidade.

- Jennie, voc disse a Millie que estava apaixonada por Will Shepherd? - indagou.

O que esse miservel est fazendo com ela?, pensei, sentindo o estmago contrair-se.

- Disse, mas... - Jennie hesitou, tentando responder  pergunta.

- Responda apenas "sim" ou "no", por favor. Estava apaixonada por seu padrasto?

Ele est torturando minha filha Precisa ser detido!

- Nathan... - cochichei.

- Espere, Maggie. E escute.

- Sim, eu sentia paixo por Will.

- Tentou seduzi-lo?

- No, realmente.

- Isso no  resposta, srta. Bradford. Tentou seduzilo? Sim ou no?

- Sim, de certa maneira. Foi para a cama com ele?

- No! O senhor  uma pessoa horrorosa! - Jennie gritou. No!

No! Graas a Deus! Agora, deixe Jennie em paz.

- Ento, onde fez amor com ele? Millie Steele afirma que voc fez!

- Will e eu nunca fizemos amor!

- Perdo, mas  difcil de acreditar.  uma jovem muito atraente, Jennie. Will Shepherd era muito sensvel a jovens bonitas. Ouvimos isso uma infinidade de vezes 
neste tribunal. Est me dizendo que seu padrasto a rejeitou, mesmo voc atirando-se para cima dele? No  o que a reputao de Will Shepherd nos leva a crer!

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Jennie comeou a chorar. Seus soluos eram o nico som que se ouvia no recinto. Voltara a ser uma menininha.

- Nathan, por favor! - implorei.

Implacvel, Dan Nizhinski chegou ainda mais perto de Jennie.

- No  verdade que voc era amante de Will Shepherd havia vrios meses, quando ele foi assassinado? Assim, a alegao da defesa, de que sua me o matou para defend-la, 
cai por terra. No fica evidente que ela o matou por vingana?

- Eu no me atirei para cima dele! - Jennie exclamou. - Will nunca me tocou! Nunca fez nada indecente, como o senhor est fazendo agora!

Nizhinski recuou um passo e encarou-a.

- Sabe o que significa "perjrio"? Ela moveu a cabea afirmando.

- Responda verbalmente, por favor. O estengrafo do tribunal no pode registrar um gesto de cabea.

- Sim, eu sei - ela respondeu com um fio de voz.

- Sabe qual  a penalidade por perjrio?

- No, de modo exato. Vai me mandar injustamente para a priso, como fez com minha me?

- A penalidade por perjrio pode mesmo significar cadeia, mas sua me no foi mandada para a priso injustamente, srta. Bradford. Ela matou Will Shepherd porque 
pensou que voc e ele estavam tendo um caso.

Nathan levantou-se impetuosamente.

- Protesto, meritssimo! Protesto!

- No tenho mais perguntas - declarou Dan Nizhinski, afastando-se de Jennie.

A sala pareceu entrar em erupo a nossa volta. Levou

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minutos para que as marteladas do juiz Sussman conseguissem impor silncio.

Jennie foi retirada do banco de testemunhas. Estava chorando. Estendi minhas mos, querendo toc-la, mas, claro, no podia.

- Est tudo bem, mame - ela afirmou. - Ningum vai nos magoar. Ningum pode nos magoar outra vez.

Eu apenas desejava que aquilo fosse verdade.

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No tribunal, Norma Breen mastigava Rolaids deliciosos, com sabor de laranja, enquanto ouvia as consideraes de encerramento. Guardava um segredo, uma verdadeira 
bomba, e precisava morder a lngua para impedir-se de revel-lo.

Talvez a defesa possa virar essa bosta de julgamento de cabea para baixo, ela pensava, sentada na ltima fileira. Quem sabe, apesar de todas as provas, Maggie seja 
absolvida. Talvez o jri consiga compreender que ela foi obrigada a matar e a absolva. Ou, pelo menos, d o mais suave dos veredictos, a pena mais leve dentro do 
que a lei prescreve. Assim como Mel Gibson pode vir me convidar para sair com ele, enquanto estou aqui, com minha bunda enorme acomodada nesta cadeira. Nunca se 
sabe, no ?

Norma decidira que a melhor estratgia era esperar pelo veredicto. E, enquanto ouvia a refutao de Nathan Bailford, sentiu uma centelha de esperana acender-se 
em seu corao.

Maggie  uma boa pessoa, dirigiu-se mentalmente aos jurados. Sejam justos, t?

Em sua rplica, Nathan interpretou os fatos to habil

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mente, que Norma teve a impresso de que Maggie era a vtima, e Will, o assassino.

No entanto, o advogado de defesa no podia mudar o fato de que Will Shepherd estava morto, e Maggie Bradford, viva. Tambm no podia responder a uma pergunta muito 
importante: se no fora Maggie, quem, ento, matara Will?

O promotor levantou-se e rotulou a defesa de Nathan de "cortina de fumaa". Homicdio era homicdio. No havia outro nome. Aquele fora um assassinato motivado por 
uma nica coisa: desejo de vingana. E, como Maggie pegara a arma e entrara com ela no quarto da filha, o assassinato fora premeditado e merecia a pena mxima. Priso 
perptua.

Apesar de tudo isso, h algo totalmente errado neste julgamento, ponderou Norma, falando consigo mesma.

Continuava inquieta, com aquela profunda sensao que a assaltara logo no incio. Maggie no matara Will Shepherd. Norma estava convencida disso. Will cometera suicdio. 
Ameaara matar-se durante anos, de acordo com Maggie, e at mesmo com Palmer. Aquela fora sua ltima e terrvel vingana contra Maggie.

Se Maggie houvesse testemunhado, provavelmente um motivo para isso emergiria. Mas Norma concordara, embora com relutncia, que tal estratgia seria um erro. Devia 
continuar valendo o depoimento que ela fizera  polcia, de que no sabia o que acontecera, de que nem tinha certeza de haver matado Will. Norma, porm, continuara 
com dvidas e estava comeando a suspeitar de tudo sobre o trabalho da defesa. De tudo.

Bem, era tarde demais para isso. Nathan Bailford acabou sua declarao de encerramento e sentou-se pesadamente.

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O drama que se arrastara por quarenta e seis dias finalmente chegara ao fim.

Era quase impossvel ler, no rosto dos jurados, o que lhes passava pela mente.

Contudo, Norma adivinhava que Maggie Bradford iria ser condenada por assassinato.

A, ento, ela poderia soltar sua bomba, e a verdadeira exibio de fogos de artifcio comearia.

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- Sempre confiantes! Eles nem chegaram perto, fs do esporte! Aos vencedores! A ns!

Dan Nizhinski reclinou-se na poltrona e tomou um grande gole de cerveja, sorrindo para seus trs assistentes.

- Aos vencedores! - o grupo entoou.

- O que tivemos? - Nizhinski perguntou, como se no soubesse a resposta. - Um recorde? O mais rpido veredicto de todos os tempos num caso de assassinato?

- Nem tanto, mas voc fez um grande trabalho, Dan - Moira Lowenstein, sua mais jovem assistente, respondeu. - Obrigou o jri a livrar-se das emoes e ver com frieza 
o que realmente aconteceu. Uma verdadeira faanha. Fez os jurados compreenderem que, se a absolvessem, estariam subvertendo todo o nosso sistema judicirio.

- Eu no conseguiria isso, se no fosse por vocs - Nizhinski declarou.

Mas no estava sendo sincero, e seu tom de voz implicava que ele sabia que teria sido bem-sucedido, mesmo sem nenhuma ajuda.

- O que pretende fazer agora, chefe? - perguntou

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Bob Stevens, o assistente mais ntimo, abrindo sua quarta lata de cerveja em menos de uma hora.

Nizhinski sorriu. Ainda estava representando. No podia impedir-se.

- Para ser franco, ainda no decidi. O julgamento colocou meu nome em evidncia, tenho de admitir, e isso no me far nenhum mal.

- O Estado est precisando de uma boa faxina - comentou Moira.

Peter Eisenstadt, o mais calado dos trs assistentes, lanou-lhe um olhar irnico.

Adivinhe quem vai para Albany, agarrada na sua cala, chefe?

- Decidirei na hora certa - disse Nizhinski. No era segredo, porm, que ele pretendia candidatar-se a um cargo muito alto. - Por enquanto, vamos aproveitar o momento 
de glria. Ergueu a lata de cerveja. - A uma grande vitria!

-  vitria - os companheiros ecoaram.

Todos riram, beberam e congratularam-se mutuamente.

Ento, o telefone tocou.

O prprio promotor ergueu o fone.

- Al.

- Promotor Nizhinski?

- Ele mesmo.

- Kahn - o interlocutor identificou-se. - Barry Kahn. O promotor captou algo na voz do homem que o fez gelar.

- Norma Breen e eu estamos indo ao seu gabinete - continuou Barry Kahn. - Ela descobriu algo que deve interess-lo.

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Culpada.

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Culpada.

A palavra soava em minha cabea sem cessar, como uma ladainha religiosa. No. Era mais um canto fnebre.

Culpada! vou enlouquecer na priso! J estou meio louca.

Norma e Barry vieram me ver, assim que fui trazida de volta, depois do veredicto. Estavam sorridentes e cheios de segredinhos. Disseram para eu no me preocupar, 
que entrariam imediatamente com um recurso de apelao no Tribunal Superior e que tudo iria acabar bem.

Como  possvel? Passar a vida na cadeia no  "acabar bem".

Eu sabia que existiam as tais de apelaes, assim como sabia como funcionavam. Meu destino continuaria incerto por meses, possivelmente anos. E sabia que as chances 
de uma reverso eram mnimas, no importava o que pudessem dizer. Eu praticamente no tinha chance alguma.

Ento, por que Norma estava to esperanosa e animada? Por que Barry continuou a pressionar para eu me lembrar de tudo o que havia acontecido na noite em que matara 
Will, quando j repeti a mesma histria centenas de vezes? Resposta simples: tentavam fazer com que eu parasse de pensar no veredicto que acabara de ouvir.

Culpada.

O A escarlate continuava gravado em meu peito.

Acho que nunca esperei realmente aquele desfecho. O tempo todo, tivera a esperana de sair livre. No sa.

Culpada. , -,

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Naquela noite, fiquei acordada at duas, trs horas da

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madrugada. Deitada, de olhos fechados, mas sem poder conciliar o sono, tentei, inutilmente, recapturar imagens perdidas de minha vida fora da priso. Pensei em Jennie, 
Allie, nos shows que dera. Por fim, o cansao venceu a frustrao, e adormeci.

No sonhei. Era como se houvesse cado no nada. A longa queda, para longe do estado de graa, continuava. Um abismo sem fundo.

Acordei assustada.

Uma fila cinzenta de policiais alinhava-se diante da minha cela, encabeada pela diretora do presdio, Maureen Serra, em pessoa.

Olhei para o relgio.

Eram seis e quinze da manh.

Eu no entendia o que estava havendo.

Pisquei, pisquei, pisquei.

A diretora Serra e os outros continuaram l.

O que esto fazendo aqui? O que aconteceu?

Eu iria ser removida para outra priso?

Estava mesmo acordada, via de fato o que achava que estava vendo? Talvez no. No seria a primeira vez, naquele lugar, que eu fundia um sonho com a realidade.

Diretora Serra?

Todos esses policiais?

- No  um pouco cedo? - finalmente perguntei. Lentamente, meus olhos acostumavam-se  luz crua

do corredor.

- Por favor, sra. Bradford, vista-se - Maureen Serra pediu. - Recebemos um telefonema do tribunal. O juiz Sussman deseja v-la em seu gabinete, imediatamente 277

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Eu sentia frio e tremia da cabea aos ps, quando trs guardas guiaram-me atravs do prdio do tribunal, totalmente deserto quela hora. No conseguia entender o 
que estava acontecendo. O pessoal do presdio tambm no entendia.

O que quer dizer tudo isso? Por que o juiz mandou me chamar?

Havia quatro pessoas no gabinete, quando cheguei. O juiz Sussman encontrava-se sentado atrs de sua grande escrivaninha de mogno. Acomodado  direita da mesa, Na-than 
Bailford tinha expresso sombria, mas, como sempre, emanava uma aura de pessoa bem-sucedida.

Barry, sentado na beirada de um sof de couro,  esquerda, piscou para mim, mas no sorriu.

Norma Breen, acomodada ao lado de Barry, no sof, usava saia verde de tweed e volumoso suter marrom, e era a nica que parecia descontrada.

- Ol, Maggie - ela me cumprimentou.

- Ol, Norma. - Olhei em volta e murmurei: - Bom dia para todos.

Ningum respondeu.

Fui dominada por uma impresso de irrealidade, como se estivesse sonhando. Em nome de Deus, o que significava tudo aquilo?

Havia uma cadeira vazia perto de Sussman, e ele convidou-me a sentar, indicando-a com um gesto. Sentindo a mente anuviada, sentei-me.

Do lugar onde estava, tinha a mesma viso que o juiz, dos rostos de Nathan, Barry e Norma. Era como se eu

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houvesse passado de r a participante de uma equipe judicial. Gostei bastante daquilo.

Fechos de pastas estalaram, abrindo-se. Papis farfalharam. Tampas de copos de caf foram removidas.

As pastas, os papis e o caf comprado em uma lanchonete qualquer fizeram-me perceber a diferena que havia entre mim e aquelas pessoas. Elas eram livres, no levavam 
uma vida igual a minha.

Ningum ainda falara comigo, a no ser Norma. Nem mesmo Nathan Bailford. Pareciam  espera de algum. Dan Nizhinski? Uma outra pessoa? Quem?

Eu queria que algum me dissesse por que haviam me levado l. Talvez, assim, eu conseguisse parar de tremer. Minha mente corria em disparada, torturando-me.

- Sra. Bradford, a srta. Breen conseguiu algumas informaes surpreendentes - o juiz Sussman anunciou, finalmente falando comigo. - S estamos esperando o promotor 
pblico. Ah, a est ele. Entre, Dan.

Nizhinski entrou na sala como um toureiro adentrando a arena, ereto, expresso feroz, sem medo de nada, nem de ningum. Pensei em uma frase de Norma sobre ele: "Um 
chato de primeira".

Ele olhou diretamente para Nathan Bailford, comeando a andar, inquieto.

- Qual a finalidade desta reunio? Se acha que pode reverter o veredicto por causa de algum detalhe tcnico...

- De forma alguma se trata de um detalhe tcnico - o juiz interrompeu-o. - Conte sua histria, srta. Breen. Por favor, Dan, sente-se. Acho que vai preferir estar 
sentado, daqui a alguns minutos.

Norma levantou-se vagarosamente, olhou para mim, ento para Dan Nizhinski, que parar de andar e a ob

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servava desconfiado, no mais to parecido com um toureiro confiante.

Quando Norma comeou a falar, foi com voz segura, em tom de comando. Era sua vez de ficar sob os refletores.

- Voc deve se lembrar, Maggie, do testemunho de Peter O'Malley durante o julgamento. Ele falou de "festas" privativas, tarde da noite, no Lake Country Club, onde, 
acredito, voc ia para jantar de vez em quando, como convidada. S que voc jantava no clube respeitvel, naturalmente.

Concordei com um gesto de cabea, ainda sem imaginar aonde Norma queria chegar.

- Foi l que conheci Will - declarei. - Eu s ia como convidada, porque, sendo mulher, no podia ser scia.

- Desculpe - Dan Nizhinski atalhou, impaciente. - O que isso tem a ver com o julgamento da sra. Bradford? Ela matou o marido. O jri chegou a essa concluso e a 
condenou. Est tudo acabado, srta. Breen.

- Tem tudo a ver com o julgamento - afirmou Norma. - A nova prova revela quem participava das orgias no clube, como scio, quem ia como convidado e tambm sugere 
que muita gente teria motivo para matar Will Shepherd. Temos prova de que o sr. Shepherd era muito indiscreto a respeito dessas festas, assim como era indiscreto 
sobre muitos aspectos de sua vida. Parece que houve um srdido acobertamento da verdade no julgamento, para proteger scios do Lake, escondendo os motivos que qualquer 
um deles pudesse ter para matar Will Shepherd.

- Ento, essa prova deveria ter sido apresentada no julgamento. Agora  tarde demais. O veredicto j foi dado - declarou Nizhinski, novamente seguro como um toureiro.

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Eu via a tenso no rosto dos quatro homens, e minha prpria garganta estava apertada e seca. Meu estmago contrara-se, endurecendo. Apenas Norma, que se arvorara 
em promotora, parecia calma.

- vou expor minha opinio, que tambm  a opinio do promotor geral do Estado de Nova York - ela preludiou. - Acreditamos que Maggie Bradford pode ter sido vtima 
de um acobertamento elaborado e perverso da verdade, do qual o chefe de polcia de Bedford tem conhecimento e que, talvez, at tenha instigado.

- Protesto! - gritou Dan Nizhinski.

- Deixe-a terminar - disse o juiz, que parecia estar apreciando a situao tanto quanto Norma.

- Pessoas importantes, lderes industriais e banqueiros foram protegidos contra investigaes policiais - ela continuou. - Possivelmente, at contra processos criminais, 
aqui em Bedford.

Trocou um olhar com o promotor pblico.

- Por favor, dr. Nizhinski, no faa ainda essa cara de quem est passando mal - recomendou. - O negcio vai ficar muito pior!

Agora ela era uma atriz, uma estrela no palco. Nenhuma platia lhe prestaria maior ateno.

- Tem razo num ponto, dr. Nizhinski - concedeu. - Tudo isso no teria nada a ver com o julgamento de Maggie Bradford, se no fosse por algo muito importante: o 
advogado de defesa de Maggie sabia desses fatos que estou relatando, mas no os usou para defender sua cliente porque no podia divulg-los.

Norma fez uma pausa.

- Sabem por qu? Porque ele, Nathan Bailford,  um dos scios do clube secreto! u

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Bastou um olhar para o rosto contorcido e acinzentado de Nathan, para eu saber que Norma estava certa. A aparncia dele era prova de sua culpa. Meu advogado, meu 
amigo. Ele se levantou abruptamente, gritando, ultrajado, mas eu vi mentira atrs de suas palavras. Vi a traio em seus olhos, o egosmo, a maldade do que ele fizera.

- Juiz Sussman, essas so as mentiras mais vergonhosas, as mais torpes fantasias induzidas por drogas que j ouvi. No posso acreditar nos meus prprios ouvidos 
- ele gritou.

- No, no so mentiras, Nathan - retrucou Norma.

- Tenho testemunhas: o jardineiro-chefe e dois dos porteiros do Clube Lake. Tambm tenho uma declarao juramentada de um scio do "clube dentro clube", um dos seus 
amigos.

Apontou para ele, que recuou, como se sassem balas de revlver do dedo dela.

- Que Deus... - Norma comeou e interrompeu-se.

- No. Que Maggie e os pobres filhos dela o perdoem. Eu no posso. Voc se desgraou, e tambm sua j desgraada profisso. Ajudou a condenar uma mulher inocente. 
Meu Deus, Nathan, espero que o condenem a cem anos de priso. Pode fazer isso, juiz Sussman?

Fiquei sentada, imvel, as mos segurando com firmeza os braos da cadeira. Minhas faces ardiam, e ondas de vertigem iam e vinham, ameaando me derrubar.

Agente firme, disse a mim mesma. Mantenha-se calma. Est mesmo acontecendo. No  um sonho. Voc

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no voltou para a cela do presdio. Continua aqui, no gabinete do juiz. Tudo  real.

Ento, de repente, vi-me nos braos de Norma e Barry. Tremia feito louca. Ns trs chorvamos.

- No est sonhando, Maggie - disse Norma, como se lesse meus pensamentos. -  tudo verdade. Ficamos at muito tarde da noite com o promotor geral do Estado, do 
contrrio teramos avisado voc do que iria acontecer.

Continuamos abraados por um longo tempo. No sei descrever direito o que se passava dentro de mim, mas sei que nunca havia experimentado um alvio to grande. Estava 
fora de mim, completamente eufrica, mas tinha conscincia do que acontecera.

-  bvio que terei de declarar que o julgamento foi incorreto - Sussman disse a Nizhinski, sua voz penetrando minha mente alterada. - Voc pode querer dar incio 
a outro, porque nada do que ouvimos elimina o fato de que Will Shepherd foi assassinado, nem anula a declarao que a sra. Bradford fez  polcia, admitindo ter 
atirado nele. Ela precisar de tempo para contratar outro advogado e ter sua defesa preparada, talvez baseada numa estratgia diferente. Ento, Dan, o que decide?

Nizhinski estivera mudo at aquele instante. Continuou calado por vrios segundos.

- Tudo isso foi... bem, foi um choque - conseguiu dizer por fim. - No sei que deciso vou tomar, meritssimo. Preciso de tempo para pr minha cabea em ordem.

- Quando isso acontecer, avise-me - disse Sussman. Barry adiantou-se para falar com ele.

- No sou advogado, de modo que no conheo as

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palavras legais, meritssimo. Mas o senhor acha que poderia dar permisso para a sra. Bradford ir para casa?

Sussman virou-se para me olhar.

- Ela est em liberdade condicional - declarou formalmente.

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Como disse o iogue Berra, "foi novamente um dj v u". Mas tinha de ser desse jeito. Aquele era nosso sistema judicirio em toda sua glria.

Meses haviam passado. O segundo julgamento estava prestes a comear e provavelmente seria mais desalentador do que o primeiro. O Estado ainda me acreditava culpada 
de assassinato, e, porque insistia em me julgar novamente, muita gente achava que tambm tinha esse direito.

Eu ainda no me livrara do A escarlate. Minha sensao era de que grandes lascas de minha vida estavam sendo retiradas de mim a martelo e cinzel. Talvez estivessem. 
E eu me sentia ferida.

Cheguei ao tribunal com Jennie, Barry e Norma. Esses dois formavam um par esquisito, mas delicioso de ver. O que mais me surpreendia era que eles no se mostravam 
muito rabugentos, quando estavam juntos.

Assim que entramos, caminhei com firmeza para uma conhecida cadeira,  mesa da defesa. Meu novo advogado era Jason Wade, de Boston, um criminalista perito em casos 
de homicdio, muito prtico. Eu gostava dele. Mais importante ainda: ele no era Nathan Bailford, que se tornara figura permanente em meus pesadelos.

Estranho, estranho, estranho demais.

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- Maggie est com tima aparncia! - uma das espectadoras comentou bastante alto para eu ouvir.

Maggie. Como se ns duas fssemos grandes amigas.

- Est mesmo - concordou Jennie, cochichando em meu ouvido. - Voc est fantstica, mame.

Tudo entre ns voltara a ser como nos velhos tempos, s que melhor. Jennie era uma daquelas pessoas raras com quem se podia passar uma noite inteira, apenas conversando, 
sem ter vontade de dormir. Eu fizera isso na noite anterior. Allie ficara acordado at depois das dez, participando da conversa. A JAM estava reunida novamente.

O julgamento arrastou-se por onze semanas. Afinal, o dinheiro de nossos impostos estava aparecendo! As mesmas pessoas prestaram quase que os mesmos depoimentos, 
embora a inquirio seguisse um rumo diferente.

A sala de julgamentos foi se tornando cada vez mais quente,  medida que o vero progredia, mas eu no me importava com o calor, no me importava com a repetio 
das perguntas e respostas, a notoriedade e o constante assdio da imprensa no me incomodavam.

Eu queria ser declarada inocente. Mais do que tudo no mundo, queria sair do purgatrio no qual vivera por tanto tempo.

Eu no era culpada. Tinha certeza disso.

Eu era inocente.

Daria qualquer coisa para ouvir essas palavras pronunciadas apenas uma vez.

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Inclinei-me para a frente, a fim de no perder nenhuma das palavras que ecoavam na lotada sala de julgamento.

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De repente, no consegui respirar bastante fundo para levar ar aos pulmes. Era como se um pano seco e embolado bloqueasse minha garganta. A claustrofobia atacava 
novamente.

Os rostos das pessoas comearam a ficar indefinidos, como que borrados. O sangue martelava em meu crebro, e o suor ensopava-me a nuca.

Os doze jurados estavam entrando no recinto pela ala direita, caminhando em fila, lentamente.

Outra vez.

Haviam chegado a um veredicto.

Outra vez.

No pude respirar, quando o presidente do jri entregou o papel dobrado ao juiz Sussman.

Ele leu o veredicto apenas para si mesmo, ento devolveu o papel ao homem. Esse procedimento devia ser necessrio, pensei, mas era cruel.

- Anuncie o veredicto - o juiz instruiu.

- Ns todos amamos voc, mame - Jennie, sentada atrs de mim, sussurrou.

Norma passou um brao pelos meus ombros. Barry, da fileira de trs, afagou-me os cabelos. Minha famlia, meus amigos. Eu no podia nem pensar em deix-los novamente, 
mas havia a possibilidade de isso acontecer.

Naquela manh, a opinio do USA Today pendera para uma absolvio. As pessoas, at em Ls Vegas e Londres, faziam apostas sobre o resultado do julgamento.

Minha boca parecia cheia de algodo, e um entorpecimento geral me dominava. Estava naquela sala, mas, de certa forma, era como se no estivesse.

O presidente do jri comeou a falar. Sua voz era alta e clara, no entanto parecia muito distante, como se exis

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tisse uma parede entre o lugar onde ele estava e o resto da sala. No se ouvia nenhum outro som.

- Declaramos a acusada, Maggie Bradford, inocente. Inocente.

Inocente.

Senti-me to cansada e fraca que fui obrigada a fechar os olhos por um instante. Contudo, de modo estranho, por alguma razo, no experimentei alvio completo. Percebi 
vagamente os aplausos e gritos dos que me cercavam. Pessoas me abraavam, congratulando-se comigo: Jason Wade, Norma, Jennie e Barry. Seus rostos flutuavam diante 
de meus olhos como enormes bales de gs. O barulho era to confuso quanto as imagens. Tudo me parecia incrivelmente estranho.

- Oh, Maggie, voc conseguiu! Voc venceu! Como aquele momento de vitria podia ser to confuso

para mim?

Fui levada para fora da sala em tumulto, agasalhada no ninho formado por advogados, amigos e meus adorados filhos. Fs e o pessoal da imprensa nos cercaram. Microfones 
quase me tocavam, reprteres gritavam perguntas. Pessoas imploravam autgrafos em uma ocasio to imprpria.

Jason Wade teria de lidar com a imprensa. Era meu advogado e podia responder s perguntas. Que desse os autgrafos tambm.

Fui literalmente empurrada, como se tivesse roda nos ps, atravs do vestbulo cavernoso, pela escadaria externa, at um carro a nossa espera. No era uma limusine, 
mas um automvel comum. Eu fizera questo disso.

Sobressaltei-me, apavorada, ao ouvir algo que me representou um tiro de arma de fogo. Uma dor aguda perfurou meu corao. Mas fora apenas a porta do carro que batera, 
fechando-se.

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Ento o veculo "comum" comeou a mover-se lentamente, abrindo caminho por entre a multido que estivera ali, esperando para me ver, fosse eu absolvida ou condenada. 
Batedores iam  frente, e uma escolta de viaturas policiais nos cercava, as sirenes uivando, as girantes luzes vermelhas lanando reflexos nos rostos dos curiosos.

Lembrei-me do carro da polcia militar que me levara, em West Point. As luzes do topo tambm giravam, tambm eram vermelhas, mas no se refletiam nos rostos dos 
curiosos, porque no havia nenhum. E fazia muito frio. Lembrei-me de vrias cenas que se repetiam naquele momento, ali em Bedford.

Fiquei olhando pela janela. O povo que formava a enorme multido enchia as ruas Broadway e Clarke e parecia estar aplaudindo e gritando meu nome, mas eu continuava 
confusa e no posso dizer com certeza.

Mantive Jennie e Allie abraados contra mim, incapaz de solt-los. Eles tambm no me soltavam. A JAM reunira-se novamente: Jennie, Allie e Maggie.

- Eu te amo tanto, mame! - minha filha murmurou, beijando-me no rosto. - Voc  minha herona de armadura brilhante.

- E voc  a minha - respondi.

- Mame... - disse Allie, apertando-me com mais fora. - Minha mame.

- Allie. - Beijei-lhe o topo da cabea. >- Mefi Allie e minha Jennie.

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- Maggie! Maggie Bradford! - gritou a multido de idiotas, aplaudindo, quando o carro dela passou.

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O assassino batia palmas e gritava tambm, fingindo o mesmo prazer dos outros.

Escondido no meio do povo que enchia as ruas de Bedford, ele observava.

Bem escondido.

Ficou olhando o carro de Maggie Bradford passar e depois desaparecer, virando a esquina.

Ento, tambm desapareceu.

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LIVRO SEIS

ESCONDE-ESCONDE - OUTRA VEZ

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Fifth Avenue. Pscoa. Nova York. Cidade deliciosa, certo? No havia lugar melhor para algum estar.

As mulheres mais lindas do mundo desfilavam pela avenida. Enfeitadas, empinadas, fazendo compras com grande entusiasmo.

Todas prontas para serem comidas, pensou Will. Qualquer uma delas serviria para uma transa. Certas coisas nunca mudam. S ficam melhores.

Caminhava sem pressa, pois estava adiantado para a entrevista. Vestia cala caqui e blazer azul-marinho. Os cabelos tingidos de preto estavam curtos e cuidadosamente 
penteados.

O Flecha Negra, Will pensou, esboando um sorriso.

Algumas mulheres lanavam-lhe olhares de admirao, o que era inevitvel. Ele no perdera muito de sua beleza. Talvez at tivesse ficado mais bonito. Moreno e misterioso, 
certo? Exatamente o tipo de amante que povoava as fantasias de muitas mulheres.

Na Fifty-ninth Street, virou para leste, na direo do Central Park, ento rumou para o norte, dirigindo-se 

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Sixty-second Street, onde desapareceu em um edifcio de esquina, castanho-amarelado, em estilo art dco.

Comprou balas de hortel na banca de jornais do vestbulo e olhou-se no espelho para examinar a aparncia.

Barba preta bem aparada, olhos azuis - as lentes de contato davam um toque muito especial, excelente mesmo -, gravata perfeita, da Liberty de Londres, blazer chique. 
Tudo correto para um encontro to importante quanto o daquele dia.

Ento, tomou o elevador, subiu ao dcimo segundo andar e encontrou o escritrio que estava procurando: Marshall e Marshall, Advogados.

Empurrou a porta escura de carvalho. Entrou, surpreendendo-se agradavelmente com a vista descortinada pela parede feita de painis de vidro. L embaixo, a rua fervilhava. 
Tudo muito impressionante e exagerado, bem do jeito americano.

A recepcionista da firma era descendente de irlandeses, a julgar pela aparncia. Uma garota sorridente, de pele clara como alabastro, cabelos castanhos, desabrochando 
lindamente em seus vinte e poucos anos. De primeira classe, fina. Como a firma que a empregava.

E altamente decorativa, pensou Will.

Com um gesto displicente, pousou a pasta Mark Cross na mesa da moa.

- Boa tarde, senhor. Posso ajud-lo em alguma coisa? - ela perguntou.

Era mais do que agradvel. No se irritou por causa da pasta que invadira seu espao. Ou, talvez, como boa descendente de irlandeses, soubesse esconder as emoes.

Will sorriu com moderao, mas, como sempre, de modo sedutor, o charme intato.

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- Tenho entrevista marcada com o dr. Arthur Marshall. Consulta a respeito de uma herana.

- Pois no, senhor - a moa disse, tentando no ficar encarando o bonito ingls de p a sua frente. - A quem devo anunciar?

- Palmer Shepherd - respondeu Will.

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Olhei em volta, observando o ambiente familiar de nossa sala de estar, e sorri amplamente, quase me desmanchando em risinhos excitados. Oh, cara!

Eu no podia querer coisa melhor. E no havia nada mais importante do que aquilo. A festa!

Doze meninos e meninas, amiguinhos de Allie do jardim de infncia, tinham ido a nossa casa para comemorar o quinto aniversrio dele. Nenhuma das crianas recusara 
o convite. Todas estavam l, e isso significava muito para mim e, naturalmente, mais ainda para Allie.

Era uma festa  boa moda antiga, planejada por mim e Jennie. Promovemos jogos, distribumos chapus ridculos, havia um bolo de aniversrio, lembrancinhas para todas 
as crianas e muitos presentes para Allie, o "Menino Maravilha".

Tudo estava correndo perfeitamente bem. Barry e Norma tinham aparecido para ajudar. Todos ns j havamos dado boas risadas e nos divertido bastante. O nico acidente, 
uma coliso entre duas crianas, no tivera a menor gravidade. At o momento, nenhuma lgrima fora derramada.

Allie aproximou-se de mim e, fazendo um gesto com a mo, pediu para eu me abaixar.

Ajoelhei-me para ficar de seu tamanho, no nvel de

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seu mundo. Nossos rostos aproximaram-se e, como sempre, Allie pegou uma mecha de meus cabelos, torcendo-a entre os dedos.

- Sabe de uma coisa, mame? - Os olhos dele no podiam ter um brilho mais maravilhoso. - Sabe?

- O qu? Ter de me dizer, porque no sei. O bolo  grande demais para voc comer sozinho? Muito bem,  s dividi-lo com os seus amigos.

Allie riu. Sempre ria de minhas piadas, assim como eu ria das dele.

- No  isso. S quero dizer qual  a coisa melhor. A coisa melhor, mame,  que voc est aqui.

Foi o momento mais lindo, na mais alegre da festa. De repente, eu me peguei chorando, feliz demais por poder estar ali, comemorando o aniversrio de meu filho.

- Eu sabia que no iria demorar muito para algum comear a chorar - comentei com Allie.

Ele me abraou e beijou, me consolando, querendo me fazer sentir bem.

Mas eu j estava me sentindo muito bem.

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Notando meu bom humor na festa de aniversrio, Barry, o Manipulador, aproveitou a ocasio para tentar me convencer a ir a Nova York e, claro, ao seu estdio. Ento, 
teve uma surpresa, porque afirmei que iria. Estava pronta para ser um pouco manipulada novamente.

Quando cheguei ao seu escritrio, encontrei-o exageradamente excitado, do jeito que costumava ficar quando acabava de escrever uma boa msica ou fechava um negcio 
especialmente lucrativo.

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- Estou ficando assustada - declarei, rindo. - Voc est feliz demais

Ria com facilidade, agora. Tudo me parecia bom, eu vivia alegre, era livre. Deus, eu era livre!

- Andei maquinando umas coisas - ele contou, quando nos sentamos junto ao piano. - Que envolvem voc.

Meu humor estava to bom quanto o dele. No. Melhor.

- Obrigada, mas no, obrigada.

Barry ignorou minha resposta completamente.

- Vai haver um grande show em Rhinebeck, Nova York, em julho - informou.

- Barry, eu leio jornais. No me tornei uma ermit. Bedford fica a menos de quarenta e cinco quilmetros de Manhattan, esqueceu? A resposta, infelizmente,  "no". 
Mas fico agradecida do mesmo modo.

- Sero dois dias de divertimento ao sol. Conheo os promotores, e eles so gente fina. J confirmaram dezessete nmeros para o show. Mas tm f supersticiosa no 
dezoito.

- Eu adoraria, meu amigo, mas no posso. No se lembra do que aconteceu em San Francisco?

Barry continuou me ignorando.

- vou lhe dizer quem eles j contrataram - persistiu. - Bonnie Raitt, k.d. lang, Liz Phair, Emmylou Harris.

Comecei a rir.

- Nossa! S mulheres! Por que comeou por elas?

- No tinha prestado ateno nisso. E, tem razo,- comecei pelas mulheres.

Fiquei sria.

- Acho que no posso mesmo, Barry. Agradeo a oferta, se  que est me oferecendo alguma coisa.

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Ele, porm, no estava disposto a mostrar nenhuma piedade. Mas aquilo era bom. Queria dizer que no me via como algum que merecia pena.

- Aproveite o talento que tem, ou perca-o - pressionou. - A menos, claro, que j tenha perdido.

- No, ainda no perdi. Cantei no banheiro, hoje, e estive tima. Na verdade, nunca estive melhor. H mais paixo, maturidade, efervescncia e sensibilidade na minha 
voz.

Barry correu as mos pelo teclado do piano, tocando a introduo de Perda do Estado de Graa. E, tenho de confessar, um arrepio percorreu-me a espinha.

- vou pensar - prometi, amolecendo. - Mas, honestamente, no sei se serei ca-capaz de can-cantar em p-pblico.

Pisquei para ele. Achei fabuloso que eu pudesse brincar a respeito da gagueira e do fiasco em San Francisco. Barry moveu a cabea, concordando, ento sorriu.

- vou tomar isso como um "sim".

Ele continuou a tocar Perda do Estado de Graa, e comecei a cantar.

Sou obrigada a admitir que, como tudo o que vinha acontecendo naquela minha segunda vida, cantar acompanhada por Barry foi muito bom.

No hesitei, no gaguejei. Cantei. E, sem falsa modstia, cantei maravilhosamente. Com paixo e verdadeira sensibilidade.

- Voc est cantando fora de compasso e bagunando o fraseado - ele criticou. - Bem-vinda ao lar, Maggie.

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Maggie ainda adorava andar pelas ruas de Nova York,

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no meio do povo. Bem, ela era uma mulher do povo, no era? Talvez fosse por isso que tanta gente a amasse e se identificasse com suas canes, com ela prpria.

Usava leno na cabea e culos escuros, mas, mesmo assim, sempre havia algum que a reconhecia. E ela era sempre to nojentamente boazinha! Dava um autgrafo e seguia 
em frente, com aquele seu pequeno sorriso tmido. Vaca!

Will andou vrios quarteires atrs dela. Ningum mais o perturbava pedindo seu autgrafo. Ele no existia. Tornara-se o Homem Invisvel. Morto e enterrado, certo?

No comeo da noite, seguiu Maggie para fora de Nova York e pela Saw Mill. Tudo aquilo era muito familiar para ele. A estrada para Bedford. A decadncia.

O que no lhe era muito familiar era o rumo bizarro que sua vida tomara. Como algum podia conformar-se, depois de despencar do topo de uma vida esplendorosa que 
subitamente desmoronara? Mas, para onde algum pode ir, quando atinge o topo?

Ele fora muito inteligente em tudo o que fizera at ali.

Naquela noite fatal, matara Palmer e no sentira nada, nem um pingo de remorso. No encontrara outra maneira de acabar com a chantagem a que seu ganancioso irmo 
o submetera. E ele j havia dado dinheiro demais a Palmer, desde o que acontecera no Rio de Janeiro.

Vestira o cadver do irmo com suas roupas, depois levara-o para o jardim de Maggie. Entrara em casa e provocara um escndalo. Atrara Maggie para fora, cara sobre 
ela, batera-lhe, disparara o tiro que quase partira o rosto de Palmer ao meio. Ento, desaparecera. E ficara de longe, observando os acontecimentos.

Infelizmente, sua nova vida transformara-se em um

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outro tipo de tortura. s vezes imaginava ser um demnio vivendo no fogo do inferno.

O Rio fora o ponto decisivo, ele sabia. L, matara a primeira garota. Crime e castigo no haviam parado de persegui-lo desde ento.

Viu Maggie sair da estrada e entrar na alameda de sua propriedade. Odiava v-la feliz sem ele. Por mais estranho que pudesse parecer, tentara am-la. Quisera que 
ela o salvasse de si mesmo.

Sabia qual fora o ponto decisivo a respeito de Maggie tambm. Sabia, com toda a certeza. Quando falhara na cama pela primeira vez. No perodo em que era o "sr. Maggie 
Bradford". Pensara em mat-la, quase todos os dias, desde aquele momento.

Agora, Maggie e sua pequena famlia teriam de pagar um terrvel preo por ela no o ter salvado. Crime e castigo.

Will foi jantar em um pequeno bar-lanchonete, um dos lugares favoritos dos moradores de Bedford.

Achou fantstico ficar sentado l, comendo um hambrguer gorduroso e batatas fritas, sem que ningum o reconhecesse.

E por que o reconheceriam? Ele era notcia velha. Fora realmente notcia, um dia?

O Flecha Negra. Agora, ele era isso.

Usava bon azul-marinho, sem nenhuma inscrio, bluso cinzento de malha e cala esporte caqui. No parecia nada diferente das pessoas que se amontoavam no bar, 
olhando para a televiso, vendo o Knicks perder feio para o Indiana.

No havia nada de especial nele. Por fora. Por dentro, uma loucura furiosa o consumia. Talvez, porm, no fosse o nico louco naquele grupo de homens que se aper

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tavam ao redor do balco em forma de ferradura. Nem o nico cara que tinha um certo impulso homicida no que se referia  esposa.

- O Knicks  um desastre - comentou o jovem simptico sentado a seu lado, como se lhe passasse a soma total de sua sabedoria.

- O hambrguer daqui tambm - Will respondeu. O outro riu.

Almas gmeas, ns dois, hein?, pensou Will, com vontade de continuar a conversar. Voc tambm acha? Quer ir comigo  casa de minha ex-mulher? vou matar aquela vaca 
e os dois filhos dela. Posso contar com voc?

- Patrick Ewing  mesmo um desastre - o jovem disse, contribuindo para animar a conversa.

Will concordou, concluindo que estava na hora de sair do bar. Para dizer a verdade, no sabia distinguir o Knicks do Yankees ou o Yankees do New York Jets.

J estava escuro l fora. Ele podia ver pela janela do bar.

- Bem, hora de voltar para casa e enfrentar a patroa - disse ao jovem, levantando-se da banqueta.

Tem certeza de que no quer ir junto, amigo? Bedford vai ter uma noite inesquecvel. Isso eu garanto.

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No foi muito difcil para Will entrar sem ser percebido no extenso terreno da propriedade de Maggie. Deixou o carro em um dos estacionamentos do Clube Lake, ento 
atravessou o bosque de pinheiros e um campo estreito.

Nenhum problema at ali. Tudo do jeito que ele imaginara.

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Andar no campo coberto por grama alta fez com que se lembrasse de alguma coisa. Fora ali que ele andara a cavalo com Allie, quando o menino era ainda quase um beb. 
Fizera aquilo apenas para impressionar Maggie. Sabia que a cena a comoveria e mexeria com ela tambm da cintura para baixo. Ele conhecia muito bem os pontos fracos 
de uma mulher, sabia que botes devia apertar. E j apertara todos os que Maggie tinha, cuidadosamente, um por um.

Voltando ao presente, ele pensou na semana anterior, quando fizera uma incurso experimental  casa de Maggie. Chegara a entrar, sem problemas. Tinha uma idia perfeita 
de como as coisas correriam.

A porta do poro, sob a ala que fora construda antes do resto da casa, estava aberta, como sempre estivera.

Ele no usou a lanterna, at encontrar-se no interior do poro. Aquele lugar dava-lhe arrepios. As pedras do piso eram as mesmas do tempo em que a construo antiga 
fora erguida. Uma escada de madeira subia de um ponto ao lado do frigorfico e terminava na cozinha.

Will subiu a escada e estava dentro da casa por volta de onze e quarenta. Como no dia seguinte as crianas teriam aulas, estavam todos dormindo.

JAM! Jennie, Allie e Maggie... Note bem. No puseram o W de Will.

No fundo, Maggie continuava uma caipira, ele zombou. Ia dormir cedo, levantava-se cedo.

A casa silenciosa o fez pensar em um necrotrio, o que era uma comparao bastante apropriada.

De certa maneira, fora a prpria Maggie quem lhe dera a idia para o plano daquela noite. Devia ter boas razes

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para ler e comentar todas as notcias que falavam de um marido enlouquecido que matava a esposa.

Ou vrios membros da famlia.

Era isso que Will planejava fazer aquela noite. Matar todos eles, ali mesmo, em sua casa. Depois, desapareceria para sempre. O assassino nunca seria encontrado, 
e o mistrio daria o perfeito toque final ao caso.

Ele tinha uma Smith & Wesson de dezesseis balas, mais uma afiada faca de caa. Armamento mais do que suficiente. Mas, se fosse preciso, ele faria o trabalho com 
as prprias mos. Interessante, aquela alternativa. O toque pessoal.

- Famlias so realmente um desastre - resmungou, enquanto subia a escada acarpetada para o segundo andar.

O silncio, l em cima, era total.

Talvez seja uma armadilha, ele pensou.

No, no podia ser. ><.,

O trem j estava deixando a estao. No havia mais nenhum jeito de faz-lo parar. Nada, nem no cu, nem na terra, impediria as coisas de acontecerem.

Ele respirava sem rudo, todas as inspiraes e expiraes calmas, no mesmo ritmo.

Sentia-se confiante, sabia que era bom naquilo. Sem sentimento de culpa. Sem sentimento algum.

Era apenas a coisa certa a fazer.

Muito lentamente, abriu a porta do quarto.

Podia ver tudo  luz suave e amarelada do luar que entrava pela janela.

Nenhuma surpresa desagradvel ali. Nenhuma surpresa desagradvel em lugar algum, naquela noite.

- Ol, amiguinho - Will disse, olhando para Allie, deitado em sua cama. 301

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Diabo, o que foi isso? O que foi isso?

Todos ns havamos ido para a cama cedo, e eu adormecera quase que imediatamente.

Sonhara que estava cantando em um show ao ar livre, em um enorme palco, diante de uma multido, e que, de repente, perdia a voz. No  preciso chamar-se dr. Freud 
para explicar isso.

Acordei e pensei ter ouvido um rudo naquele andar.

Jennie ainda no se deitara? Estaria indo para a cama naquele momento?

Sentei-me e olhei para os nmeros luminosos no rdio-relgio: 11:45. No era possvel que Jennie estivesse acordada at aquela hora.

Ento, ouvi outro som. Que coisa estranha! Bem, no havia dvida de que uma das crianas se levantara.

O barulho seguinte foi mais alto, como se algum estivesse arrastando uma cama.

Por fim, outro som, algo que me pareceu um grito abafado, ou um gemido. Estaria ouvindo coisas?

Sa da cama rapidamente e atravessei o quarto correndo, indo at a porta, onde parei por um instante, prestando ateno.

Meio segundo? Talvez menos que isso, ento ouvi outro som abafado, que me pareceu mais distante do que o anterior. Eu no conseguia atinar de onde viera.

Alie? AIlie se levantara e sara do quarto por algum motivo?

Corri para fora. A luz do corredor estava apagada. Acendi-a.

No havia ningum ali.

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Eu me alarmara  toa? Possivelmente. As coisas no campo pareciam escolher as horas da noite para fazer barulho. Tbuas de assoalho estalavam, venezianas batiam, 
galhos arranhavam as vidraas.

De qualquer maneira, decidi ir dar uma olhada nas crianas. Podia ser que um dos dois se sentira mal, ou tivera um pesadelo. S Deus sabia o que os dois j haviam 
passado.

O quarto de Jennie era pegado ao meu. Fui at l e abri a porta delicadamente.

Jennie no estava l!

Corri o mais depressa que pude pelo corredor, dirigindo-me ao quarto fronteiro da esquerda, que tinha uma boa vista do pasto dos cavalos.

Abri a porta impetuosamente.

Allie tambm no estava em seu quarto!

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, Existe uma explicao lgica para isso. Tem de existir, eu disse a mim mesma.

Mas no poderia estar mais apavorada.

Corri pela escada abaixo, gritando por eles.

- Jennie! Allie! Onde vocs esto? A explicao deve ser muito simples.

No havia ningum no vestbulo, nem na sala de estar. Mas vi luz no canto do corredor onde ficava o escritrio. Tudo bem. As crianas estavam no escritrio.

- Jennie? Allie? Aconteceu alguma coisa?

Corri para l, esbarrei nos livros empilhados na beirada da velha mesa do vestbulo. Os livros caram ruidosamente no cho.

Virei o canto do corredor, ento parei  porta do es

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critrio. Tudo parou. O tempo. O andamento do Universo, e todo o senso de justia e bondade que o regia.

Tudo parado.

Will estava no escritrio, com meus filhos.

Fiquei olhando para a barba e os cabelos pretos, mas sabia, sem sombra de dvida, que aquele homem era Will.

Ele segurava um revlver. Estava com as crianas. Apontava a arma frouxamente para elas.

- Ol, Maggie. Quanto tempo, no? Completamente frio. Psicopata.

-  bom ver voc de novo - ele continuou.

- Vocs esto bem? - consegui perguntar a meus filhos.

- Estamos, mame - respondeu Jennie. - Estamos bem. Estamos muito bem.

- Claro que esto - disse Will. - Qual  o problema? Nunca ouviu falar de uma coisa chamada "direito a visitas"?

Entrei no escritrio. Meu corao martelava, disparado. Will estava diante de mim! Will estava vivo!

- Eu te odeio! - gritei, sem poder me impedir.

- Tambm odeio voc, querida. Muito mais do que voc a mim. E por isso que estou aqui - Will replicou, sorrindo. - Odeio voc, cada vez mais, h muito tempo.

Controlei-me e encarei-o, tentando no entrar em pnico.

- Como teve a ousadia de voltar a esta casa, Will? Depois de tudo o que aconteceu? Por qu?

- Oh, tenho muitas e boas razes. Uma delas  ver essa confuso nos seus olhos, esse medo. Adoro essa expresso de pavor. Faz com que eu me sinta bem.

- Porque voc  um covarde - declarei, dizendo o que realmente pensava.

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- Acho que tem razo. Tem, sim. E exatamente por isso que estou aqui. Tenho medo de continuar vivendo do jeito que estou.

- No vai fazer mal s crianas, no ? Por que faria? Will deu de ombros.

- Porque so seus filhos. Porque voc me fodeu mais do que eu j estava fodido. Eu funcionava antes de me envolver com voc. Mas agora, Maggie... Cale a boca! No 
estou brincando. Cale essa maldita boca!

Apontou a arma para Allie.

Meu garotinho estava tentando no chorar, mas comeara a tremer. E no havia nada que eu pudesse fazer!

Ningum dizia uma palavra, e Will sorria, em silncio, com ar aprovador. Filho da puta, frio como o gelo!

- Ok, j sei o que vamos fazer - ele disse por fim.

- Deitem no cho. De cara para baixo. E no se mexam. Todo mundo no cho. Ns vamos brincar, Allie.

- Quem disse que vamos nos deitar? - Jennie gritou, virando-se repentinamente para ele. - Para qu? Para nos matar mais facilmente? Foi para isso que veio, no ? 
Para nos matar! Seu vagabundo! Monte de merda!

- Jennie... - chamei-a, tentando acalm-la.

Ento, adivinhei o que ela estava tentando fazer. Pelo menos, pensei ter adivinhado, tive esperana de que no me enganara, rezei para que fosse verdade.

- No vamos obedecer - gritei, como Jennie fizera.

- Sua ousadia nos d nojo! Odimos voc!

- Odimos voc! - repetiu Jennie, aos gritos.

- Odimos voc! - Allie ecoou com sua vozinha fina. De repente, Jennie jogou-se contra Will, e eu estendi

a mo para pegar a arma. Agarrei-me ao pulso dele com todas as foras. Com as duas mos! Com a fora de uma mulher enlouquecida.

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Ao mesmo tempo, ergui o joelho e atingi Will entre as pernas, com um golpe violento.

Com um sibilo, ele deixou escapar o ar dos pulmes e gemeu. O revlver escapou-lhe da mo. Peguei-o.

A arma estava em meu poder. E agora? E agora?

Recuei, distanciando-me de Will o mais depressa que pude. Uma rpida sucesso de passos para trs.

Jennie e Allie fizeram o mesmo.

- Vocs dois, fora daqui - ordenei. - Jennie, chame a polcia. Disque um, nove, zero. Depressa! Por favor! Saiam daqui!

Will me fitou. Parecia confuso. Era bvio que aquilo no fazia parte de seu plano. Ento sorriu novamente. Eu me lembrava muito bem daquele sorriso, que ele sempre 
usara de maneira to eficiente. Sorriso de assassino. Sim, isso mesmo.

- No  chato? - ele comentou com um suspiro profundo. - No foi bem assim que planejei as coisas. Mas tudo bem. Um bom artilheiro, um atacante, tem de saber improvisar. 
Voc nunca ligou para futebol, Maggie, mas fique sabendo que para um grande atacante no existe time, no h vitria ou derrota. No h nada, a no ser o gol. A 
meta.

- Will, agora sou eu quem d as ordens. Cale a boca!

- Sabe qual  a minha meta esta noite, Maggie? J descobriu?

- Nos matar - respondi, ento falei com meus filhos: - Por favor, Jennie, v chamar a polcia! Allie, saia daqui. Estou mandando. J! Chame a polcia, Jennie!

- Mame venha tambm - minha filha pediu em tom muito suave, falando bem devagar. - Saia recuando, sem soltar a arma. Venha.

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- Sabe qual  minha meta final, Maggie? - Will continuou a falar comigo. - Acho que acabei de descobrir.

Eu sabia. Compreendia muito bem como a cabea dele funcionava.

- Matar-se, depois de nos assassinar - respondi. Will bateu palmas lentamente. Aplauso de grande

homem.

- Mame, pelo amor de Deus, venha - Jennie implorou. - Por favor!

Foi nesse momento que Will comeou a andar na minha direo.

- Ser capaz de atirar, Maggie? - perguntou, os olhos fixos nos meus.

- Serei capaz de fazer tudo o que for preciso.

- Mame, por favor!

- E mesmo, Maggie? Tem coragem de mergulhar em outro pesadelo? Ou prefere morrer?  capaz de puxar o gatilho?

Ele continuava avanando. O atacante.

Avanando para o gol, como dissera. Sem senso de equipe. S Will, o solitrio. O grande derrotado.

- E capaz de puxar o gatilho?

No havia resposta fcil para aquela pergunta. Assim como no existia nenhum jeito fcil de sair daquilo.

Mas, talvez, houvesse um jeito. Talvez.

Will andava na minha direo, sempre me olhando nos olhos. Sorriu novamente.

Atirei!

- Mame, mame!

Ele agarrou a perna e cambaleou. Quase caiu.

- Ohhhhh! - gemeu. - Cristo, Maggie! Voc  uma fera! Que defesa!

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Recomeou a mover-se para a frente. Era como se a bala no o houvesse atingido.

O atacante.

O melhor do mundo.

Aquele que no parava de correr, depois que tomava o rumo do gol.

Ele quer matar-me e a meus filhos, aqui, na nossa casa.

Will tirou uma faca de sob o suter. Uma faca grande, de caa. Ergueu-a contra mim. Desceu o brao.

Atirei uma segunda vez.

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EPLOGO

CANES NOTURNAS

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Sul de Connecticut, no incio de novembro. Quatro meses e meio depois da noite em que Will invadira minha casa e eu atirara nele. Ns dois finalmente havamos desaparecido 
das revistas e das primeiras pginas dos jornais.

Faltava apenas mais um episdio para encerrar a histria.

Era uma tarde fresca e brilhante de outono. Tempo propcio para o futebol das escolas secundrias.

Mas, para mim, que olhava atravs dos escuros vidros Plexiglas de meu carro, o dia parecia sombrio. Era meu dia de dar soluo a um caso mal resolvido.

Norma estava comigo, mas era eu quem dirigia. Tinha necessidade de sentir que podia estar no controle de qualquer situao. E achava que estava. Logo iramos ver 
se isso era verdade.

Eu estava tentando ser corajosa o bastante para sobreviver quela prova final.

No fizera nada de errado, nunca. S protegera o que havia de mais importante para mim: meus filhos. Claro, cometera erros, mas quem no os comete? No caso de

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Will, eu fora vtima de suas obsesses. Ele mentira fabulosamente bem, desde o incio de nosso relacionamento.

Norma e eu falamos sobre tudo aquilo novamente durante o percurso de Bedford at a periferia de New Haven. Por fim, entrei com o carro no ptio de estacionamento 
do Institute for Living, um edifcio no estilo do incio da Repblica, que parecia um cruzamento de prdio universitrio com presdio. No era uma coisa, nem outra. 
Nada to benigno. Era um hospital psiquitrico. Um dos melhores, a julgar por sua reputao.

Norma e eu atravessamos o ptio sombreado por alamos e bordos e entramos no saguo de recepo, onde fomos atendidas por uma mulher com uniforme branco de enfermeira.

- Viemos ver o sr. Shepherd - expliquei.

Se ela me reconheceu, no demonstrou, e gostei daquilo.

- Mandarei algum lev-las at o quarto dele - foi tudo o que disse.

No demorou muito para que um atendente aparecesse para nos acompanhar.

Diante da porta do quarto de Will, virei-me para Norma.

- Importa-se de esperar aqui? - perguntei. - Acho que prefiro entrar sozinha.

- Tem certeza, Maggie? No precisa ficar se punindo, meu bem.

- Tenho certeza, sim. E no estou me punindo, porque no tenho mais medo de Will.

No muito, pelo menos.

- Fico contente por voc. - Norma sorriu. - A baixinha gorducha vai ficar esperando aqui fora. Pode ser que algum cara que passe pelo corredor seja bastante maluco 
para se apaixonar por ela.

l

310

O atendente destrancou a porta, empurrou-a, e eu entrei.

Entrei!

Era um quarto bastante simples. Cama limpa e arrumada, escrivaninha, cadeira e uma poltrona reclinvel, com um abajur de p ao lado. Havia tambm uma estante embutida 
na parede oposta  porta, onde vi alguns livros de bolso novos, que obviamente no haviam sido lidos, e uma pia de banheiro em uma parede lateral. Pareceume uma 
cela de priso melhorada.

Vi Will de p, junto  janela. Tudo no quarto estava to impecvel, que tive a impresso de que ele jamais de sentava ou deitava. Olhou-me. Na verdade, acho que 
devo dizer que olhou atravs de mim.

No tenho mais medo. Posso agentar esta prova. Posso agentar o que for preciso.

Se isso era possvel, Will estava ainda mais bonito do que na primeira vez que eu o vira, em Londres. Os cabelos, longos e cheios, haviam voltado ao loiro natural 
e brilhavam ao sol da tarde, que se filtrava pela janela protegida por uma tela grossa.

- Ol, Will. Nada.

O rosto atraente fora escanhoado e tinha uma cor rosada. Embora o corpo esbelto se mantivesse imvel, aparentemente ainda conservava a flexibilidade graciosa de 
sempre.

- Sou eu, Will. Maggie.

Parece um menino grande, pensei.

Lembrei-me dele naquela primeira festa, no Clube Lake. No dia do nosso casamento. Recordei-o confessando seu sofrimento, suas mgoas. Lembrei-me de todas as suas 
mentiras. Eu o amara porque ele soubera fazer-se amar. Era um

311

ator muito bom, afinal. Enganara tanta gente! Metade do mundo. E tentara arduamente enganar a mim tambm.

Will emitiu um som estranho, um uivo agudo que ecoou pelo quarto. O segundo tiro que eu disparara contra ele, naquela noite em minha casa, atingira-o na cabea. 
A bala ricocheteara no osso, mesmo assim fizera um grande estrago.

- Maaaaaa... maaaaaa... - ele balbuciou, olhando para mim.

Parecia querer dizer alguma coisa com aquilo e insistia, talvez para que eu entendesse. Mas eu no entendia.

Que palavra estaria querendo pronunciar?

Seria "Maggie"? Ou "mame"?

Sentei-me na cadeira dura e forcei-me a fixar o olhar no rosto dele.

Lamento ter feito isso com voc, Will, disse mentalmente. Mas no me sinto culpada. Durmo muito bem  noite. Na realidade, quem fez mal a voc foi voc mesmo.

Pensei no assassinato que ele cometera para me culpar e levar-me  cadeia. Matara o prprio irmo! No mal que causara a Jennie e Allie, com essa terrvel maquinao, 
no que planejara fazer contra ns todos.

Mas no conseguia odi-lo. No agora. No do jeito que ele estava.

- Will, voc pode me ouvir? Entende o que estou dizendo?

Seu olhar continuou morto, sem nenhuma expresso. No, ele no compreendia minhas palavras. Partira para seu prprio mundo, definitivamente.

E tudo to triste, pensei, observando-o. Voc  to jovem, Will! E parecia to promissor! Me fez muito mal, mas nunca mais far. Nem a mim, nem aos meus filhos. 
No tenho medo de voc, Will.

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Passava um pouco das cinco, quando o atendente entrou no quarto, sacudindo as chaves para chamar minha ateno.

- Terminou o horrio de visitas - avisou.

- Obrigada. Mas posso ficar s mais um minuto? Por favor.

Levantei-me e fui at a janela, parando junto de Will. Olhei para fora. A luz do sol desaparecera, encoberta por um manto cinzento e triste.

Virei-me para encarar Will.

- Sinto pena de voc, mas no posso perdo-lo.

Queria que ele falasse. Que dissesse algo para eu guardar como uma ltima lembrana. Que explicasse por que desejara me matar. Por que fizera mal a mim e a minha 
famlia.

Quem era realmente Will Shepherd? Algum sabia?

- Adeus, Will. Tenho pena de voc.

Comecei a andar em direo  porta, virando as costas para Will.

No tinha mais medo dele. 122

De repente, Will soltou um grito horrvel, que ecoou pelo hospital. Girei nos calcanhares.

Ele tornou a gritar, o corpo tremendo de modo violento.

Enfermeiros entraram correndo, e um deles, alto e robusto, tinha uma seringa de injeo na mo.

Percebi que Will j fizera aquilo antes.

- Maaaaaa... vi! - ele urrou.

i Pensei que estivesse tendo um ataque. S podia estar. t- Maaaaaa... viiii... - continuou a gritar.

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O rosto e o pescoo estavam muito vermelhos, as veias saltadas pareciam querer romper a pele. Fiquei olhando, horrorizada.

- Maaaaaa... viiii...

Maggie, vingana? Mame, viu? O que, em nome de Deus, Will estaria querendo dizer?

Nos olhos dele no havia o menor brilho de compreenso, nenhum sinal de que me reconhecera.

Os enfermeiros levaram-no  fora para a cama, e notei que suas pernas estavam paralisadas.

O Flecha Loira paralisado!

Cedendo ao impulso premente de sair dali, corri para fora do quarto. No havia mais nada que eu pudesse fazer por Will.

Norma me esperava no fim do corredor.

- Meu Deus, Maggie! O que foi aquilo? Que diabo aconteceu l dentro? Voc est bem?

Abracei-a, apertando-a com fora contra o peito, como se isso pudesse me fazer esquecer os gritos pavorosos de Will. Por fim, samos do hospital e caminhamos para 
o estacionamento coberto pelas copas escuras das rvores que se erguiam como silhuetas fantasmagricas.

No meio do caminho, parei. Tive a sensao de estar em um cemitrio e de ter ouvido um morto sair de seu tmulo para me perseguir. Havia algum atrs de mim!

Maaaaaa... viiii... Maaaaaa... viiii... Os gritos aproximavam-se rapidamente.

Aqueles olhos sem vida me perseguiam.

Mas no havia ningum me olhando da janela do quarto de Will.

No havia ningum em meu encalo, quando olhei para trs.

314

123

Em seu simples e isolado quarto de hospital, Will continuou a gritar sem descanso. A garganta ficou seca, parecendo cheia de farpas, mas os gritos no cessaram.

Os enfermeiros do turno da noite tentaram aliment-lo, trocaram suas roupas e o ajeitaram para dormir, mas ele no parou de gritar. Aquela energia, aquela resistncia 
os assombrava.

Ele era jovem ainda, atltico, espantosamente forte.

- Maaaaaa... viiii... Maaaaaa... viiii... - urrava sem cessar. - Viiii... Maaaaaa... Maaaaaa! MAAAAAA...

Vira Maggie naquele dia. Tivera conscincia de tudo o que se passara. Quisera falar com ela, mas no conseguira. No conseguira! S pudera engrolar um "Maaaaa... 
vi...".

Por que Maggie no entendera? Por que ningum entendia o que ele queria dizer?

- Viiii! Maaaaaa... viiii... Vivo!

Maggie, estou vivo! Estou vivo!

Por favor, no me deixe aqui, assim! Estou preso dentro deste corpo. Voc no v? No vai me ajudar?

- Viiii!

Vivo! Estou vivo!

De volta para casa, eu me encontrava na metade do caminho, quando compreendi o que Will tentara me dizer no hospital.

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Podia estar errada, mas tinha a forte intuio de que atinara com o verdadeiro significado das slabas engroladas.

Maaaaaa... viiii...

Maggie, estou vivo.

Will no perdera a capacidade de pensar, nem de compreender o que lhe diziam. S no conseguia falar com clareza.

Fiquei sem poder respirar de tanto horror.

Mas nunca mais fui visit-lo. Nunca irei.

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